{"id":4226,"date":"2017-02-20T12:30:40","date_gmt":"2017-02-20T15:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=4226"},"modified":"2017-02-20T19:00:46","modified_gmt":"2017-02-20T22:00:46","slug":"corte-radical-dos-juros-exige-cuidado-diz-padovani","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/corte-radical-dos-juros-exige-cuidado-diz-padovani\/","title":{"rendered":"&#8220;Corte radical dos juros exige cuidado&#8221;, diz Padovani"},"content":{"rendered":"<p><strong>PAULO SILVA PINTO,\u00a0Enviado especial<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>S\u00e3o Paulo \u2013<\/strong> Amanh\u00e3 os integrantes do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) do Banco Central (BC) come\u00e7am mais uma de suas reuni\u00f5es peri\u00f3dicas para avaliar o comportamento da infla\u00e7\u00e3o. Na quarta-feira, v\u00e3o anunciar a decis\u00e3o sobre a taxa b\u00e1sica de juros. Predomina entre os analistas de mercado a avalia\u00e7\u00e3o de que a Selic dever\u00e1 cair dos atuais 13% ao ano para 12,25%, em um corte semelhante ao que ocorreu no encontro anterior. Parte dos economistas defende, por\u00e9m, redu\u00e7\u00e3o maior, de um ponto percentual, sob o argumento de que \u00e9 preciso fazer com que a pol\u00edtica monet\u00e1ria pare de atrapalhar a retomada do crescimento do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, argumentam, os progn\u00f3sticos para o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) j\u00e1 apontam para algo abaixo do centro da meta de 4,5%. Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim, est\u00e1 entre os que esperam redu\u00e7\u00e3o de 0,75 ponto. Ele v\u00ea espa\u00e7o de sobra na atual conjuntura para reduzir a Selic a 10% progressivamente. O problema, nota, \u00e9 que exageros na aceleraa\u00e7\u00e3o do ritmo de queda podem causar certo tumulto no mercado, a n\u00e3o ser que o BC explique de forma muito cuidadosa aos atores econ\u00f4micos a decis\u00e3o. Padovani nota que, a rigor, um trabalho preparat\u00f3rio de comunica\u00e7\u00e3o j\u00e1 deveria ter sido feito no caso da op\u00e7\u00e3o por um corte radical. O sil\u00eancio do BC at\u00e9 agora \u00e9 uma das raz\u00f5es que o faz apostar em uma Selic de 12,25% na quarta. Embora o pa\u00eds possa comemorar avan\u00e7os recentes e a mudan\u00e7a do patamar de discuss\u00e3o de v\u00e1rios temas econ\u00f4micos, a estabilidade desej\u00e1vel est\u00e1 longe de garantida, segundo Padovani. Ele avisa que os pr\u00f3ximos meses podem ser de grande volatilidade, diante das discuss\u00f5es da reforma da Previd\u00eancia. Isso vai depender de uma s\u00e9rie de vari\u00e1veis em torno do tema: o que o governo conseguir\u00e1 aprovar da proposta original, com que velocidade, e como isso vai ser interpretado pelo mercado \u2013 ele nota que, devido \u00e0 complexidade do tema, as expectativas ainda est\u00e3o sendo constru\u00eddas. A seguir, os principais trechos de sua entrevista ao <strong>Correio<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O senhor acha que a meta de infla\u00e7\u00e3o de 2019 deve ser menor do que 4,5%?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que sim. \u00c9 preciso mudar. No pr\u00f3ximo ano, essa meta de 4,5% ter\u00e1 j\u00e1 13 anos de dura\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito tempo. E \u00e9 uma infla\u00e7\u00e3o alta, mesmo para padr\u00f5es latino-americanos. Vivemos um governo que se imagina um governo reformista. Ser\u00e1 muito frustrante se, depois de tantas reformas, n\u00e3o conseguirmos ,daqui a dois anos, ter uma infla\u00e7\u00e3o mais baixa. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso mostrar que a gente pode finalmente retomar essa discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Tem de ir para quanto?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que o movimento tem de ser suave. Se, por um lado, h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de colocar a meta em 4%, do ponto de vista pol\u00edtico, isso pode gerar muito ru\u00eddo. A gente est\u00e1 vivendo um ambiente de muita instabilidade. Uma solu\u00e7\u00e3o meio termo seria 4,25%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, falou do desejo de ir para 3% a m\u00e9dio ou longo prazos. Quando teremos isso?<\/strong><\/p>\n<p>Em uns dez anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o pode ser mais r\u00e1pido, j\u00e1 que, de 10,67% em 2015, vamos para menos de 4,5% neste ano?<\/strong><\/p>\n<p>Essa desinfla\u00e7\u00e3o do ano passado foi r\u00e1pida por raz\u00f5es conjunturais. Para ir de 4,5% para 3%, s\u00e3o necess\u00e1rias mudan\u00e7as estruturais, com muita confian\u00e7a na estabilidade da economia, credibilidade da pol\u00edtica macroecon\u00f4mica; avan\u00e7os de produtividade; e aumento de poupan\u00e7a dom\u00e9stica, o que nos tornaria menos vulner\u00e1veis a oscila\u00e7\u00f5es globais. O que refor\u00e7ou a queda da infla\u00e7\u00e3o foi a recess\u00e3o, algo que, esperamos, n\u00e3o continuar\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A queda da infla\u00e7\u00e3o autoriza o Copom a baixar um ponto percentual na reuni\u00e3o da pr\u00f3xima semana?<\/strong><\/p>\n<p>O ambiente econ\u00f4mico hoje permite corte de juros. Isso \u00e9 muito claro. O juro neutro nominal, que equilibra a economia a m\u00e9dio prazo, \u00e9 de 10%. A gente est\u00e1 com 13%. \u00c9 muito acima do que precisa. Mas um corte de um ponto na pr\u00f3xima reuni\u00e3o precisaria ser muito bem comunicado. Uma coisa que ajuda \u00e9 os bancos centrais serem previs\u00edveis. Isso gera seguran\u00e7a, o que, nos mercados financeiros, implica pr\u00eamios de risco mais baixos. Se voc\u00ea causa surpresa, isso gera d\u00favida, portanto, n\u00e3o se consegue ver o futuro com clareza. Ent\u00e3o h\u00e1 quest\u00e3o de fundamento econ\u00f4mico, e isso permite que se pense em um ponto, mas, na administra\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria, recomenda-se transpar\u00eancia e previsibilidade. Al\u00e9m disso 0,75 ponto de queda j\u00e1 \u00e9 um ritmo forte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os swaps cambiais t\u00eam cumprido com efic\u00e1cia esse papel?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Mas isso n\u00e3o evita a tend\u00eancia da moeda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O custo fiscal disso l\u00e1 atr\u00e1s foi bem alto, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Foi. Isso \u00e9 um problema. Ali tem uma discuss\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 necessariamente do instrumento, mas de quanto tempo voc\u00ea usa o instrumento. Acho que tem um certo consenso entre os economistas de que as opera\u00e7\u00f5es de mercado futuro s\u00e3o corretas, mas elas v\u00e3o ao longo do tempo perdendo efici\u00eancia. E ali talvez tenha tido problema de voc\u00ea ter exagerado um pouco na dose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando sairemos da recess\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que vai ficar mais claro ao fim deste ano ou em 2018. O desafio de 2017 \u00e9 estabilizar a economia. A infla\u00e7\u00e3o caindo e as taxas de juros caindo, isso j\u00e1 ajuda. O que atrapalha: o desemprego vai continuar subindo. A gente j\u00e1 est\u00e1 pr\u00f3ximo do n\u00edvel m\u00e1ximo e j\u00e1 est\u00e1 havendo alguns sinais no mercado de trabalho de melhoria. N\u00e3o se est\u00e1 destruindo e fechando tantos postos quanto se fechava antes. Isso n\u00e3o significa que as pessoas v\u00e3o conseguir arrumar emprego, mas, sim, n\u00e3o v\u00e3o perder emprego. A outra coisa \u00e9 a confian\u00e7a. A confian\u00e7a despencou no meio da crise e come\u00e7ou a se recuperar no ano passado, mas n\u00e3o est\u00e1 com comportamento muito claro. \u00c9 uma vari\u00e1vel importante, porque ela captura todas as incertezas pol\u00edticas. Ent\u00e3o, quanto mais seguro voc\u00ea est\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estabilidade pol\u00edtica, mais confiante voc\u00ea fica no futuro, se investe, consome e produz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma discuss\u00e3o em evid\u00eancia \u00e9 se os juros s\u00e3o exagerados ou n\u00e3o. Qual sua avalia\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que h\u00e1 um consenso, e eu fa\u00e7o parte dele, de que os juros no Brasil s\u00e3o muito altos. E tem uma outra discuss\u00e3o: que isso afeta o cr\u00e9dito banc\u00e1rio. Finalmente a gente voltou a discutir essas quest\u00f5es no Brasil. A gente passou muito tempo brigando com a macroeconomia, com temas errados, tentando controlar o c\u00e2mbio, segurar a infla\u00e7\u00e3o congelando pre\u00e7os, fazendo experimentos nas taxas de juros. Outra coisa: eu sou otimista com a queda de juros porque a gente j\u00e1 teve isso no Brasil. A gente tinha juros reais de 15% entre 2002 e 2003. Ca\u00edram a uma m\u00e9dia de 4% a 5%, naquele exagero da Dilma. Ent\u00e3o, ca\u00edram 10 pontos percentuais. E depois subiram. E agora est\u00e3o caindo de novo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 preciso fazer?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que tem um certo consenso. Voc\u00ea precisa ter estabilidade macroecon\u00f4mica e resolver distor\u00e7\u00f5es microecon\u00f4micas, como lei de fal\u00eancias, cr\u00e9dito direcionado, seguran\u00e7a jur\u00eddica para recuperar suas garantias. A gente tem de criar condi\u00e7\u00f5es para que o juros caiam. Decis\u00f5es muito volunt\u00e1rias n\u00e3o funcionam. A gente v\u00ea agora com o Trump: n\u00e3o \u00e9 o presidente, ou l\u00edder, que vai mudar os fundamentos da economia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A gente deveria mirar qual taxa real a longo prazo?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que h\u00e1 uma tend\u00eancia de juros reais de 3%. Acho que juros nominais devem ficar civilizados nessas casas de 5% ou 6 %.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual seria a solu\u00e7\u00e3o para reduzir a folha de servidores ativos?<\/strong><\/p>\n<p>O que eu tenho ouvido \u00e9 flexibiliza\u00e7\u00e3o de jornada: trabalha-se menos, ganha-se menos. \u00c9 um jeito de resolver. Uma solu\u00e7\u00e3o radical, mas n\u00e3o sei se ela \u00e9 fact\u00edvel, seria tirar a estabilidade de emprego para algumas categorias, mas n\u00e3o sei se isso \u00e9 poss\u00edvel. O mais importante \u00e9 que estamos discutindo temas estruturais, como o tamanho do Estado. Os governo de Lula e Dilma tiveram um m\u00e9rito muito grande de colocar pol\u00edticas sociais como pol\u00edticas de Estado. A quest\u00e3o hoje \u00e9 como torn\u00e1-las mais eficiente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O senhor espera que a reforma da Previd\u00eancia seja aprovada?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que sim, ainda que n\u00e3o nos termos que foram apresentados. O pr\u00f3prio governo tem dito que fez uma proposta ambiciosa. Essa ambi\u00e7\u00e3o tem duas justificativas. Uma \u00e9 definir uma agenda, algo importante porque nenhum governo conquistou uma reforma sozinho. O segundo motivo \u00e9 que acho que se prop\u00f5e algo ambicioso para poder negociar, que \u00e9 t\u00edpico da pol\u00edtica. Ent\u00e3o, acho que a reforma n\u00e3o ser\u00e1 aprovada do modo como foi apresentada. Mas eu acho que a gente vai dar passos importantes na dire\u00e7\u00e3o correta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Haver\u00e1 comemora\u00e7\u00e3o ou frustra\u00e7\u00e3o no mercado?<\/strong><\/p>\n<p>O mercado ainda est\u00e1 tentando decidir o que vai deix\u00e1-lo frustrado. Ningu\u00e9m sabe ainda. Acho que isso \u00e9 um bom ponto, porque mostra como essa reforma \u00e9 complexa e nem todo mundo entende seus impactos. H\u00e1 muita discuss\u00e3o sobre as v\u00e1rias combina\u00e7\u00f5es das medidas, se pode barganhar. H\u00e1 algumas coisas importantes como a idade m\u00ednima, o fato de que as pessoas v\u00e3o ter que trabalhar mais no Brasil. Outra coisa que eu acho que vamos ter que avaliar com calma \u00e9 a regra de transi\u00e7\u00e3o: se for muito frouxa, haver\u00e1 frustra\u00e7\u00e3o no mercado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Esse tema vai ser liquidado no primeiro semestre, como quer o governo?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que esse \u00e9 um tema que se arrasta at\u00e9 o terceiro trimestre, ou at\u00e9 mais. Do ponto de vista do mercado financeiro, sobre impacto nas expectativas, acho que o importante s\u00e3o as vota\u00e7\u00f5es na C\u00e2mara. Quando os investidores tiverem seguran\u00e7a da din\u00e2mica da reforma e da qualidade, eles v\u00e3o ficar satisfeitos. Se essas vota\u00e7\u00f5es na C\u00e2mara n\u00e3o forem no primeiro semestre, isso vai ser complicado. Voc\u00ea pode falar que essa reforma vai ser brilhante, mas sair\u00e1 em 2020. Isso n\u00e3o adianta. A outra vers\u00e3o \u00e9 aprovar tudo em dois meses, mas com uma reforma totalmente desfigurada, o que tamb\u00e9m n\u00e3o adianta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 12h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PAULO SILVA PINTO,\u00a0Enviado especial &nbsp; S\u00e3o Paulo \u2013 Amanh\u00e3 os integrantes do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) do Banco Central (BC) come\u00e7am mais uma de suas reuni\u00f5es peri\u00f3dicas para avaliar o comportamento da infla\u00e7\u00e3o. Na quarta-feira, v\u00e3o anunciar a decis\u00e3o sobre a taxa b\u00e1sica de juros. 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