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SENDO A PRÓPRIA ESTRADA

Publicado em Espiritualidade, Filosofia, Psicologia, transtornos

Escrevi este texto para o Correio Braziliense, Ciência e Saúde, inspirada na música TOCANDO EM FRENTE, de Almir Sater, como parte da matéria de Paloma Oliveto intitulada BORDERLINE: TESE RELACIONA DEPENDÊNCIA AFETIVA A VÍCIOS EM DROGAS E JOGOS.

Leia o texto, leia a matéria, curta a música!!!

Quando se fala na inter-relação dos sintomas da Síndrome de Borderline e dos relacionamentos adictivos, logo se destaca o chamado vazio interior ou vazio existencial. Mas esse vazio aparece em quase todos os demais distúrbios psiquiátricos, se não em todos.

E me arrisco a dizer que não se trata de um sintoma, trata-se de uma característica humana. Um sintoma é indício de que alguma coisa não vai bem. Uma característica é algo próprio de alguém ou grupo.

Talvez o vazio interior seja a causa ou, melhor dizendo, talvez a causa desses distúrbios seja a nossa incapacidade, maior ou menor, de lidar com esse vazio, o que faz com que nos lancemos na missão de preenchê-lo, muitas vezes com uma urgência que embota o raciocínio, cega, destrói, enlouquece, mata.

Quem foi que disse que vazio existencial precisa ser preenchido? Se é uma característica humana, talvez o melhor seja aceitar e buscar entender o que ele nos quer dizer, sem alvoroço, sem trazê-lo para o centro da nossa vida, sem jogar sobre ele todos os holofotes. Porque, se isso fazemos, perdemos a noção de conjunto e esquecemos o que realmente merece ser destacado — o que já nos preenche.

Acho que o pulo do gato está nesta música de Almir Sater: “Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe? Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou nada sei… Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente. Como um velho boiadeiro levando a boiada, eu vou tocando os dias, pela longa estrada eu vou. Estrada eu sou.”. Talvez o lance seja sermos a nossa própria estrada.

9 thoughts on “SENDO A PRÓPRIA ESTRADA

  1. Muito interessante a relação entre dependência afetiva a jogos. Tem absolutamente tudo a ver. Acabei de constatar que passei por isso! Vive 10 anos muito infeliz num relacionamento que durou 15 anos. Auto-estima no fundo do poço, era como se eu fosse invisível para o meu companheiro, me esforçava para ser notada, era uma canseira. Coincidência ou não, os jogos de bingo e máquinas caça níqueis foram permitidos em Brasília. Fui conhecer. Ai que ótimo, ali conseguia preencher meu vazio. Muitas pessoas, luzes, barulho, prêmios, ilusão, animação, muiiiiiito cigarro (irk), bebida, pessoas abandonadas, sozinhas, muita conversa, companhias, novos colegas. Chegava em casa tarde, as vezes saía tão cedo para jogar… E como mencionou Maraci, certamente é um distúrbio psiquiátrico. Me tratei, separei, toquei para frente e hoje sendo a própria estrada.

    1. Belo e corajoso depoimento, Simone! Certamente ajudará alguém. Parabéns pela força, por ter dado a volta por cima, por conseguir ser sua própria estrada!

  2. Vazio existencial! Todo mundo se não tem, já teve. Infelizmente as pessoas sentem esse vazio e acha que tá ligado a outra pessoa ou a falta dela e não tem nada a ver com ninguém a não ser com nós mesmos. Penso que esse vazio vai acabando com o tempo, de acordo com que a gente vai amadurecendo. Li esses dias um texto muito lindo e em uma parte dela dizia: “as pessoas deveriam se unir já se sentindo preenchidas por si mesmas e ficarem juntas apenas para apreciar isso no outro em vez de esperar que o outro supra essa sensação de bem-estar que elas não têm sozinhas…”.

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