Avesso

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Uma das consequências mais salientes de declarações dadas sem o devido freio da razão é que elas têm o poder de revelar muito mais do que pretendia o próprio parlapatão. Falar sem pensar deixa brechas escancaradas para a interpretação das entrelinhas, que, ao fim e ao cabo, é o que interessa e importa. É preciso ver o que foi dito, enxergar as palavras no contexto próprio.

Reagrupadas na sua ordem natural, as palavras, soltas ao vento, acabam por sussurrar a verdade. Na declaração em que a presidente Dilma desafiou os investigadores e a oposição a continuar virando sua vida do avesso já que sobre ela não paira nenhum embaçamento, mais uma vez a frase apresenta as chaves que abrem as portas para adentrar, pelas beiradas, o universo dilmiano.

Abre-se aqui um parêntese no tempo, para lembrar que uma das primeiras medidas de Dilma à frente da Casa Civil foi virar a vida de Ruth Cardoso do avesso, ocasião em que foram expostas ao público as despesas com os cartões corporativos da primeira-dama, com informações inverídicas, na tentativa de desconstruir a figura da respeitada antropóloga.

O termo avesso aparece nessa declaração como arquétipo íntimo que revela, antes de tudo, um estado consciente da situação de estar com a vida pessoal virada pelo avesso. No avesso está a verdadeira fantasia, o que está oculto. O avesso de uma roupa revela as costuras e as emendas do tecido, os bastidores e as fragilidades.

No caso do Brasil, depois de mais de uma década, o país foi literalmente virado às avessas. Nessa situação, o país retrocedeu para o período imediatamente anterior ao Plano Real, da hiperinflação. No caso do governo, as investigações do mensalão e da Lava-Jato expuseram o avesso ou os bastidores do poder. Ao país foi apresentado o avesso de um partido que declarava que iria pôr fim a tudo que aí está.

O fim do embaçamento revelou as urdiduras de um grupo ou camarilha no poder. O embaçamento das vidraças do Palácio do Planalto com medidas populistas impediu que a população visse o que realmente se passava no Palácio do Planalto. O embaçamento da visão e da realidade é forma de cegueira seletiva a impedir a presença do mundo real.

Enquanto os mais próximos vão tombando um a um a seu lado, prossegue a sucessora, pelo troar seu fantasma: podem me virar do avesso que não vão encontrar nada. O que o avesso tem revelado é o que esta aí aos pedaços para todo mundo ver. Basta abrir os olhos.

Circe Cunha

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Circe Cunha

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