{"id":5927,"date":"2017-08-31T06:34:52","date_gmt":"2017-08-31T09:34:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=5927"},"modified":"2017-08-31T14:15:16","modified_gmt":"2017-08-31T17:15:16","slug":"coluna-no-correio-agarrado-nos-juros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-agarrado-nos-juros\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Agarrado nos juros"},"content":{"rendered":"<h2>Em meio ao atoleiro fiscal do qual n\u00e3o se sabe quando o pa\u00eds sair\u00e1, o governo se agarra ao que pode para tentar manter uma agenda positiva no horizonte. O Pal\u00e1cio do Planalto conta, desesperadamente, com o an\u00fancio de mais um corte na taxa b\u00e1sica de juros (Selic) pelo Banco Central na pr\u00f3xima semana. N\u00e3o h\u00e1 nada, na avalia\u00e7\u00e3o da equipe do presidente Michel Temer, que justifique uma redu\u00e7\u00e3o inferior a um ponto percentual, de 9,25% para 8,25% ao ano, o que colocar\u00e1 a Selic no n\u00edvel mais baixo desde maio de 2013.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temer acredita que o Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) levar\u00e1 os juros para algo entre 7% e 7,5% at\u00e9 o fim deste ano. Com a taxa b\u00e1sica nesse patamar, aposta-se que boa parte do programa de concess\u00f5es e de privatiza\u00e7\u00f5es se tornar\u00e1 atraente aos olhos dos investidores. Com recursos extras garantidos, o risco de n\u00e3o se cumprir a meta fiscal de 2018, de deficit de at\u00e9 R$ 159 bilh\u00f5es, ficar\u00e1 bem menor. N\u00e3o passa pela cabe\u00e7a de integrantes da equipe econ\u00f4mica emitir mais um recibo de incapacidade de cumprir o que prometeu. Bastou o vexame deste ano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A queda de pelo menos mais um ponto nos juros \u00e9 tiro certo. A infla\u00e7\u00e3o medida pelo \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) dever\u00e1 ficar abaixo de 3% no acumulado de 12 meses at\u00e9 outubro, movimento que pode, inclusive, se repetir em novembro. O IPCA s\u00f3 n\u00e3o ser\u00e1 inferior ao piso da meta fixada pelo Conselho Monet\u00e1rio Nacional (CMN) neste ano por causa dos recentes aumentos da gasolina e da conta de luz. Pelo sistema de metas, a infla\u00e7\u00e3o pode variar entre 3% e 6%, sendo que o alvo central \u00e9 4,5%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O quadro inflacion\u00e1rio est\u00e1 t\u00e3o positivo que boa parte dos economistas vem reduzindo as proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o para agosto e para este ano. Em vez de um \u00edndice mais pr\u00f3ximo de 0,5% para este m\u00eas, por causa dos pre\u00e7os administrados, acredita-se que o custo de vida ficar\u00e1 em torno de 0,3%. A se confirmar tal estimativa, o IPCA encerrar\u00e1 2017 entre 3% e 3,2%, taxa sem precedentes em mais de uma d\u00e9cada. Foi o efeito devastador da recess\u00e3o que levou o consumo a nocaute.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Reajustes salariais<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os economistas, inclusive do governo, acreditam que, com infla\u00e7\u00e3o t\u00e3o baixa, os sindicatos perder\u00e3o parte dos argumentos para exigir reajustes salariais muito altos. Entre agosto e novembro, ocorrem as negocia\u00e7\u00f5es coletivas de categorias muito organizadas, como a dos banc\u00e1rios, dos metal\u00fargicos e dos petroleiros. Aumentos contidos nos contracheques significam repasses menores para os pre\u00e7os e crescimento moderado do consumo. \u00c9 uma vis\u00e3o terr\u00edvel, mas que, para o Banco Central, \u00e9 garantia de que o manejo do IPCA ser\u00e1 mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O BC, por sinal, defende que, em vez de olharem para a infla\u00e7\u00e3o passada, os sindicatos mirem, nas negocia\u00e7\u00f5es salariais, as expectativas futuras do IPCA. Seria uma ajuda e tanto para reduzir o que os especialistas classificam de in\u00e9rcia \u2014 carregamento da varia\u00e7\u00e3o passada do custo de vida para os pre\u00e7os futuros. Com a atividade no ch\u00e3o, o espa\u00e7o para a transfer\u00eancia de qualquer custo para o valor de servi\u00e7os e mercadorias se fechou quase que por completo. \u00c0 medida, por\u00e9m, que a economia for se recuperando, ind\u00fastria e com\u00e9rcio ficar\u00e3o mais compelidos a ampliar as margens de lucro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa quest\u00e3o salarial, o BC tamb\u00e9m conta com os efeitos da terceiriza\u00e7\u00e3o e da reforma trabalhista para evitar bolhas no mercado de trabalho, como as vistas antes de o pa\u00eds ficar de joelhos e de o n\u00famero de desempregados passar dos 14 milh\u00f5es. A flexibiliza\u00e7\u00e3o nas regras de contrata\u00e7\u00e3o far\u00e1 com que o \u00edndice de desocupa\u00e7\u00e3o diminua, mas sem provocar saltos espetaculares no consumo. Outro ponto importante que tranquiliza a autoridade monet\u00e1ria \u00e9 a perspectiva de uma nova supersafra agr\u00edcola, que manter\u00e1 os pre\u00e7os dos alimentos em baixa. E um d\u00f3lar girando perto dos R$ 3,20.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ou seja, acreditam auxiliares de Temer, o BC tem, diante de si uma oportunidade \u00fanica para derrubar os juros a n\u00edveis mais civilizados, sem o risco de repetir o pesadelo de 2012 e 2103, quando a Selic cedeu para 7,25%, mas, seis meses depois, voltou a subir por causa dos descontrole inflacion\u00e1rio. Um grupo mais otimista do Planalto diz que, nesse contexto, os juros poderiam cair para at\u00e9 6% ao ano. Mesmo nesse patamar, a pol\u00edtica monet\u00e1ria manteria a efici\u00eancia para conter a infla\u00e7\u00e3o, pois a entrada em vigor da Taxa de Longo Prazo (TLP) acabar\u00e1 com as distor\u00e7\u00f5es hoje existentes no mercado de cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Portas abertas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Confirmado o corte de um ponto na Selic na pr\u00f3xima quarta-feira, o BC manter\u00e1 as portas abertas para novas quedas, mas sem se comprometer com um n\u00edvel espec\u00edfico. A tend\u00eancia da autoridade monet\u00e1ria ser\u00e1 incentivar o mercado a construir o cen\u00e1rio para os rumos dos juros. Tudo o que o time comandado por Ilan Goldfajn n\u00e3o quer \u00e9 indicar um caminho e, depois, ter de recuar. J\u00e1 basta o presidente Temer mudar de posi\u00e7\u00e3o de acordo com o n\u00edvel da gritaria contr\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanto ao discurso da import\u00e2ncia das reformas, sobretudo a da Previd\u00eancia, para derrubar a taxa b\u00e1sica, o BC dir\u00e1 que elas s\u00e3o importantes para a consolida\u00e7\u00e3o, a longo prazo, de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria menos restritiva. Neste momento, o peso maior para se levar a Selic aonde quer o governo vir\u00e1 da infla\u00e7\u00e3o. E ponto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio ao atoleiro fiscal do qual n\u00e3o se sabe quando o pa\u00eds sair\u00e1, o governo se agarra ao que pode para tentar manter uma agenda positiva no horizonte. O Pal\u00e1cio do Planalto conta, desesperadamente, com o an\u00fancio de mais um corte na taxa b\u00e1sica de juros (Selic) pelo Banco Central na pr\u00f3xima semana. 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