{"id":3927,"date":"2017-01-06T06:05:21","date_gmt":"2017-01-06T08:05:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=3927"},"modified":"2017-01-06T19:51:35","modified_gmt":"2017-01-06T21:51:35","slug":"tocando-o-terror","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/tocando-o-terror\/","title":{"rendered":"Tocando o terror"},"content":{"rendered":"<p>Governos que agem pressionados pelas emerg\u00eancias costumam entregar decep\u00e7\u00e3o. Sem um planejamento concreto, prometem muito e praticamente n\u00e3o cumprem nada. Esse roteiro se tornou uma constante no Brasil. \u00c9 dif\u00edcil acreditar que, com Michel Temer no comando do pa\u00eds, ser\u00e1 diferente. Ao anunciar seu plano para reduzir a viol\u00eancia que domina os pres\u00eddios brasileiros, o presidente da Rep\u00fablica, que se manifestou pela primeira vez depois de tr\u00eas dias do massacre de 60 presos em Manaus, indicou que o risco de fracasso \u00e9 grande. Pouca coisa de concreto foi apresentada, apesar de, no discurso, haver diagn\u00f3sticos corretos, como a necessidade de separa\u00e7\u00e3o dos presidi\u00e1rios de acordo com a gravidade dos crimes que cometeram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se realmente quiser evitar a repeti\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, Temer ter\u00e1 de mostrar, no caso da grave crise carcer\u00e1ria, o mesmo empenho que dedicou \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o que instituiu um limite para o aumento dos gastos p\u00fablicos. Quando lan\u00e7ou a proposta, poucos acreditavam na capacidade do governo de levar adiante um tema t\u00e3o custoso. Mas, para surpresa dos c\u00e9ticos, o teto para as despesas foi avalizado pelo Congresso em tempo recorde. A proposta, inclusive, saiu da C\u00e2mara e do Senado exatamente como a equipe econ\u00f4mica havia preparado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico que s\u00e3o dois temas muitos distintos. Mas Temer precisa provar que, realmente, desta vez o pa\u00eds dar\u00e1 um passo importante para resolver um problema que se agigantou justamente pela total aus\u00eancia do Estado. As condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias dos pres\u00eddios est\u00e3o escancaradas h\u00e1 tempos. Mas, em vez de atuar para revert\u00ea-las, o governo \u2014 a\u00ed inclu\u00eddas todas as esferas \u2014 simplesmente fechou os olhos. Deixou que seu espa\u00e7o fosse tomado por fac\u00e7\u00f5es criminosas que ditam regras n\u00e3o apenas entre os muros dos pres\u00eddios, mas tamb\u00e9m nas cidades onde est\u00e3o estruturadas. Essas fac\u00e7\u00f5es viraram lei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mais assustador \u00e9 que, diante da aus\u00eancia do Estado, a popula\u00e7\u00e3o mergulhou na onda do conformismo. Passou a aceitar as fac\u00e7\u00f5es criminosas como algo dentro da normalidade. Se matam um, 10 ou 60, a como\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00ednima. Em casos espec\u00edficos, como o de Manaus, alguns d\u00e3o sinais de indigna\u00e7\u00e3o, o que faz com que o governo tenha espasmos de autoridade. Nesses epis\u00f3dios, o Estado surge com propostas mirabolantes, como se todos os graves problemas que nos afligem fossem ser resolvidos da noite para o dia. Como nada de concreto acontece, os criminosos se fortalecem, zombam da sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Equ\u00edvocos<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Presidente da Ordem dos Economistas do Brasil, Manuel Enriquez Garc\u00eda diz que o risco de o governo, mais uma vez, fracassar \u00e9 enorme. Para ele, ser\u00e1 preciso muito mais do que um discurso afinado para superar barb\u00e1ries como a de Manaus, que Temer, equivocadamente, tratou como um &#8220;acidente&#8221;. No sentido literal, acidente \u00e9 um imprevisto, algo inesperado, que foge do controle. O massacre de 60 presos na capital do Amazonas, na verdade, \u00e9 uma rotina. Repete-se em maior ou menor grau quase todos os dias. Massacres tamb\u00e9m ocorrem todos os dias nas ruas. Basta olhar as estat\u00edsticas. Pelo menos 55 mil pessoas morrem todos os anos v\u00edtimas de armas de fogo no pa\u00eds. \u00c9 uma guerra tenebrosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De nada vai adiantar o plano emergencial de Temer se o governo n\u00e3o atacar o problema na sua raiz: a educa\u00e7\u00e3o. Hoje, as escolas, em boa parte, deixaram de ser um local onde se prepara o cidad\u00e3o de bem. Sem um plano de preparo das crian\u00e7as para encarar a vida, as institui\u00e7\u00f5es de ensino est\u00e3o expulsando muitas delas para as ruas. Permitem que, em vez de se renderem ao aprendizado, sejam cooptadas pelas fac\u00e7\u00f5es que tocam o terror no pa\u00eds. Muitas das crian\u00e7as ser\u00e3o preparadas para suceder os l\u00edderes que matam, esfacelam, decapitam todos que tentam interferir em seus caminhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEstamos vivendo uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. O que vemos nos pres\u00eddios \u00e9 o retrato do descaso, do qual todos somos v\u00edtimas\u201d, diz Garc\u00eda. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, apesar dos frequentes alertas feitos por especialistas e peritos, nada mudou. Tudo foi empurrado com a barriga. \u201cCreio que, daqui a dois meses, tudo o que foi prometido pelo governo para reverter a criminalidade ter\u00e1 ca\u00eddo no esquecimento\u201d, ressalta. N\u00e3o se trata de m\u00e1 vontade. \u201c\u00c9 a realidade, por mais dura que seja. Todos os planos anteriores fracassaram\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Prote\u00e7\u00e3o divina<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A certeza do economista aumenta diante da dificuldade do governo em detalhar o plano de emerg\u00eancia de combate \u00e0 criminalidade. No fim da manh\u00e3 de ontem, depois de quebrar o sil\u00eancio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie em Manaus, Temer e tr\u00eas de seus ministros discursaram, emitiram opini\u00f5es sobre tudo, transferiram culpa e prometeram apresentar o detalhamento das a\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o tomadas. Nada aconteceu. Isso s\u00f3 comprova que tudo est\u00e1 sendo feito \u00e0s pressas, no calor das emo\u00e7\u00f5es, com o intuito de evitar que se consolide a imagem de um Estado inerte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 uma s\u00f3: ainda n\u00e3o ser\u00e1 desta vez que o Brasil ver\u00e1 um combate efetivo \u00e0 criminalidade, ao Estado paralelo que se empodera e transforma o pa\u00eds em um campo de guerra. Os brasileiros ter\u00e3o de contar com a prote\u00e7\u00e3o divina. Nos dias atuais, n\u00e3o h\u00e1 mais lugar seguro. Nas grandes cidades, nos locais mais remotos, a viol\u00eancia est\u00e1 disseminada. Muitos trabalhadores que saem de casa pela manh\u00e3 n\u00e3o sabem sequer se voltar\u00e3o vivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso, contudo, nenhum servi\u00e7o de intelig\u00eancia sofisticado para destruir as c\u00e9lulas que comandam o crime organizado. Os bandidos atuam \u00e0s claras, sem medo de repres\u00e1lias. Sabem que o sistema est\u00e1 estruturado a favor deles e n\u00e3o das pessoas de bem. Infelizmente, temos de nos preparar para o pior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 06h05min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Governos que agem pressionados pelas emerg\u00eancias costumam entregar decep\u00e7\u00e3o. Sem um planejamento concreto, prometem muito e praticamente n\u00e3o cumprem nada. Esse roteiro se tornou uma constante no Brasil. \u00c9 dif\u00edcil acreditar que, com Michel Temer no comando do pa\u00eds, ser\u00e1 diferente. 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