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Professora, o poder do amor à profissão

Por Cristiane Moura Foly de Freitas

Maria Aparecida de Souza Menezes Lima e Cristiane Moura Foly de Freitas

Em homenagem à minha diretora Maria Aparecida de Souza Menezes Lima*

Ser professora dos anos iniciais do ensino fundamental atualmente, é assumir diariamente o compromisso de tocar vidas em um momento decisivo do desenvolvimento humano.     A docência nessa etapa vai além da transmissão de conteúdo: envolve acolher, escutar, orientar, acreditar e, sobretudo, amar. Ao longo de décadas, esse amor foi constantemente testado por desafios estruturais, emocionais e institucionais que atravessam o cotidiano escolar.

A docência nessa etapa é uma profissão marcada por mudanças curriculares frequentes, exigências institucionais crescentes, demandas emocionais intensas e, muitas vezes, condições de trabalho adversas. Ainda assim, muitas professoras permanecem em sala de aula por longos anos, sustentadas por um profundo compromisso ético, humano e pedagógico com a educação e com as crianças.

Diante desse cenário, emerge a seguinte problematização: o que mantém viva a motivação e o engajamento docente após 37 anos de atuação? Defende-se, neste artigo, que o amor à profissão, expresso no chamado “brilho nos olhos”, na esperança cotidiana e na crença de que a educação transforma vidas, constitui um dos elementos mais significativos para a longevidade e a qualidade da prática pedagógica.

O amor à profissão e a construção da identidade docente

A identidade docente não nasce pronta,  ela se constrói ao longo do tempo, tecida pelas experiências vividas na escola, pelos encontros com os alunos, pelos desafios enfrentados e pelo sentido atribuído ao ato de ensinar. Cada turma deixa marcas, cada criança ensina algo novo, e cada ano letivo acrescenta camadas à identidade profissional da professora.

O amor à profissão ultrapassa o simples gosto por ensinar conteúdo. Ele se traduz no compromisso com o desenvolvimento integral do aluno e na responsabilidade social do ato educativo. Para Freire (1996), ensinar exige amorosidade, respeito, ética e esperança, pois a prática educativa é um ato profundamente humano. Conforme afirma o autor: “ensinar exige respeito aos saberes dos educandos” (FREIRE, 1996, p. 30). Manter o “brilho nos olhos” após décadas de docência significa preservar essa identidade comprometida, mesmo diante do cansaço físico, emocional e das dificuldades estruturais da profissão.

Afetividade e sentido do trabalho pedagógico

A afetividade ocupa lugar central no processo de ensino e aprendizagem, especialmente na infância, fase em que a criança constrói sua relação com o saber e com o mundo. Nos anos iniciais, o olhar atento da professora, a palavra de incentivo e a presença constante tornam-se mediadores fundamentais da aprendizagem.

Para a professora que permanece décadas em sala de aula, o trabalho ganha sentido no reconhecimento do crescimento dos alunos, no reencontro com ex-estudantes e na certeza de ter contribuído para trajetórias de vida. Dejours (2004) afirma que o sofrimento no trabalho pode ser transformado em prazer quando o sujeito reconhece o valor social e humano de sua ação. A convicção de que se faz a diferença na vida das crianças sustenta emocionalmente a docente e fortalece sua permanência na profissão.

Experiência, resistência e esperança, o brilho nos olhos mesmo após 37 anos.

Permanecer 37 anos em sala de aula é mais do que um dado cronológico; é uma narrativa de resistência, entrega e esperança. Ao longo desse percurso, a professora atravessa diferentes gerações, reformas educacionais, mudanças sociais e culturais, sem perder de vista o essencial: a criança como centro do processo educativo.

Esse tempo de experiência exige constante reinvenção não só de técnicas, mas sim por meio de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal e profissional” (NÓVOA, 1992, p. 25). A professora experiente não é aquela que repete métodos, mas aquela que ressignifica saberes e permanece aberta ao aprendizado.

O amor à profissão, nesse contexto, atua como força vital que impede o endurecimento do olhar e a mecanização do ensino. Manter o “brilho nos olhos” significa continuar acreditando no potencial de cada aluno, mesmo quando os desafios parecem maiores que as forças. Trata-se de uma esperança ativa, construída no cotidiano da sala de aula.

O saber da experiência na mediação com as famílias

Ao longo de 37 anos, a professora de anos iniciais em escolas particulares torna-se uma especialista na gestão das relações interpessoais, especialmente com as famílias. Tardif (2014) aponta que o saber docente é social e construído no diálogo. Em uma trajetória duradoura, a professora deixa de apenas “dar aula” para se tornar uma referência de confiança para pais e responsáveis, que muitas vezes chegam à escola carregados de ansiedades contemporâneas.

O sentido do trabalho, nesse contexto, é renovado cada vez que a experiência da docente acalma as inseguranças familiares, estabelecendo uma parceria real em prol da criança. Esse “brilho nos olhos” é o que permite à professora acolher as demandas da família sem perder a firmeza de seu papel pedagógico. É a autoridade que não vem da imposição, mas da sabedoria acumulada, que permite entender que, por trás da cobrança, existe o desejo de acerto e que a escola é o lugar do equilíbrio.

O “brilho nos olhos” como fruto da gratidão e do pertencimento

Todos os anos de experiência, acima de tudo, tornaram-se uma oportunidade privilegiada de construir um legado afetivo e profissional. Longe de ser apenas um ambiente de exigência, a escola privada revela-se, nesta trajetória, como um espaço de convivência e trocas profundas. Para a docente que dedica décadas a esse cenário, o “brilho nos olhos” é alimentado pela gratidão de ter acompanhado o crescimento de diversas gerações, muitas vezes educando os filhos de seus antigos alunos, em um ciclo de confiança que raros profissionais têm a honra de vivenciar.

O sentido do trabalho é renovado pela gratidão por cada oportunidade de aprendizado compartilhado. Manter o entusiasmo após tanto tempo significa celebrar a estabilidade que permite o aperfeiçoamento constante e a construção de amizades que ultrapassam os muros da escola. Para a docente, o “fazer a diferença” é concretizado na certeza de que sua presença ajudou a moldar não apenas currículos, mas histórias de vida, fazendo da escola particular uma extensão de sua própria casa e de sua identidade mais nobre.

REFERÊNCIAS

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2004.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

NÓVOA, António. Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

* Diretora do Centro Educacional Leonardo da Vinci, inspiração desse artigo. Sua trajetória nos lembra, com carinho, que educar vai muito além da sala de aula: é manter vivo o brilho nos olhos, que deve sempre reger a docência.

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