A Arte de Educar: Da Inspiração do Relatório Delors ao Projeto de Jovens Escritores na CEF 418

Publicado em Agenda, Cultura

Neste ano, podemos celebrar os 30 anos do histórico relatório “Educação: um tesouro a descobrir”, coordenado por Jacques Delors a convite da UNESCO. Mais do que um documento técnico, o chamado Relatório Delors tornou-se um marco na forma de pensar a educação no mundo, ao propor uma visão integral do ser humano baseada em quatro pilares fundamentais: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

Esses pilares representam uma mudança profunda: a educação deixa de ser apenas transmissão de conteúdo e passa a ser compreendida como um processo contínuo de formação humana, capaz de desenvolver pensamento crítico, autonomia, sensibilidade e capacidade de convivência. E, nesse contexto, a leitura ocupa um papel central, ela é a porta de entrada para o conhecimento, mas também o caminho para a imaginação, para a empatia e para a construção de identidade.

É justamente essa visão que ganha vida no cotidiano da escola pública brasileira, muitas vezes graças à coragem e à convicção de educadores que acreditam no poder transformador do livro.

No CEF 418 de Santa Maria, esse compromisso se materializa por meio do projeto “Encontro de Escritores”, idealizado pelo professor Wesley Garcia, pela coordenadora Jeane de Oliveira Ferreira e com o apoio da diretora Gabriela. Mais do que incentivar a leitura, esses educadores deram um passo além: acreditaram que seus alunos poderiam ser autores.

E essa crença muda tudo.

Ao propor que crianças escrevam seus próprios livros, e mais do que isso, ao selecionar cinco dessas obras para serem adaptadas para o cinema, com atuação dos próprios alunos, o projeto concretiza, na prática, os quatro pilares de Delors. Os estudantes aprendem a conhecer ao pesquisar e criar suas histórias; aprendem a fazer ao escrever, revisar e produzir; aprendem a conviver ao compartilhar ideias e trabalhar coletivamente; e, sobretudo, aprendem a ser, ao reconhecerem em si mesmos a capacidade de criar, imaginar e se expressar.

Há mais de três anos, a Tagore Editora tem a honra de apoiar e viabilizar a publicação dessas obras, contribuindo para que esses jovens escritores tenham sua produção registrada, valorizada e compartilhada com a comunidade. Mas é importante destacar: a força do projeto nasce dentro da escola, na sensibilidade de professores que compreendem que o livro não é apenas um instrumento pedagógico,  é um instrumento de transformação.

O impacto ultrapassa os muros da escola. As famílias são tocadas profundamente ao verem seus filhos se tornarem autores. Surge o orgulho, o pertencimento e, principalmente, a percepção de que a educação pode ser viva, criativa e significativa. Muitos pais passam a enxergar, pela primeira vez, o potencial artístico e intelectual de seus filhos.

Esse movimento reforça uma verdade simples e poderosa: todo leitor é um potencial escritor. E quando a escola cria o ambiente certo, esse potencial floresce.

Relembrar o Relatório Delors, 30 anos depois, não é apenas um exercício de memória, é um chamado à ação. Em tempos de mudanças rápidas e desafios educacionais complexos, iniciativas como a do CEF 418 mostram que o caminho está menos nas grandes teorias e mais na prática cotidiana de educadores que acreditam.

Afinal, como nos ensina o próprio relatório, a educação é, acima de tudo, uma construção humana. E quando livro, leitura e criação caminham juntos, ela se transforma, de fato, em um tesouro a ser descoberto.

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