Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Ao lado de Sanches, Lula sobe o tom contra Trump em evento na Espanha

Publicado em Brasília, Comunicação, Congresso, Economia, Eleições, Espanha, EUA, Exportações, Geografia, Guerra, Irã, Israel, Itamaraty, Memória, Partidos, Política, Política, Trump

Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima ao presidente dos Estados Unidos e uma escalada retórica desnecessária que pode acarretar retaliações da Casa Branca

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom nas críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por causa da guerra do Irã, ontem, durante a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, em Barcelona. Durante o evento, ao lado do presidente da Espanha, Pedro Sanches, Lula criticou as guerras e o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). “Nós não podemos levantar todo dia de manhã e dormir todo dia à noite com um tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra” , disse.

Embora o ambiente fosse favorável a um discurso em defesa da paz, o tom das críticas a Trump sinaliza que pretende trazer para o debate eleitoral a relação com os Estados Unidos, em meio a negociações com a Casa Branca sobre o Pix e à iminente adoção de novas tarifas contra o Brasil pelo governo norte-americano. O contexto político interno, muito impactado pelos efeitos econômicos da guerra do Irã e a sua ultrapassagem por Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, sugere essa mudança de tática.

Ao elevar o tom contra Donald Trump em Barcelona, Lula mirou dois objetivos centrais: mitigar os efeitos econômicos internacionais sobre o cotidiano do eleitor e reconfigurar o debate eleitoral em torno da soberania e da política externa. “O que não pode é o mundo gastando US$ 2 trilhões e 700 bilhões em armas e o povo passando fome”, destacou Lula. A 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre reúne chefes de Estado e de governo de diferentes regiões do mundo para debater o fortalecimento das instituições democráticas e os principais desafios globais à governança.

Leia também: “Não podemos levantar com tuíte de presidente ameaçando o mundo”, diz Lula

Criado em 2024 por iniciativa de líderes progressistas, entre eles Lula e o espanhol Pedro Sánchez, o Fórum Democracia Sempre busca ampliar a articulação internacional em defesa da democracia diante do avanço de movimentos autoritários e extremistas em diferentes países. A edição deste ano ocorre em meio a conflitos armados em diferentes regiões, como no Oriente Médio, e ao aumento das tensões políticas internacionais, incluindo embates envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Lula aproveitou a oportunidade para aprofundar a polarização política com o presidente Jair Bolsonaro: “Nós temos um ex-presidente preso, condenado a 27 anos de cadeia. Nós temos quatro generais de quatro estrelas presos porque tentaram dar um golpe. Mas o extremismo não acabou. Ele continua vivo e vai disputar a eleição outra vez”. As pesquisas recentes mostram que o tempo fechou para Lula: há queda de popularidade e o risco eleitoral reduz a expectativa de poder. A oposição de direita, com Flávio Bolsonaro em destaque, avançou em cenários de segundo turno; em alguns levantamentos, o filho do ex-presidente está à frente fora da margem de erro. Lula acusou o golpe. “Mas ele é um problema nosso. Ele é um problema do povo brasileiro. Esse a gente lida com as nossas forças e com as nossas armas lá dentro”, reconheceu.

Guerra e feijão

A escalada do conflito dos EUA e de Israel com o Irã já pressionou preços de energia e alimentos, com isso, a percepção pública sobre a economia se deteriora apesar de indicadores macroeconômicos relativamente sólidos. A alta do preço do petróleo e seus efeitos inflacionários atingem diretamente custos de transporte, combustíveis e alimentos, amplificando a sensação de aperto sobre famílias endividadas e sobre os eleitores de renda média. Lula reforça o discurso de que não cede a interesses estrangeiros na esperança de atrair eleitores preocupados com autonomia econômica e identidade nacional.

Ao afirmar que “Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil”, Lula carrega nas tintas e transforma a geopolítica em apelo emocional. As pesquisas dirão se conseguirá mobilizar segmentos sociais que sentem o impacto imediato da inflação e da carestia, bem como eleitores que valorizam discurso de defesa nacional, embora com certeza mobilize apoio da base partidária e de atores progressistas internacionais, como no evento da Espanha. Entretanto, elevar o confronto retórico com os EUA pode bloquear canais diplomáticos para o Brasil e inviabilizar acordos técnicos e negociações comerciais e financeiras.

Leia mais: Lula diz que defesa da democracia e da liberdade o faz ‘imune’ à velhice

No plano interno, também pode funcionar como bumerangue, caso o discurso seja acolhido como um oportunismo eleitoral. Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima a Donald Trump, cuja imagem desce a ladeira nos Estados Unidos e no mundo, e uma escalada desnecessária que pode acarretar retaliações econômicas e políticas da Casa Branca. A escolha do evento em Barcelona e de Pedro Sánchez como interlocutor foi um gesto calculado. O ataque a Trump reforçou alianças ideológicas e atraiu cobertura internacional favorável.

Mas o sucesso de Lula depende mesmo é de respostas efetivas aos problemas econômicos, sociais e políticos internos. O anúncio de subvenções a combustíveis e gás, linhas de crédito para setores estratégicos e tributação compensatória busca sinalizar ação concreta do governo para mitigar os efeitos da guerra. Entretanto, as controvérsias dentro do próprio governo sobre a “taxa das blusinhas”, a subvenção à gasolina e a margem para esses e outros gastos revelam que o governo está propenso a adotar a retórica de uma “economia de guerra” para enfrentar as dificuldades eleitorais.

Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo