{"id":4261,"date":"2017-02-23T07:59:33","date_gmt":"2017-02-23T10:59:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=4261"},"modified":"2017-02-23T08:00:15","modified_gmt":"2017-02-23T11:00:15","slug":"coluna-no-correio-camisa-de-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-camisa-de-forca\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Camisa de for\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h2>H\u00e1 quase um m\u00eas, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, assumiu o compromisso p\u00fablico de que o ritmo de corte da taxa b\u00e1sica de juros (Selic), a partir daquele momento, seria de 0,75 ponto percentual a cada reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom). O que, naquele momento, foi visto como uma not\u00edcia alvissareira tornou-se, por\u00e9m, uma camisa de for\u00e7a para a institui\u00e7\u00e3o. Ontem, ao decidir derrubar a Selic de 13% para 12,25% ao ano, o BC n\u00e3o p\u00f4de acelerar o corte da taxa para um ponto percentual, mesmo tendo todas as condi\u00e7\u00f5es de faz\u00ea-lo, j\u00e1 que a infla\u00e7\u00e3o caiu muito mais que o esperado.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para n\u00e3o ratificar suas amarras, o BC recorreu a um expediente muito estranho. Decidiu retirar do comunicado p\u00f3s-reuni\u00e3o do Copom as proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o que usa em seu cen\u00e1rio de refer\u00eancia para tomar decis\u00f5es de pol\u00edtica monet\u00e1ria. A omiss\u00e3o saltou aos olhos dos especialistas. N\u00e3o sem motivo. Desde que a diretoria comandada por Ilan Goldfajn tomou posse, o BC sempre se preocupou em dar transpar\u00eancia a seus atos. Por isso, construiu uma reputa\u00e7\u00e3o fundamental para retomar o controle das expectativas inflacion\u00e1rias e lev\u00e1-las para o centro da meta, de 4,5%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Extraoficialmente, o BC diz que o cen\u00e1rio de refer\u00eancia deixou de ser relevante, porque os juros n\u00e3o s\u00e3o mais fixos. As proje\u00e7\u00f5es desse cen\u00e1rio na reuni\u00e3o de ontem levaram em conta juros inalterados de 13% ao ano, o que j\u00e1 n\u00e3o refletiria a realidade de taxas cadentes. O mais importante agora, segundo o BC, \u00e9 o cen\u00e1rio de mercado, constru\u00eddo com juros m\u00f3veis. A institui\u00e7\u00e3o ressalta ainda que seu cen\u00e1rio de refer\u00eancia para o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) estar\u00e1 explicitado na ata da reuni\u00e3o do Copom que ser\u00e1 divulgada na pr\u00f3xima ter\u00e7a-feira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Press\u00e3o latente<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas tr\u00eas decis\u00f5es do Copom, quando a Selic caiu, no total, 1,25 ponto percentual, os cen\u00e1rios de refer\u00eancia foram constru\u00eddos com juros fixos e, nem por isso, o BC escondeu as informa\u00e7\u00f5es. Outra coisa: se o cen\u00e1rio de mercado passou a ser mais relevante para a decis\u00e3o de pol\u00edtica monet\u00e1ria, o BC poderia ter cortado os juros para 9% ou 9,5% ontem, j\u00e1 que, com essas taxas, a infla\u00e7\u00e3o, pelas estimativas dos analistas, ficaria abaixo do centro da meta. No cen\u00e1rio do mercado, a proje\u00e7\u00e3o \u00e9 de IPCA de 4,2% para este ano e ao redor de 4,5% em 2018.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para tentar sair da camisa de for\u00e7a na qual se meteu, o BC assegura que, caso as condi\u00e7\u00f5es sejam favor\u00e1veis, poder\u00e1 intensificar os cortes da Selic mais \u00e0 frente. Mas, certamente, ter\u00e1 que lidar com uma forte press\u00e3o do mercado, que, a partir de agora, incorporar\u00e1 a perspectiva de redu\u00e7\u00e3o de pelo menos um ponto percentual no encontro de abril do Copom. Alguns especialistas acreditam que o mercado poder\u00e1 projetar queda de at\u00e9 1,5 ponto, uma vez que ser\u00e3o decorridos longos 45 dias entre uma reuni\u00e3o e outra, com a economia ainda capengando, o desemprego crescendo e a infla\u00e7\u00e3o em queda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Pura covardia<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O BC garante que a transpar\u00eancia na comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo para que a credibilidade da pol\u00edtica monet\u00e1ria seja mantida. Mas por que, ent\u00e3o, omitir o cen\u00e1rio de refer\u00eancia na nota p\u00f3s-Copom? Certamente, porque, no cen\u00e1rio de refer\u00eancia, as proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o est\u00e3o muito abaixo do centro da meta, o que justificaria o Copom ter sido mais ousado e cortado os juros em um ponto percentual, para 12% ao ano. O BC n\u00e3o quis, portanto, assumir publicamente a sua covardia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os analistas acreditam que, no cen\u00e1rio de refer\u00eancia do Banco Central, as proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o est\u00e3o girando entre 3,5 e 3,8% para este ano e entre 3% e 3,5% para 2018. S\u00e3o estimativas muito baixas, que n\u00e3o combinam com juros t\u00e3o altos. Os especialistas ressaltam n\u00e3o haver d\u00favidas de que o BC de Ilan tem agido corretamente, tanto que conseguiu reverter as desconfian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade da institui\u00e7\u00e3o de levar a infla\u00e7\u00e3o para a meta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contudo, num pa\u00eds atolado em uma recess\u00e3o severa, com a demanda retra\u00edda, sem investimentos produtivos e com as fam\u00edlias e as empresas atoladas em d\u00edvidas, em nada a reputa\u00e7\u00e3o do BC seria afetada se os juros ca\u00edssem um pouco mais r\u00e1pido. N\u00e3o custa lembrar que, no primeiro trimestre de 2009, com o mundo atropelado pelo estouro da bolha imobili\u00e1ria nos Estados Unidos, a Selic recuou 3,75 pontos em apenas tr\u00eas reuni\u00f5es do Copom. A recess\u00e3o durou pouco e a infla\u00e7\u00e3o fechou abaixo da meta \u2014 foi a \u00faltima vez que isso aconteceu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 07h59min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quase um m\u00eas, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, assumiu o compromisso p\u00fablico de que o ritmo de corte da taxa b\u00e1sica de juros (Selic), a partir daquele momento, seria de 0,75 ponto percentual a cada reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom). 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