{"id":3986,"date":"2017-01-12T00:01:24","date_gmt":"2017-01-12T02:01:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=3986"},"modified":"2017-01-12T00:05:11","modified_gmt":"2017-01-12T02:05:11","slug":"ponte-para-temer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/ponte-para-temer\/","title":{"rendered":"Ponte para Temer"},"content":{"rendered":"<p>Muita gente do mercado financeiro classificou como surpreendente a decis\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) do Banco Central de cortar a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, para 13% ao ano, mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o havia outro caminho para a autoridade monet\u00e1ria. Depois de errar feio no fim de novembro \u00faltimo, quando, por excesso de cautela, reduziu a Selic em apenas 0,25 ponto, mesmo com a infla\u00e7\u00e3o desabando, se mantivesse o conservadorismo, o BC acabaria com qualquer chance de recupera\u00e7\u00e3o da economia neste ano. Felizmente, como diz um dos ministros mais pr\u00f3ximos do presidente Michel Temer, prevaleceu o bom senso. \u201cO BC estava medroso demais, sem necessidade\u201d, afirma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sob o comando de Ilan Goldfajn, o BC ficou mais preocupado em n\u00e3o repetir os erros da gest\u00e3o anterior, de Alexandre Tombini, do que em considerar o que estava ocorrendo na economia real. A meta principal foi manter a reputa\u00e7\u00e3o a qualquer custo, a despeito de isso significar o prolongamento da recess\u00e3o que j\u00e1 desempregou 12 milh\u00f5es de pessoas. Foi preciso que todo o discurso da institui\u00e7\u00e3o se desconstru\u00edsse por completo para que a voz da raz\u00e3o falasse mais alto. Antes tarde do que nunca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seus documentos oficiais, o BC condicionava a queda mais forte dos juros a um tombo da infla\u00e7\u00e3o. Isso vem ocorrendo h\u00e1 quatro meses. Dizia que as proje\u00e7\u00f5es futuras para o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) tinham de ceder e ficar ancoradas no centro da meta, de 4,5%, o que tamb\u00e9m aconteceu. Afirmava que era preciso avan\u00e7ar na reforma fiscal, e o Congresso aprovou a emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o que limita o aumento dos gastos p\u00fablicos. Por tabela, o Pal\u00e1cio do Planalto encaminhou ao Legilativo a proposta de reforma da Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a decis\u00e3o de ontem, o BC zerou o jogo. Melhor: indicou, claramente, que os juros continuar\u00e3o em queda forte, podendo repetir o 0,75 ponto percentual em fevereiro ou mesmo ampliar a tesoura para um ponto. N\u00e3o haver\u00e1 como recuar dessa dire\u00e7\u00e3o porque os \u00edndices de pre\u00e7os continuar\u00e3o fracos devido ao estrago provocado pela recess\u00e3o. A demanda levar\u00e1 tempo para se recuperar. As feridas abertas nas finan\u00e7as de empresas e das fam\u00edlias s\u00e3o enormes. O efeito da queda dos juros agora ser\u00e1 muito mais psicol\u00f3gico, mas vital para reverter o desatre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Leitura pol\u00edtica<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Planalto, a leitura pol\u00edtica da queda dos juros \u00e9 a melhor poss\u00edvel. Para assessores de Temer, o Banco Central mudou toda a din\u00e2mica prevista para a primeira metade do ano. Foi como se o presidente do BC, Ilan Goldfajn, e seus subordinados constru\u00edssem uma ponte para o presidente. Sem not\u00edcias favor\u00e1veis na economia, com o fim do recesso no Congresso e a Lava-Jato, o risco de a pol\u00edtica balan\u00e7ar o governo era enorme. Agora, com a perspectiva de mais queda da Selic e a infla\u00e7\u00e3o girando em torno da meta, a tend\u00eancia \u00e9 o empresariado buscar uma blindagem para Temer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mesmo ministro que ressalta o bom senso do BC diz que a autoridade monet\u00e1ria elevou o pre\u00e7o para se tirar Temer do poder. A economia voltando a rodar vai atrair o capital e, principalmente, os pol\u00edticos. A base aliada tender\u00e1 a se fortalecer e mesmo projetos dif\u00edceis de serem aprovados, como as reformas da Previd\u00eancia e trabalhista, devem andar mais r\u00e1pido. \u201cN\u00e3o h\u00e1 exagero dizer que, neste momento, o polo de sustenta\u00e7\u00e3o do governo saiu do Minist\u00e9rio da Fazenda e migrou para o BC\u201d, destaca. \u201cA ponte constru\u00edda por Ilan e companhia tende a fazer o pa\u00eds a sair do atoleiro mais rapidamente\u201d, emenda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o da equipe econ\u00f4mica, se havia algum receio em rela\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds, tudo deve se dissipar. Os investidores estrangeiros que j\u00e1 vislumbravam uma recupera\u00e7\u00e3o mais forte para a economia a partir de 2018 podem rever os planos e intensificar o fluxo de recursos para o pa\u00eds independentemente das incertezas provocadas por Donald Trump, que assumir\u00e1 a presid\u00eancia dos Estados Unidos em 20 de janeiro. A bolsa de valores pode subir mais e o d\u00f3lar, cair.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ordem, por\u00e9m, dentro do governo \u00e9 n\u00e3o se deixar levar pela euforia. H\u00e1 muita coisa a ser feita, principalmente em rela\u00e7\u00e3o aos estados, que est\u00e3o quebrados. Sem um acordo vi\u00e1vel com os governadores, impondo limites para gastos e reduzindo o incha\u00e7o das m\u00e1quinas, n\u00e3o h\u00e1 como se falar em um ajuste fiscal efetivo. O Planalto precisa demonstrar que o arrocho \u00e9 para valer, independentemente das esferas de governo. \u201cA redu\u00e7\u00e3o dos juros \u00e9 importante, d\u00e1 um novo f\u00f4lego \u00e0 economia, mas est\u00e1 longe de resolver os problemas estruturais que precisam ser atacados\u201d, ressalta um t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Carlos Thadeu Filho, s\u00f3cio da consultoria MacroAgro, se houver surpresas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 infla\u00e7\u00e3o daqui por diante ser\u00e1 para o bem. \u201cOs pre\u00e7os dos alimentos continuar\u00e3o em baixa e, sem cr\u00e9dito, n\u00e3o h\u00e1 como se falar em recupera\u00e7\u00e3o do consumo de bens dur\u00e1veis\u201d, assinala. Ele ressalta que todos os n\u00fameros do IPCA s\u00e3o muito favor\u00e1veis \u00e0 continuidade de uma queda acentuada dos juros. \u201cCaso o Copom optasse por derrubar a Selic em dois pontos ontem, n\u00e3o haveria problemas. A infla\u00e7\u00e3o deixou de ser problema\u201d, enfatiza. Tomara que ele esteja certo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h01min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muita gente do mercado financeiro classificou como surpreendente a decis\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) do Banco Central de cortar a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, para 13% ao ano, mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o havia outro caminho para a autoridade monet\u00e1ria. 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