{"id":7907,"date":"2018-05-09T00:13:53","date_gmt":"2018-05-09T03:13:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=7907"},"modified":"2018-05-08T23:19:18","modified_gmt":"2018-05-09T02:19:18","slug":"correio-economico-tempos-de-humilhacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/correio-economico-tempos-de-humilhacao\/","title":{"rendered":"Correio Econ\u00f4mico: Tempos de humilha\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>A decis\u00e3o da Argentina de recorre r ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) ressuscitou um passado nada promissor da Am\u00e9rica Latina, no qual, ao menor sinal de crise, governantes corriam para Washington em busca de socorro. Com pol\u00edticas econ\u00f4micas fracassadas, aceitavam todos os tipos de imposi\u00e7\u00f5es \u2014 e humilha\u00e7\u00f5es \u2014, que resultavam em grandes sacrif\u00edcios \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sem a garantia de que os problemas seriam resolvidos. Depois de curtos per\u00edodos de estabilidade, as crises voltavam ainda mais fortes. Foram pelo menos duas d\u00e9cadas de tormento, calotes e sucessivas recess\u00f5es.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de o sinal de alerta ter sido ligado, a grande maioria dos economistas n\u00e3o acredita na volta desses tempos sombrios. A Argentina \u00e9 um caso isolado, ante a incapacidade do pa\u00eds de recorrer ao mercado internacional para se financiar. Sem reservas cambiais suficientes para enfrentar as mudan\u00e7as de humor dos investidores, o pa\u00eds vizinho achou por bem pegar US$ 30 bilh\u00f5es emprestados com o FMI em vez de pagar juros elevad\u00edssimos. Como diz o presidente argentino, Maur\u00edcio Macri, o Fundo passou a ser a melhor alternativa para uma na\u00e7\u00e3o extremamente dependente de financiamento externo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que, com o refor\u00e7o no caixa, a Argentina consiga transitar por caminhos menos tortuosos nos pr\u00f3ximos meses. Mas, para convencer os investidores de que pode superar seus problemas, o governo Macri ter\u00e1 que refor\u00e7ar o compromisso com a responsabilidade fiscal e, sobretudo, com a queda da infla\u00e7\u00e3o. Desde que assumiu a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, no fim de 2015, Macri recebeu todo o apoio dos donos do dinheiro. Contudo, a fim de n\u00e3o empurrar a economia para a recess\u00e3o, optou por um gradualismo no ajuste. A infla\u00e7\u00e3o caiu de 40% para 24% ao ano, elevad\u00edssima para os padr\u00f5es mundiais, e o deficit p\u00fablico se mant\u00e9m pr\u00f3ximo de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) quando inclu\u00eddos os juros da d\u00edvida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O governo argentino sabe que ter\u00e1 que abrir m\u00e3o de parte do crescimento econ\u00f4mico para tirar o pa\u00eds do atoleiro em que se encontra. E isso ter\u00e1 pesados custos pol\u00edticos. A descren\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 grande, abrindo espa\u00e7o para o fortalecimento do peronismo encabe\u00e7ado por Cristina Kirchner, respons\u00e1vel, com o marido, por 13 anos de uma administra\u00e7\u00e3o populista que levou o pa\u00eds vizinho para a beira do precip\u00edcio. Sem paci\u00eancia, com juros de 40% ao ano \u2014 os maiores do mundo \u2014 e d\u00f3lar nas alturas, os argentinos podem voltar a acreditar no canto da sereia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Diferen\u00e7as entre vizinhos<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim que soube do pedido de socorro da Argentina ao FMI, o presidente Michel Temer recomendou a seu time econ\u00f4mico que amplificasse as diferen\u00e7as entre o vizinho e o Brasil. O Pal\u00e1cio do Planalto n\u00e3o quer, de forma nenhuma, que a onda de desconfian\u00e7a do outro lado da fronteira contamine a economia brasileira, que j\u00e1 n\u00e3o anda l\u00e1 essas coisas. Por conta do estresse dos investidores, o d\u00f3lar voltou a subir, flertando com os R$ 3,60, pre\u00e7o a partir do qual os analistas j\u00e1 come\u00e7am a ver impacto na infla\u00e7\u00e3o. A moeda norte-americana foi cotada ontem a R$ 3,57 para venda, com alta de 0,48%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temer, inclusive, questionou auxiliares sobre a possibilidade de o Banco Central suspender a alardeada queda da taxa b\u00e1sica de juros (Selic) na pr\u00f3xima semana, de 6,50% para 6,25% ao ano. O mercado se dividiu em suas apostas. Havia duas semanas, era quase un\u00e2nime a posi\u00e7\u00e3o de que o Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) anunciaria mais uma queda de 0,25 ponto percentual. Agora, 50% dos analistas duvidam da coragem do BC de ratificar sua promessa ante o quadro internacional incerto, com disparada dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, que elevam o valor dos combust\u00edveis, e d\u00f3lar subindo sem parar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A vis\u00e3o do Planalto \u00e9 a de que o BC tem raz\u00f5es consistentes para levar a Selic para 6,25% e encerrar, nesse n\u00edvel, o ciclo de afrouxamento monet\u00e1rio iniciado em outubro de 2016. A infla\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m pr\u00f3xima a 3%, o piso da meta. Ao contr\u00e1rio da Argentina, o Brasil tem reservas cambiais de sobra, algo como US$ 380 bilh\u00f5es. O deficit nas contas externas \u00e9 amplamente financiado por investimentos estrangeiros de longo prazo. H\u00e1, por\u00e9m, a fragilidade das contas p\u00fablicas. Como no pa\u00eds de Macri, n\u00e3o se conseguiu reverter por aqui o rombo fiscal. Neste ano, o buraco ser\u00e1 de ao menos R$ 159 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ajustes pendentes<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Eduardo Velho, economista-chefe do Banco do Estado do Esp\u00edrito Santo, os argumentos do governo para tentar blindar o pa\u00eds de um cont\u00e1gio da crise argentina s\u00e3o consistentes. Tanto que ele mant\u00e9m a proje\u00e7\u00e3o de mais uma queda na taxa Selic na pr\u00f3xima semana. Ele ressalta, por\u00e9m, que, com o d\u00f3lar mais alto, acima de R$ 3,50, a infla\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a subir nos pr\u00f3ximos meses, o que obrigar\u00e1 o Banco Central a inverter a pol\u00edtica monet\u00e1ria e a elevar os juros a partir do fim de 2018 ou do in\u00edcio de 2019, j\u00e1 com o Brasil sob novo comando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pelos c\u00e1lculos dele, o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como refer\u00eancia para o sistema de metas, fechar\u00e1 o pr\u00f3ximo ano acima dos 4,25% fixados pelo governo como objetivo a ser perseguido pelo BC. A subida dos juros ser\u00e1 pequena, mas o suficiente para refor\u00e7ar o compromisso com o equil\u00edbrio macroecon\u00f4mico. O Brasil, acredita Velho, tem tempo suficiente para fazer os ajustes que ainda est\u00e3o pendentes. S\u00f3 precisar\u00e1 de vontade pol\u00edtica para n\u00e3o perder o bonde da hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A decis\u00e3o da Argentina de recorre r ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) ressuscitou um passado nada promissor da Am\u00e9rica Latina, no qual, ao menor sinal de crise, governantes corriam para Washington em busca de socorro. 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