{"id":402,"date":"2016-01-20T08:30:03","date_gmt":"2016-01-20T10:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=402"},"modified":"2016-01-20T12:54:32","modified_gmt":"2016-01-20T14:54:32","slug":"o-brasil-de-dilma-e-assim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/o-brasil-de-dilma-e-assim\/","title":{"rendered":"O BRASIL DE DILMA \u00c9 ASSIM"},"content":{"rendered":"<p>O Banco Central sempre foi apontado como ilha de excel\u00eancia, um foco de resist\u00eancia contra maluquices que sempre acometem os governantes de plant\u00e3o. Pela institui\u00e7\u00e3o, passaram decis\u00f5es vitais que evitaram o desastre econ\u00f4mico em v\u00e1rias oportunidades. Desde que Dilma Rousseff tomou posse, por\u00e9m, essa hist\u00f3ria come\u00e7ou a mudar. O BC foi perdendo, pouco a pouco, o seu bem mais precioso: a credibilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de todo o processo de destrui\u00e7\u00e3o da imagem do BC, acreditava-se, at\u00e9 ontem, que a institui\u00e7\u00e3o ainda seria capaz de se levantar, de reconstruir sua reputa\u00e7\u00e3o. Mas toda a esperan\u00e7a se esvaiu diante da decis\u00e3o do presidente do banco, Alexandre Tombini, de se manifestar no primeiro dia da reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom). Al\u00e9m de quebrar a liturgia do cargo, ele disse exatamente o contr\u00e1rio do que vinha pregando h\u00e1 dois meses. Pior: manifestou-se no dia seguinte a um encontro com Dilma que n\u00e3o constava na agenda de ambos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um dos instrumentos mais importantes do BC para manter a infla\u00e7\u00e3o dentro da meta \u00e9 o controle das expectativas. E, desde novembro do ano passado, com a infla\u00e7\u00e3o encostando nos 11%, Tombini e v\u00e1rios diretores do banco trataram de adotar um discurso duro, indicando que a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o se intimidaria em aumentar a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) se o custo de vida n\u00e3o cedesse para o centro da meta, de 4.5%. Fixou-se at\u00e9 um prazo: o fim de 2017.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse discurso foi refor\u00e7ado na semana passada, quando o presidente do BC enviou uma carta ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, explicando os motivos que levaram o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) a estourar o limite de toler\u00e2ncia de 6,5%. Ali, os que ainda tinham d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o aos compromissos do banco compraram a vers\u00e3o de que a Selic n\u00e3o s\u00f3 subiria, como o aumento seria forte, de 0,5 ponto percentual, alta defendida por dois integrantes do Copom na \u00faltima reuni\u00e3o de 2014.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pois ontem pela manh\u00e3, logo depois de o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) anunciar proje\u00e7\u00f5es desastrosas para a economia brasileira \u2014 queda de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2015 e de 3,5% neste ano \u2014, Tombini soltou uma nota dizendo que esses dados e todas as demais informa\u00e7\u00f5es relevantes seriam analisadas pelo Copom. Foi a senha para dizer que os juros poderiam ser mantidos em 14,25% e, caso subisse, a alta seria minguada, de 0,25 ponto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sem autonomia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 em manter a Selic inalterada ou dar um aumento menor. A quest\u00e3o \u00e9 que Tombini agiu sob press\u00e3o, dando um sinal expl\u00edcito de que o BC n\u00e3o tem autonomia para fazer o que acredita que deve ser feito. Desde o in\u00edcio da semana passada, como mostrou o Correio, o PT vem pressionando o governo para que a Selic n\u00e3o suba. O partido da presidente Dilma ressaltou, com todas as letras, que, caso sancionasse o arrocho monet\u00e1rio, Tombini seria demitido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se realmente est\u00e1 disposto a cumprir as determina\u00e7\u00f5es de Dilma e do PT para se manter no cargo, Tombini deveria, pelo menos, manter a discri\u00e7\u00e3o. Poderia exp\u00f4r todos os seus argumentos no debate travado com os diretores do BC na reuni\u00e3o do Copom. Certamente, teria for\u00e7a suficiente para convenc\u00ea-los de que o momento \u00e9 grav\u00edssimo, com a pior recess\u00e3o em mais de 80 anos. Ele teria, inclusive, a seu favor, economistas de respeito, que v\u00eam insistindo que uma eleva\u00e7\u00e3o da Selic agora n\u00e3o ter\u00e1 qualquer efic\u00e1cia para o combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a raiz dos problemas est\u00e1 na falta de um ajuste fiscal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tombini, contundo, escolheu o caminho mais f\u00e1cil. A partir de agora, qualquer que seja a decis\u00e3o de hoje do Copom, ningu\u00e9m acreditar\u00e1 no que diz ou faz a autoridade monet\u00e1ria. Mantidos os juros ou n\u00e3o, deixou-se de ter refer\u00eancias. Mas n\u00e3o \u00e9 de agora que o BC tem optado por um caminho err\u00e1tico, indicando que foi cooptado pela pol\u00edtica. Em 2012, mesmo com a infla\u00e7\u00e3o em alta, Tombini e companhia jogaram a Selic para o n\u00edvel mais baixo da hist\u00f3ria: 7,25% ao ano. Era o trof\u00e9u que Dilma queria para apresentar na campanha \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A queda dos juros se mostrou t\u00e3o equivocada, que, seis meses depois, o BC foi obrigado a aument\u00e1-los. Deu-se in\u00edcio a um longo processo de arrocho, que durou at\u00e9 as v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es. A autoridade monet\u00e1ria fez uma parada estrat\u00e9gica na alta da Selic para sustentar o discurso da ent\u00e3o candidata petista de que a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o era um problema. Tanto era que, tr\u00eas dias depois de as urnas confirmarem a vit\u00f3ria de Dilma, o Copom retomou o processo de eleva\u00e7\u00e3o da Selic.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Marionete<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O presidente do BC pode at\u00e9 ter garantido a sua perman\u00eancia no cargo. Mas perdeu o respeito, n\u00e3o apenas do mercado. Dentro do banco, funcion\u00e1rios admitem que Tombini se tornou apenas uma marionete nas m\u00e3os de Dilma. Uma pessoa que fala, fala, mas faz exatamente o contr\u00e1rio do que diz apenas em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Para t\u00e9cnicos da institui\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 dif\u00edcil acreditar que a promessa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o \u00e9 para valer. O BC de Tombini, inclusive, nunca conseguiu entregar o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) no centro da meta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de servidores do BC, n\u00e3o faltaram oportunidades para que Tombini pudesse expressar uma posi\u00e7\u00e3o diferente daquela que vinha difundindo. Ao longo das \u00faltimas semanas, o banco liberou, semanalmente, pesquisas mostrando a deteriora\u00e7\u00e3o da economia, justamente a qual ressaltou o FMI ontem. N\u00e3o era surpresa para ningu\u00e9m que o Brasil mergulhou em uma recess\u00e3o profunda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas Tombini preferiu se manifestar somente depois que a press\u00e3o do PT para tir\u00e1-lo do BC se tornou p\u00fablica e ap\u00f3s uma conversa secreta com a presidente Dilma. Ela, por sinal, n\u00e3o escondeu a satisfa\u00e7\u00e3o ao saber que o subordinado seguiu \u00e0 risca o roteiro tra\u00e7ado no Planalto. Houve assessores do governo que s\u00f3 faltaram soltar foguetes depois de o comandante do BC sinalizar a manuten\u00e7\u00e3o dos juros ou um aumento menor que o previsto pelo mercado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como bem definiu um funcion\u00e1rio graduado do BC, Tombini se tornou uma esp\u00e9cie de Joaquim Levy, que acreditava ser um ministro da Fazenda poderoso, mas s\u00f3 colecionava derrotas. Por um bom tempo, Levy foi um ministro zumbi. \u201cO certo \u00e9 que, no atual governo, a presidente da Rep\u00fablica \u00e9, tamb\u00e9m, a ministra da Fazenda e a presidente do Banco Central. Os ocupantes desses cargos s\u00e3o meras figuras decorativas\u201d, diz. Sem a credibilidade do BC, o combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o custar\u00e1 mais caro. O Brasil de Dilma \u00e9 assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 08h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Banco Central sempre foi apontado como ilha de excel\u00eancia, um foco de resist\u00eancia contra maluquices que sempre acometem os governantes de plant\u00e3o. Pela institui\u00e7\u00e3o, passaram decis\u00f5es vitais que evitaram o desastre econ\u00f4mico em v\u00e1rias oportunidades. Desde que Dilma Rousseff tomou posse, por\u00e9m, essa hist\u00f3ria come\u00e7ou a mudar. 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