{"id":4232,"date":"2017-02-21T11:30:00","date_gmt":"2017-02-21T14:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=4232"},"modified":"2017-02-21T10:54:41","modified_gmt":"2017-02-21T13:54:41","slug":"excesso-de-gastos-reduz-forca-de-juros-altos-diz-john-cochrane","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/excesso-de-gastos-reduz-forca-de-juros-altos-diz-john-cochrane\/","title":{"rendered":"Excesso de gasto reduz for\u00e7a de juros altos, diz John Cochrane"},"content":{"rendered":"<p>POR SIMONE KAFRUNI<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><em>A compara\u00e7\u00e3o de economias desenvolvidas, nas quais os juros s\u00e3o pr\u00f3ximos de zero e a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 baixa, com o caso do Brasil, em que a taxa de dois d\u00edgitos \u00e9 incapaz de debelar a carestia em plena crise econ\u00f4mica, abriu-se um amplo debate sobre a efic\u00e1cia da pol\u00edtica monet\u00e1ria no controle do custo de vida. Em pol\u00eamico artigo, o economista Andr\u00e9 Lara Resende, um dos te\u00f3ricos criadores do Plano Real, questionou como, depois de dois anos seguidos de queda do Produto Interno Bruto (PIB) e de aumento do desemprego, a taxa b\u00e1sica Selic ainda esteja em 13% ao ano e a alta dos pre\u00e7os persista. <\/em><\/h2>\n<p><em>Diante das evid\u00eancias, Resende sugeriu uma reavalia\u00e7\u00e3o da teoria monet\u00e1ria ortodoxa, segundo a qual juros elevados reduzem a demanda, desaquecem a economia e cont\u00eam a carestia.\u00a0Para endossar sua argumenta\u00e7\u00e3o, Resende citou o trabalho de John H. Cochrane, professor de Finan\u00e7as e Economia na Universidade de Stanford e pesquisador do Instituto de Pequisa de Pol\u00edticas Econ\u00f4micas da institui\u00e7\u00e3o (SIEPR, Stanford Institute for Economic Policy Research, na sigla em ingl\u00eas). Cochrane \u00e9 um dos mais destacados expoentes do debate acad\u00eamico da teoria monet\u00e1ria. Em recente estudo, o professor conclui que o longo per\u00edodo de baixa infla\u00e7\u00e3o com taxas nominais de juros pr\u00f3ximas de zero nos Estados Unidos, em pa\u00edses da Europa e no Jap\u00e3o sugere que a tese est\u00e1 errada. &#8220;Taxas de juros altas, no longo prazo, elevam a infla\u00e7\u00e3o&#8221;, defende o especialista norte-americano.<\/em><\/p>\n<p><em>A controv\u00e9rsia gerada pelo estudo entre os economistas brasileiros se justifica. Afinal, levanta a hip\u00f3tese de que a pol\u00edtica monet\u00e1ria praticada no Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas foi equivocada, gerando gastos p\u00fablicos mais altos e menor crescimento do que seria poss\u00edvel. Em entrevista ao <strong>Correio<\/strong>, Cochrane explica as rela\u00e7\u00f5es entre altas taxas de juros e a persist\u00eancia da carestia.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Seu recente trabalho sobre pol\u00edtica monet\u00e1ria gerou pol\u00eamica entre te\u00f3ricos ortodoxos brasileiros. Eles dizem que, devido \u00e0 alta despesa p\u00fablica no pa\u00eds, n\u00e3o h\u00e1 alternativa \u00e0s altas taxas de juros para conter a infla\u00e7\u00e3o. O Brasil vive uma recess\u00e3o h\u00e1 dois anos, com desemprego de 12% e juros de 13% ao ano. No entanto, a infla\u00e7\u00e3o continua alta. Como \u00e9 poss\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>Sua \u00faltima observa\u00e7\u00e3o parece provar a morte da curva de Phillips (conceito da macroeconomia desenvolvido pelo neozeland\u00eas Willian Phillips segundo o qual a rela\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o e da taxa de desemprego s\u00e3o inversamente proporcionais). Quaisquer que sejam as ferramentas para reduzir a infla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 aumento do desemprego! Eu quero salientar que os artigos nos quais tenho trabalhado n\u00e3o se resumem \u00e0 simples equa\u00e7\u00e3o &#8220;juros altos, mais infla\u00e7\u00e3o, juros baixos, menos infla\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual sua tese ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Os determinantes para o controle da carestia s\u00e3o a pol\u00edtica fiscal e, especialmente, as expectativas de longo prazo da pol\u00edtica fiscal. As pessoas confiam que seu governo ter\u00e1 os recursos para pagar suas d\u00edvidas por 10, 20 ou mais anos? E uma forte pol\u00edtica fiscal, em \u00faltima inst\u00e2ncia, vem do forte crescimento do lado da oferta. N\u00e3o consigo pensar em um pa\u00eds com forte crescimento, forte pol\u00edtica fiscal e vibrante demanda por d\u00edvida p\u00fablica que tenha alta infla\u00e7\u00e3o. Assim como n\u00e3o acho que um pa\u00eds com baixo crescimento, desequil\u00edbrio fiscal perp\u00e9tuo e d\u00edvida inst\u00e1vel em sua pr\u00f3pria moeda (ao contr\u00e1rio da Gr\u00e9cia) n\u00e3o tenha infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A redu\u00e7\u00e3o dos juros aumenta temporariamente a infla\u00e7\u00e3o antes de estabelecer a rela\u00e7\u00e3o negativa de longo prazo&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O senhor ressaltou que as expectativas s\u00e3o fundamentais. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>As expectativas importam muito. As pessoas devem esperar que as baixas taxas de juros durem muito tempo para que elas sejam desinflacion\u00e1rias. Os melhores exemplos hist\u00f3ricos t\u00eam sido os programas conjuntos de estabiliza\u00e7\u00e3o fiscal-monet\u00e1ria. O Brasil teve alguns. O fim da hiperinfla\u00e7\u00e3o na Alemanha \u00e9 um exemplo ainda mais claro. Para corrigir o problema fiscal e a infla\u00e7\u00e3o e os juros ca\u00edrem junto, \u00e9 necess\u00e1rio um per\u00edodo de altas taxas de juros ou de desemprego. Os casos dos Estados Unidos e do Reino Unido na d\u00e9cada de 1980 s\u00e3o os mais cl\u00e1ssicos da hist\u00f3ria atual. Mas lembre-se: l\u00e1 as altas taxas de juros foram seguidas por reformas fiscais e a infla\u00e7\u00e3o foi controlada muito mais rapidamente do que qualquer curva de Phillips possa sugerir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como o senhor v\u00ea a pol\u00edtica recente dos bancos centrais, em todo o mundo, quanto \u00e0s taxas de juros e suas consequ\u00eancias para a infla\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, o que sabemos \u00e9 que a Europa, os Estados Unidos e o Jap\u00e3o tiveram um longo per\u00edodo de taxas pr\u00f3ximas de zero. E, apesar das previs\u00f5es generalizadas de &#8220;espiral de defla\u00e7\u00e3o&#8221;, hiperinfla\u00e7\u00e3o de QE (quantitative easing, pol\u00edtica monet\u00e1ria de flexibiliza\u00e7\u00e3o quantitativa, com a gera\u00e7\u00e3o de dinheiro novo) ou volatilidade (provocada por raz\u00f5es externas), a infla\u00e7\u00e3o tem sido baixa. E est\u00e1vel. Sabemos tamb\u00e9m que a alta infla\u00e7\u00e3o e as altas taxas de juros est\u00e3o juntas, como no Brasil agora. Ent\u00e3o, o que vem antes: o ovo ou a galinha? Se as pessoas confiam na d\u00edvida do governo e compram os t\u00edtulos mesmo com taxas baixas, isso pode levar \u00e0 queda da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os modelos macroecon\u00f4micos modernos apontam para isso?<\/strong><\/p>\n<p>De fato, essa \u00e9 a previs\u00e3o de modelos macroecon\u00f4micos modernos. As taxas negativas da Europa ocorrem junto com a infla\u00e7\u00e3o em decl\u00ednio. E o aumento dos juros nos EUA est\u00e1 ocorrendo com um pouco de eleva\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o. Ou seja, em todos esses pa\u00edses realmente parece que baixas taxas podem estar derrubando a infla\u00e7\u00e3o, enquanto juros ligeiramente mais altos est\u00e3o elevando, timidamente, a carestia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Isso poderia se aplicar ao Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>De forma alguma estou dizendo que, com isso, o Brasil pode apenas baixar as taxas e esperar a queda da infla\u00e7\u00e3o! Eu n\u00e3o acho que isso vai funcionar. Al\u00e9m disso, tanto a teoria quanto a experi\u00eancia mostram que a redu\u00e7\u00e3o dos juros aumenta temporariamente a infla\u00e7\u00e3o antes de estabelecer a rela\u00e7\u00e3o negativa a longo prazo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A infla\u00e7\u00e3o resulta de problemas fiscais, e sua solu\u00e7\u00e3o, de prud\u00eancia nas contas p\u00fablicas&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a import\u00e2ncia das contas p\u00fablicas na equa\u00e7\u00e3o juros e infla\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Todo o meu trabalho mostra que \u00e9 enorme. Na verdade, minha opini\u00e3o sobre isso est\u00e1 firmemente enraizada na teoria fiscal do n\u00edvel de pre\u00e7os: no fim, infla\u00e7\u00e3o resulta de problemas fiscais, e sua solu\u00e7\u00e3o, de prud\u00eancia nas contas p\u00fablicas. Os bancos centrais podem mexer com essa realidade b\u00e1sica, mas n\u00e3o por muito tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Brasil tem atualmente deficit or\u00e7ament\u00e1rio. Mas, mesmo alguns anos atr\u00e1s, quando havia um superavit prim\u00e1rio, a taxa de juros era de dois d\u00edgitos. Como o senhor v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o entre gastos governamentais e infla\u00e7\u00e3o no mundo p\u00f3s-crise de 2008?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, claramente a rela\u00e7\u00e3o entre infla\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica fiscal n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples como &#8220;mais deficit = mais infla\u00e7\u00e3o&#8221;. Algumas economias \u2014 EUA, Jap\u00e3o, Europa \u2014 conseguem ter grandes d\u00edvidas e deficit sem infla\u00e7\u00e3o. A chave \u00e9 a confian\u00e7a. Ou seja: se as pessoas que det\u00eam a d\u00edvida p\u00fablica, incluindo o dinheiro (que \u00e9 apenas um tipo diferente de d\u00edvida p\u00fablica) pensam que o governo acabar\u00e1 por ser capaz de pagar suas d\u00edvidas. Se assim for, eles est\u00e3o dispostos a permitir um deficit muito grande. Esse \u00e9 o caso nos EUA, na Europa, no Reino Unido e no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Isso n\u00e3o \u00e9 arriscado?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 algum perigo, na minha opini\u00e3o. As d\u00edvidas dos Estados Unidos s\u00e3o sustent\u00e1veis agora porque pagam taxas de juros muito baixas sobre elas. E as taxas s\u00e3o baixas porque os mercados de t\u00edtulos entendem que, mais cedo ou mais tarde, os EUA v\u00e3o corrigir seus problemas fiscais. Quando eles mudarem de opini\u00e3o, mesmo sem deficit, v\u00e3o cobrar juros mais altos. E a aplica\u00e7\u00e3o de altas taxas sobre um estoque de d\u00edvida muito grande pressiona o or\u00e7amento. A\u00ed, o problema da d\u00edvida torna-se agudo. O impacto seguinte \u00e9 a infla\u00e7\u00e3o disparar por conta pr\u00f3pria. O Brasil parece j\u00e1 estar nessa segunda fase.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que o Brasil deve fazer em termos de pol\u00edtica monet\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei muito sobre a situa\u00e7\u00e3o do Brasil. E n\u00e3o me sinto \u00e0 vontade para dar conselhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que um pa\u00eds em desenvolvimento como o Brasil tem que fazer para ter juros e infla\u00e7\u00e3o baixos como os pa\u00edses ricos? Seria poss\u00edvel no curto prazo?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Mas, para isso, \u00e9 necess\u00e1rio um ambiente de confian\u00e7a na economia e nas finan\u00e7as do governo. A infla\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m baixa com juros baixos se as pessoas se sentem satisfeitas em segurar a moeda. Controlar e restringir o investimento no exterior s\u00e3o as primeiras medidas que os governos tomam para segurar o dinheiro no pa\u00eds. E apenas dizem: saiam se puderem. Isso, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 suficiente para resolver o deficit. O que \u00e9 preciso garantir \u00e9 a confian\u00e7a de que n\u00e3o haver\u00e1 expans\u00e3o do deficit, controle de capitais, aumento de impostos ou outro caos qualquer. Aumentar tributos para ter mais receita com arrecada\u00e7\u00e3o tampouco funciona. Alta carga tribut\u00e1ria compromete o crescimento. E pa\u00edses como o Brasil precisam de um crescimento robusto. E confian\u00e7a de que o dinheiro investido est\u00e1 seguro, que a moeda e os t\u00edtulos do governo s\u00e3o seguros. Sem essas pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es, baixas taxas de juros n\u00e3o v\u00e3o ajudar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 11h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR SIMONE KAFRUNI &nbsp; A compara\u00e7\u00e3o de economias desenvolvidas, nas quais os juros s\u00e3o pr\u00f3ximos de zero e a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 baixa, com o caso do Brasil, em que a taxa de dois d\u00edgitos \u00e9 incapaz de debelar a carestia em plena crise econ\u00f4mica, abriu-se um amplo debate sobre a efic\u00e1cia da pol\u00edtica monet\u00e1ria no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":22,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[600],"tags":[1910,1831,447,1911],"class_list":["post-4232","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia","tag-excesso-de-gastos","tag-john-cochrane","tag-juros-altos","tag-universidade-de-stanford"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4232","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/22"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4232"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4232\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4235,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4232\/revisions\/4235"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4232"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4232"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4232"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}