Crédito: Andressa Anholete/Agencia Senado

O conto noir, o detetive durão, os negócios da política e o caso Master

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O avanço das apurações do caso Master produzirá reações políticas cada vez mais intensas. Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. É um dos líderes mais influentes do Centrão

“Pelas ruas vis deve passar um homem que não seja ele próprio vil, que não esteja maculado nem tenha medo. O detetive, nessa espécie de história, deve ser esse homem. Ele é o herói; ele é tudo. Deve ser um homem completo, um homem comum e, contudo, um homem incomum. Deve ser, para usar uma frase já bastante gasta, um homem de honra — por instinto, inevitavelmente, sem pensar nisso, e certamente sem dizê-lo. Deve ser o melhor homem de seu mundo e suficientemente bom para qualquer mundo.”

Essa passagem do ensaio literário A simples arte de matar (“The Simple Art of Murder”), de Raymond Chandler (LPM), é a melhor definição do herói noir dos romances policiais norte-americanos. O homem solitário, moralmente íntegro, mas mergulhado num mundo corrompido, no qual a fronteira entre crime e legalidade se tornou nebulosa. O herói atravessa uma sociedade decadente sem ilusões sobre justiça ou pureza como um Ulysses da sarjeta.

Essa é a ética noir. O herói não é um vencedor clássico nem um justiceiro absoluto. Ele vive cercado por corrupção, violência, políticos venais, policiais vendidos e milionários decadentes, mas preserva um código moral próprio. Sua integridade nasce da escolha pessoal e não das instituições. Sabe que não salvará o mundo. Sua função é apenas resistir à degradação sem se tornar parte dela.

O ensaio de Chandler foi um manifesto literário e moral e, ao mesmo tempo, a defesa do romance noir norte-americano como forma moderna de representação da sociedade urbana, corrupta e violenta do século XX. Expulsos de Hollywood pelo macartismo, antigos roteiristas, seus criadores transformaram o romance policial em literatura de crítica social.

Chandler considerava os enigmas dos autores policiais clássicos distantes da experiência real da violência. “O assassinato, que na realidade é uma tragédia, tornou-se uma espécie de jogo de salão”. O crime não é um quebra-cabeça abstrato. Em sua visão, a literatura policial precisava reencontrar o mundo concreto: ruas sujas, corrupção policial, chantagem, medo, desigualdade e decadência moral.

O assassinato não podia ser apenas um truque lógico; deveria revelar a própria estrutura da sociedade moderna. Em vez de lordes envenenados em mansões, surgem gângsteres, políticos corruptos, policiais vendidos, empresários inescrupulosos e mulheres fatais. O crime deixa de ser exceção e passa a integrar o funcionamento cotidiano da ordem social. Vira uma patologia, na definição clássica do antropólogo e sociólogo Émile Durkheim.

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O detetive não é um herói triunfante, mas a consciência moral solitária num universo decadente. A literatura noir fez a crítica cultural da sociedade americana do pós-guerra. A expansão do capitalismo urbano, a corrupção institucional e a mercantilização das relações humanas criaram um ambiente em que a violência foi banalizada.

O novo patamar

As histórias ocorrem nas zonas cinzentas entre legalidade e crime, porque as instituições formais já não são plenamente confiáveis. Chandler mostra que o verdadeiro mistério não está apenas em descobrir quem matou, mas em compreender por que uma sociedade produz continuamente violência, cinismo e corrupção. Seu ensaio permanece como uma das reflexões mais sofisticadas já escritas sobre crime, literatura e modernidade.

Com todos os seus ingredientes, o caso Master dispensa a ficção de um romance policial noir. Banqueiros, executivos, políticos, magistrados, o cadáver de um suicida numa cela da PF. Uma história na qual a corrupção, mais do que naturalizada, é institucionalizada. A nova ação da Polícia Federal, o que há de mais competente e íntegro no sistema de segurança, foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Seu foco são as relações entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o banqueiro Daniel Vorcaro, o dono do banco Master, cujas revelações elevaram as investigações a um novo patamar.

Ao alcançar Nogueira, um dos principais articuladores do Centrão e figura estratégica da oposição ao governo Lula, a Polícia Federal ingressa numa zona sensível, na qual qualquer passo em falso pode comprometer não apenas o destino do inquérito, mas também a credibilidade das instituições encarregadas de conduzi-lo. A proximidade entre Ciro Nogueira e o banqueiro Daniel Vorcaro já era conhecida nos bastidores de Brasília. Há outros políticos e magistrados no vasto círculo de amizade e, digamos, relações institucionais do banqueiro.

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Pagamentos mensais, aquisição de participação societária com deságio expressivo, custeio de viagens internacionais e suposta elaboração de emenda constitucional pelo próprio banco são indícios de atividades criminosas, mas quem acompanha os bastidores da política sabe que esse modus operandi da “política como negócios” predomina no Congresso e contaminou o Judiciário. Quem quiser que atire a primeira pedra. O que espanta mais é a escala. O avanço das apurações produzirá reações políticas cada vez mais intensas.

Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. Trata-se de um dos líderes mais influentes do Centrão, ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, presidente nacional do PP e peça-chave na articulação do conservadorismo brasileiro. Qualquer movimento contra ele terá repercussões no Congresso, nas alianças eleitorais de 2026 e nas relações entre a PF e o Supremo Tribunal Federal (STF). Circunscrever o caso ao escândalo financeiro é a receita pronta para o inquérito virar uma pizza napolitana. Restará a literatura policial para um dia recontar essa história ao estilo noir.

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