Intolerância

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Caso fique demonstrado pelo laudo da perícia dos Bombeiros e pelas investigações da polícia que o incêndio no terreiro Axé Oyá Bagan foi ato criminoso, Brasília perderá, de vez, aos olhos do mundo, a condição de capital do ecumenismo religioso, que ainda é uma de suas boas bandeiras.

A intolerância religiosa é tão antiga quanto a própria religião e, por muito tempo e em muitos lugares, vem deixando rastro de destruição e morte. É a verdadeira religião do ódio. Ódio às diferenças. Ódio disfarçado de fé que em nada diferencia das barbáries perpetradas ao longo da história da humanidade contra cristãos, judeus, espíritas e religiões afro-brasileiras em todo o planeta.

Coincidência ou não, a ocorrência sistemática desses ataques vem se dando de forma crescente à medida que se expandem desordenadamente pela capital as religiões tipo caça-níquel, que, sob o manto da orientação neopentecostal, incentivam abertamente nos cultos a destruição de imagens e, principalmente, a perseguição, sem tréguas, ao candomblé e à umbanda. A pregação do ódio contra religiões que são, na grande maioria, bem mais antigas do que o próprio Brasil, se esconde por trás de interpretação sectária e criminosa das escrituras sagradas, estratégia bem arquitetada de expansão ilimitada do poder dos novos templos.

O verdadeiro revival dos pogroms deu mostras do que é capaz. Incêndio das imagens na Praça dos Orixás, o apedrejamento de uma criança vestida com trajes tradicionais das mães de santo, o chute do pastor da Universal na imagem de Nossa Senhora Aparecida na mesma data em que se comemorava o dia da padroeira. Esses e outros episódios de intolerância, vandalismo e vilipêndio clamam por uma postura firme das autoridades judiciais enquanto ainda é possível deter a sanha dos falsos profetas.

Assistir à destruição continuada das religiões de matriz africana equivale a assistir passivamente à grande queima de livros realizada pelos nazistas na noite de 10 de maio de 1933 em praça pública em nome da “limpeza da literatura”. É justamente esse ovo da serpente que precisa ser extirpado do meio de nós antes que seja tarde.

Tão logo soube do crime, o governador Rodrigo Rollemberg foi ao local e determinou que o diretor-geral da Polícia Civil, Eric Seba, criasse uma delegacia especializada em crimes de racismo e intolerância. Esteve no local e agiu pensando no futuro da capital.

A queima dos templos dos orixás equivale à destruição de nossa própria raiz cultural, do que somos. A repetição dos casos mostra que adentramos um caminho sem volta: ou se colocam imediatamente na cadeia os autores desses atos e seus instigadores, ou teremos inaugurado a temporada sem volta dos conflitos religiosos do tipo que assolaram a Irlanda no século passado. Ao romper, de forma bruta, o ambiente do sagrado, o que vamos assistindo, em slow motion, é desprezo por nós mesmos e pelo que somos como nação.

Circe Cunha

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