Leis e salsichas

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Na busca por culpados pela qualidade de políticos que, bem ou mal, representam a sociedade brasileira nos parlamentos país afora, o dedo acusador do cidadão invariavelmente aponta para os eleitores e para o pragmatismo das escolhas, feitas sempre de olho em interesses imediatos e inconfessáveis. Acontece que, dentro das regras atuais em que prevalece a vontade dos caciques partidários, a apresentação dos nomes a serem submetidos ao processo eleitoral obedece sempre a interesses internos das legendas.

Interesses esses que, muitas vezes, conflitam com os da sociedade. Ao fim, o que se tem são genuínos representantes dos donos de partidos. Obviamente, a fórmula usada na esfera federal se reproduz nos estados, municípios e no Distrito Federal, ampliando o descompasso entre representante e representados.

Sem a adoção do voto distrital e da possibilidade de se lançar candidatos sem partidos, a representação da sociedade é feita pela metade. O desalento do eleitor aumenta ainda pelo fato de inexistir o mecanismo de recall, capaz deseleger o representante ineficiente e que não corresponde {as expectativas. Mesmo as regras contidas na Lei da Ficha Limpa, de iniciativa popular, saudada como marco histórico nesse processo, foram tolhidas em sua essência com a interposição de mecanismos que relegam para o tempo lento da Justiça a decisão transitada em julgado ou proferida por órgão colegiado.

A questão é: seriam os maus representantes decorrentes diretos de legislação capenga ou simplesmente espelhos de eleitores igualmente ruins e cúmplices. A fórmula que diz que cada sociedade tem os políticos que merece explica parte periférica e ínfima do problema, mas esconde o principal que pode ser resumido em uma questão: o que querem de fato os partidos e seus representantes e o que almeja a sociedade. Se há quem compre, é certo haver quem venda. A proliferação de legenda de aluguel; as eleições milionárias; o financiamento ilegal das campanhas, feito inclusive com dinheiro desviados dos cofres públicos; o voto obrigatório; o poder da marquetagem; e outras sujeiras próprias do nosso processo eleitoral, representam apenas uma face da moeda. O outro lado é simbolizado pelas consequências nefastas para a nação e para as futuras gerações. O imenso trabalho desenvolvido atualmente pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, para desbaratar o maior esquema de corrupção de todos os tempos, tem seu nascedouro justamente no processo eleitoral.

Todos aqueles que, de algum modo, são hoje alvos da Justiça nos escândalos de corrupção, foram direta ou indiretamente colocados lá por nossa vontade por meio do voto.

Circe Cunha

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