A Igreja diante da possibilidade de um novo cisma

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VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje

Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

Ao longo de seus dois mil anos de história, poucas ameaças mostraram-se tão perigosas para a Igreja Católica quanto aquelas que nasceram dentro de seus próprios muros. Perseguições externas, impérios hostis, revoluções anticristãs e regimes totalitários jamais conseguiram destruir a Igreja. As maiores crises surgiram quando parte de sua própria hierarquia passou a divergir sobre questões doutrinárias, disciplinares ou pastorais. Foi assim no Grande Cisma do Oriente, em 1054. Foi assim durante a Reforma Protestante do século XVI. Em todos esses momentos, o problema não estava apenas nas forças que pressionavam a Igreja de fora para dentro, mas também na incapacidade de preservar a unidade em torno daquilo que sempre foi considerado imutável.
É nesse contexto que chamam atenção as recentes declarações do bispo Jan Paweł Lenga, bispo emérito de Karaganda, no Cazaquistão. Em um texto que circulou amplamente entre grupos católicos tradicionalistas, ele afirma que “cargos-chave estão sendo cada vez mais ocupados por pessoas completamente corrompidas pelo mundo” e sustenta que determinados cardeais e bispos “já não têm absolutamente nada em comum com a Igreja de Cristo”. Para Lenga, aqueles que acusam outros de provocar divisões seriam justamente os responsáveis por um cisma silencioso em curso. Trata-se de uma acusação gravíssima. Mais do que uma crítica administrativa ou disciplinar, ela atinge o próprio coração da autoridade eclesiástica. O termo “cisma”, na tradição católica, significa a ruptura da comunhão com a autoridade legítima da Igreja. Historicamente, essa palavra nunca foi utilizada de forma leviana. Seu emprego sempre esteve associado a acontecimentos capazes de alterar profundamente o destino do cristianismo. É evidente que essa não é a posição oficial da Igreja Católica. A Santa Sé continua afirmando que o Concílio Vaticano II deve ser interpretado em continuidade com toda a tradição anterior, e não como uma ruptura.
Diversos teólogos sustentam que as reformas litúrgicas e pastorais buscaram responder aos desafios do mundo contemporâneo sem modificar os dogmas fundamentais da fé. Em outras palavras, os dogmas fundamentais permanecem os mesmos, enquanto a liturgia, a linguagem, os métodos pastorais e o relacionamento da Igreja com a sociedade podem ser renovados para responder às necessidades de cada época.

Essa interpretação tornou-se especialmente influente após a formulação da “hermenêutica da continuidade” por Bento XVI, que procurou mostrar que as reformas conciliares devem ser lidas como um desenvolvimento orgânico da tradição católica, e não como uma ruptura com ela. Entretanto, seria igualmente um erro ignorar que existe hoje um debate interno de grandes proporções.
Em diferentes países, bispos, cardeais, sacerdotes e intelectuais católicos manifestam preocupação com temas que vão desde a liturgia até questões morais envolvendo casamento, sexualidade, comunhão, ecumenismo e sinodalidade. Não se trata de uma discussão periférica, mas de um confronto entre diferentes compreensões sobre a missão da Igreja no século XXI. Nomes como o cardeal Raymond Burke, o cardeal Gerhard Ludwig Müller, o bispo Athanasius Schneider e o próprio arcebispo Carlo Maria Viganò têm expressado críticas contundentes a diversos rumos adotados nos últimos anos, ainda que cada um o faça em graus e fundamentos distintos. Alguns falam em crise doutrinária. Outros preferem falar em crise pastoral. Há ainda aqueles que enxergam uma crescente influência da cultura secular sobre decisões e documentos eclesiais.
O temor manifestado por esses setores é o de que, na tentativa de dialogar com o mundo contemporâneo, a Igreja acabe assimilando categorias culturais incompatíveis com sua tradição bimilenar. Para esses críticos, a preocupação excessiva com adaptação social poderia levar ao enfraquecimento da identidade católica. Por outro lado, muitos bispos e teólogos argumentam exatamente o contrário. Sustentam que a evangelização exige novas linguagens e novas formas de presença pastoral, sem que isso implique abandono da doutrina. Segundo essa perspectiva, a Igreja sempre passou por processos de desenvolvimento e atualização ao longo da história, preservando o depósito da fé enquanto adaptava sua ação missionária às circunstâncias de cada época. O fato é que a tensão existe e dificilmente pode ser ignorada. A própria história demonstra que grandes divisões nunca surgem de um dia para o outro. Elas costumam ser precedidas por anos de debates, incompreensões, acusações mútuas e perda gradual da confiança entre diferentes setores da mesma comunidade. Também merece reflexão o uso recorrente da imagem bíblica do “lobo entre as ovelhas”. A metáfora aparece nos Evangelhos como advertência contra falsos mestres e falsos profetas.

A frase que foi pronunciada:
“O maior entre vós seja como o mais jovem, e aquele que governa como quem serve.”
Jesus Cristo

História de Brasília
Dona Elba Sette Câmara foi ao Hospital Distrital, solicitou uma relação de material, levou para as crianças, socorreu-as, e, embora tenha provocado uma crise administrativa, salvou muitas crianças e adultos. (Publicada em 24.05.1962)

Circe Cunha

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