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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Há regiões que crescem apenas em número de moradores. Outras crescem em renda, infraestrutura e valorização imobiliária. O Lago Norte, em Brasília, cresceu em tudo isso. Mas há algo essencial que ficou para trás: a criação de um grande espaço de convivência comunitária capaz de reunir seus moradores em torno da vida social, cultural e recreativa da área.
Hoje, o Lago Norte abriga uma população superior a 40 mil habitantes. Trata-se de uma das regiões administrativas com elevados índices de escolaridade e renda do Distrito Federal. Levantamentos recentes apontam renda domiciliar média superior a R$ 15 mil mensais e mais de 70% dos adultos com ensino superior completo. A população também apresenta forte presença de idosos, ao lado de milhares de crianças e jovens que vivem nas diversas quadras, condomínios e setores habitacionais da região. São números que revelam uma comunidade consolidada, madura e economicamente relevante para o Distrito Federal. Uma população que paga elevados impostos, contribui para a arrecadação pública e ajuda a sustentar boa parte da economia local.
Mas basta observar a rotina do bairro para perceber um paradoxo. Apesar de toda sua pujança econômica, o Lago Norte não possui um verdadeiro centro de convivência comunitária. Não há um local amplo, público e permanente onde moradores possam encontrar amigos, participar de atividades culturais, assistir a apresentações artísticas, frequentar cursos, praticar esportes, caminhar em segurança ou simplesmente conviver. Os encontros acabam migrando para os shopping centers, restaurantes e bares. São opções legítimas, mas que dependem do consumo como condição de permanência. Quem deseja apenas passear, conversar ou participar da vida comunitária encontra poucas alternativas. O resultado é uma espécie de isolamento social silencioso. As pessoas moram próximas, mas convivem pouco. Conhecem os vizinhos de vista, mas raramente compartilham experiências coletivas.
A situação chama ainda mais atenção porque o Lago Norte possui características únicas dentro de Brasília. Poucas regiões dispõem de tanta área verde, proximidade com o Lago Paranoá, qualidade urbanística e potencial paisagístico. Em teoria, poderia ser um dos melhores lugares da capital para desenvolver um modelo moderno de convivência urbana, capaz de integrar diferentes gerações em torno de atividades culturais, esportivas e recreativas. É justamente nesse contexto que ressurge a discussão sobre o futuro do antigo Clube do Congresso.
Localizado em uma área privilegiada e pertencente à União, o espaço possui dimensões, estrutura e localização capazes de transformá-lo em algo muito maior do que um clube tradicional. Sua vocação natural talvez já não seja servir a um grupo restrito de associados, mas tornar-se um equipamento público voltado para toda a comunidade. A ideia de transformá-lo em um Clube de Unidade de Vizinhança merece ser debatida com seriedade. O conceito não é novo. Diversas cidades ao redor do mundo investiram em centros comunitários multifuncionais que reúnem bibliotecas, auditórios, espaços esportivos, áreas para idosos, atividades infantis, cursos profissionalizantes e programação cultural permanente. São locais onde a população encontra não apenas lazer, mas também pertencimento.
Num bairro onde vivem milhares de aposentados, profissionais liberais, servidores públicos, estudantes e famílias jovens, um equipamento dessa natureza teria enorme potencial de utilização. Os idosos encontrariam espaços adequados para atividades físicas, convivência e prevenção do isolamento social. As crianças teriam acesso a atividades educativas e esportivas. Os jovens poderiam participar de oficinas culturais, eventos e programas de formação. As famílias ganhariam um ponto permanente de encontro. Mais do que isso, o próprio Lago Norte passaria a possuir uma identidade comunitária mais forte.
Brasília nasceu sob a inspiração das chamadas Unidades de Vizinhança, conceito urbanístico que previa escolas, comércio, áreas verdes e equipamentos públicos capazes de fortalecer os laços sociais. Em muitos aspectos, esse ideal perdeu força ao longo das décadas. Recuperá-lo seria, de certa forma, resgatar uma das ideias mais interessantes presentes no projeto original da capital. A proximidade das eleições distritais oferece uma oportunidade rara para colocar essa discussão na agenda pública. Os candidatos costumam falar de trânsito, segurança e obras viárias. São temas importantes. Mas a qualidade de vida também depende da existência de espaços que permitam às pessoas viver a cidade para além do deslocamento entre casa e trabalho.
Em tempos onde as relações humanas se tornam cada vez mais virtuais e fragmentadas, investir em espaços reais de convivência pode ser uma das políticas públicas mais inteligentes que uma cidade pode adotar. Falta apenas vontade política para transformar esse potencial em realidade.
A frase que foi pronunciada:
“Mais de uma década de rezoneamentos em toda a cidade, especulação imobiliária e guerras de lances corporativos por espaços comerciais disponíveis criaram um habitat darwiniano onde o varejo corporativo prolifera e onde os pequenos comércios familiares se tornaram uma espécie em extinção.”
Alessandro Busà
História de Brasília
Agora as notícias: o Ministério da Educação autorizou o Tesouro a liberar 610 milhões para serem utilizados pela Fundação Educacional. (Publicado em 20.05.1962)
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