Escola sem arte, a sociedade sem alma

Compartilhe

VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje

Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

Roger Scruton (1944-2020), autor de mais de 50 livros sobre estética, filosofia e artes, insistia numa ideia que, em tempos de ensino cada vez mais voltado apenas para indicadores estatísticos e resultados imediatos, parece soar quase deslocada: a de que o ensino das disciplinas artísticas constitui um dos alicerces mais essenciais da formação humana. Nas escolas brasileiras, porém, essa convicção parece ter sido relegada a um esquecimento progressivo e preocupante, como se a arte fosse um item dispensável numa lista de prioridades cada vez mais estreita. Para o filósofo britânico, a arte não representa um luxo reservado às elites, tampouco um passatempo ornamental destinado a preencher horários vagos dos currículos escolares. Trata-se, em sua visão, de um dos instrumentos mais poderosos já desenvolvidos pela civilização para formar seres humanos capazes de distinguir o belo do grotesco, o verdadeiro do falso, o elevado do vulgar. Em outras palavras, a arte não apenas educa o olhar — ela educa o caráter, molda a sensibilidade e amplia a capacidade de julgamento moral.
Essa compreensão esteve presente durante séculos nas principais tradições educacionais do Ocidente. Da Grécia antiga ao Renascimento italiano, passando pelas universidades medievais e pelas grandes escolas europeias dos séculos XVIII e XIX, música, pintura, literatura, teatro e arquitetura jamais foram consideradas disciplinas secundárias. Naquele período, as artes eram vistas como parte indispensável da formação intelectual e moral dos indivíduos, tão relevantes quanto a lógica, a retórica ou a geometria. A ideia subjacente era simples e ao mesmo tempo profunda: quem aprende a contemplar a beleza dificilmente permanece indiferente ao caos, à violência e à degradação que a cercam. No Brasil, ocorreu exatamente o movimento inverso. Nas últimas décadas, o ensino das artes foi sendo lentamente esvaziado, reduzido a uma atividade complementar, frequentemente ministrada sem estrutura adequada, sem professores especializados e sem continuidade pedagógica. Em muitas escolas públicas, a disciplina praticamente desapareceu do cotidiano dos estudantes, substituída por conteúdos considerados mais “úteis” para avaliações oficiais e para a preparação de provas padronizadas. O resultado é que uma geração inteira cresce sem qualquer contato sistemático com a música erudita, a pintura clássica, a escultura, a poesia, a história da arte ou mesmo com a rica produção artística nacional, um patrimônio que deveria ser motivo de orgulho e não de desconhecimento generalizado.
Os números ajudam a compreender esse cenário preocupante. O Brasil figura há anos entre os países com pior desempenho nas avaliações internacionais do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), da OCDE, especialmente em leitura, matemática e ciências. Embora essas provas não meçam diretamente a educação artística, revelam uma dificuldade mais ampla na formação cultural e cognitiva dos jovens, um sintoma de algo mais profundo do que meras lacunas técnicas. Paralelamente, estudos mostram que o acesso a museus, concertos, bibliotecas e teatros permanece extremamente restrito para a maioria da população. Em muitos municípios brasileiros sequer existe um teatro em funcionamento, enquanto inúmeras bibliotecas públicas operam de forma precária, com acervos desatualizados, ou permanecem simplesmente fechadas por falta de recursos e de vontade política.
Scruton chamava atenção para a experiência estética que desperta no indivíduo um sentimento de pertencimento à civilização, uma sensação de continuidade histórica que dificilmente pode ser alcançada por outros meios. Ao contemplar uma sinfonia de Bach, uma pintura de Rembrandt, uma catedral gótica ou um poema de Camões, o estudante percebe que faz parte de uma longa cadeia de produção cultural que o antecede e que continuará após ele. Desenvolve, assim, respeito pelo legado recebido e compreende que também possui responsabilidade diante das futuras gerações uma espécie de contrato silencioso entre passado, presente e futuro. Esse processo de formação parece estar sendo interrompido em ritmo acelerado. O ambiente cultural contemporâneo, marcado pela velocidade das redes sociais, pela predominância da imagem instantânea e pela substituição da reflexão pausada por um entretenimento permanente e fragmentado, reduziu drasticamente o tempo destinado à contemplação. Não surpreende, nesse contexto, que aumentem os episódios de violência escolar, intolerância, incapacidade de diálogo e dificuldades emocionais entre adolescentes. Evidentemente, tais problemas possuem múltiplas causas econômicas, familiares e sociais, entre outras, e seria simplista atribuí-los apenas ao esvaziamento das artes. Entretanto, a ausência de formação estética contribui, de maneira silenciosa mas persistente, para empobrecer a vida interior dos jovens. Quem nunca aprendeu a se emocionar diante da beleza frequentemente encontra maior dificuldade para desenvolver empatia, autocontrole e sensibilidade diante do sofrimento alheio.

A frase que foi pronunciada:
“Que aqui se respire sempre liberdade e criação, e que a Arte e Cultura, a beleza e a inteligência, respeitando integralmente o que somos e o que fomos, abram as portas para os amanhãs de nossa terra.”
Ex- presidente José Sarney quando criou a Lei de Incentivo a Cultura

História de Brasília
Mazzola e Sormani somente poderão jogar pela Itália se forem italianos e é nessa qualidade, de acôrdo com as leis italianas, que vão participar da Copa do Mundo (mesmo porque, se se declararem brasileiros não poderão integrar a seleção de nenhum outro país, a não ser a do Brasil). (Publicada em 25.05.1962)

Circe Cunha

Posts recentes

  • Íntegra

O passado medieval volta a escola do futuro

VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 Hoje com Circe Cunha e…

22 horas atrás
  • Íntegra

A cruz esquecida e o que as lições da Europa

VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e…

2 dias atrás
  • Íntegra

Debate eleitoral é uma obrigação moral e ética

VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e…

4 dias atrás
  • Íntegra

O retrato em preto e branco da educação no Distrito Federal

VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e…

6 dias atrás
  • Íntegra

A diplomacia capturada

VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e…

7 dias atrás
  • Íntegra

Água e energia a preços de primeiro mundo

VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e…

1 semana atrás