Crédito: Paulo de Araújo/CB/D.A Press

O tempo, o espaço, a memória e o pecado capital em Zuenir Ventura

Publicado em Cidades, Comunicação, Cultura, Geografia, Literatura, Política, Política, Rio de Janeiro

Mestre Zu, como era chamado por seus alunos, trabalhou nas redações mais importantes do Rio. Durante a ditadura militar, ocupou lugar destacado da resistência na imprensa carioca

Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22/9), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Mineiro de Além Paraíba, fez da imprensa carioca seu posto de observação do país. Foi repórter, editor, cronista, professor e escritor. Em cada função, preservou a disposição de ouvir as pessoas, desconfiar das versões fáceis e procurar, por trás dos acontecimentos, as forças que moldam a vida brasileira. Integrante da Academia Brasileira de Letras desde 2015, deixa uma obra jornalística de alta qualidade literária e rigor da apuração.

Mestre Zu, como era chamado por seus alunos, trabalhou nas redações mais importantes do Rio, entre as quais as de O Cruzeiro, Visão, Jornal do Brasil e O Globo. Durante a ditadura militar, ocupou um lugar destacado ponto de referência de resistência na imprensa carioca. Sob censura e repressão, Zuenir ajudou a manter abertas as possibilidades de crítica social, denúncia política e reflexão cultural. Não separava a defesa das liberdades da atenção aos direitos elementares do cidadão comum. Sua contribuição ao jornalismo combinava integridade política, curiosidade intelectual e sensibilidade diante do outro.

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Enquanto 1968 encontrou a medida do tempo, Cidade Partida (Companhia das Letras) desnudou a dimensão do “espaço” na vida carioca. Ao acompanhar o cotidiano de Vigário Geral depois da chacina de 1993, Zuenir expôs as fronteiras sociais do Rio de Janeiro. A cidade que se reconhecia nas praias, no samba e na celebração também erguia barreiras entre a favela e o asfalto. Seu olhar recusava a redução dos moradores das comunidades à violência que sofriam. Via na segregação, no preconceito e na ausência de direitos parte essencial do problema. Por isso, sua esperança de integração nascia da convivência e da escuta, práticas que o medo costuma destruir.

Cronista

A “memória” mostra sua força em Chico Mendes: Crime e Castigo (Companhia das Letras). Nas reportagens sobre o assassinato do líder seringueiro e no retorno ao Acre anos depois, Zuenir acompanhou o crime, o julgamento e suas consequências. A morte de Chico Mendes não se encerrava na identificação dos assassinos. Revelava o conflito pela terra, a violência contra quem defendia a floresta e a fragilidade da Justiça diante dos poderosos. Ao voltar à história, o repórter recusou o esquecimento. Chico Mendes permanece vivíssimo na história. Suas reportagens sobre seu assassinato receberam os prêmios Esso e Vladimir Herzog.

Zuenir foi um grande cronista. Era um observador arguto dos gestos cotidianos, das mudanças de costumes, da política e da vida urbana A crônica de corpo presente lhe permitia aproximar o grande acontecimento da experiência comum, com humor e leveza, sem perder a convicção de que os detalhes ajudam a revelar as contradições de uma época. O repórter interessado nos traumas nacionais sabia tecer a reconstituição da história na conversa, no medo, no afeto e nas pequenas alterações da vida diária.

E o pecado capital? Inveja: Mal Secreto (Editora Objetiva) é um livraço. Investigou um sentimento difícil de confessar e capaz de corroer relações. O tema parece distante da ditadura, da Amazônia ou das divisões do Rio. Mas não está. Entretanto, pertence aos universos da filosofia e da psicologia: por que alguém deseja apagar a liberdade, a felicidade ou o lugar do outro? “O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde”, mostrou Zuenir.

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Durante quase dois anos, Zuenir se debruçou sobre este pecado. Mal Secreto é o primeiro volume da coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva. É um mergulho no universo daquele que foi apontado, numa pesquisa exclusiva, entre os brasileiros, como o mais conhecido dos pecados capitais. Zuenir mostra porque a inveja é o pior dos sentimentos e se prolonga no tempo em razão das suas consequências individuais e coletivas. A inveja difere da ambição e da cobiça, é o desejo de que o outro não seja aquele que o invejoso não consegue ser.

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