{"id":348,"date":"2015-12-18T08:30:07","date_gmt":"2015-12-18T10:30:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=348"},"modified":"2015-12-18T17:49:37","modified_gmt":"2015-12-18T19:49:37","slug":"pela-porta-dos-fundos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/pela-porta-dos-fundos\/","title":{"rendered":"PELA PORTA DOS FUNDOS"},"content":{"rendered":"<p>Foi um longo processo de desgaste e desrespeito, mas, finalmente a dignidade do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que havia se tornado um zumbi, falou mais alto, e ele decidiu sair do governo. N\u00e3o h\u00e1 como negar que o t\u00e9cnico que, h\u00e1 um ano, desembarcou em Bras\u00edlia cheio de moral tentou, de todas as formas, mudar um governo fadado ao fracasso. Mas venceram as ideias equivocadas, justamente aquelas que levaram o Brasil a registrar a pior recess\u00e3o em pelo menos tr\u00eas d\u00e9cadas, a resgatar o fantasma da infla\u00e7\u00e3o, a levantar o temor de calote na d\u00edvida p\u00fablica e a provocar o desemprego em massa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Levy, infelizmente, sair\u00e1 pela porta dos fundos. Sua gest\u00e3o foi um fiasco. Quase nada do que ele prometeu fazer se tornou realidade. Muitos dos seus defensores dir\u00e3o que a culpa n\u00e3o foi dele. Foi sim. Na primeira grande derrota que sofreu \u2014 a redu\u00e7\u00e3o da meta de superavit prim\u00e1rio de 2015 de 1,1% para 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB) \u2014, ele j\u00e1 deveria ter pedido para sair. Ali estava claro que a mudan\u00e7a de pensamento alardeada por Dilma era uma farsa, s\u00f3 repetia as propagandas enganosas que lhe garantiram a reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas Levy preferiu insistir no erro. E foi se tornando um remendo de ministro da Fazenda. No mesmo dia em que falava alguma coisa, o Pal\u00e1cio do Planalto e o Minist\u00e9rio do Planejamento \u2014 onde est\u00e1 seu grande algoz, Nelson Barbosa \u2014 tratavam de dizer exatamente o contr\u00e1rio. Pior: agiam nos bastidores para desqualificar Levy. N\u00e3o por acaso, o ministro esteve, ao longo do ano, sob intenso bombardeio dentro do governo, no PT, no Congresso e entre representantes de entidades que representam trabalhadores e vivem penduradas no setor p\u00fablico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>No governo errado<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um dos poucos ministros que ainda defendem a perman\u00eancia de Levy na Fazenda resume bem a situa\u00e7\u00e3o: \u201cLevy era o cara certo no governo errado\u201d. O desejo do ex-funcion\u00e1rio do Bradesco, que largou um sal\u00e1rio anual de mais de R$ 1,2 milh\u00e3o ao ano para atender o convite de Dilma, era virar a p\u00e1gina de uma administra\u00e7\u00e3o marcada pela mediocridade. Mesmo estando claro para ele que era um estranho no ninho do PT, apostou todas as fichas de que a presidente da Rep\u00fablica contaria com a credibilidade dele para resgatar a confian\u00e7a dos agentes econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos primeiros meses do segundo mandato, at\u00e9 que conseguiu imprimir sua marca. Contudo, o populismo voltou a falar mais alto. Sobretudo a partir do momento em que o impeachment entrou no radar de Dilma. \u00c0 medida que o processo de impedimento ganhava for\u00e7a, mais fraco Levy ficava. Na cabe\u00e7a da petista e de seus asseclas, consolidou-se a vis\u00e3o de que, para barrar qualquer tentativa de encurtar o mandado presidencial, era preciso deixar os cofres bem abertos para ado\u00e7ar a boca de pol\u00edticos rebeldes, postura incompat\u00edvel com o ajuste fiscal prometido pelo ministro da Fazenda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de toda a humilha\u00e7\u00e3o \u00e0 qual submeteu Levy nas \u00faltimas semanas, em especial, ao enviar para o Congresso a proposta de redu\u00e7\u00e3o da meta de superavit prim\u00e1rio de 0,7% para 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), com a possibilidade de a meta ser zerada, Dilma acreditava que ele lhe seria fiel at\u00e9 a hora de ela definir o sucessor para a Fazenda. Levy estava disposto a pagar esse pre\u00e7o. Contudo, o fato de ningu\u00e9m do governo lhe estender as m\u00e3os para ao menos oferecer solidariedade\u00a0 o convenceu de que j\u00e1 havia passado a hora de sair.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O resto \u00e9 o resto<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dilma j\u00e1 at\u00e9 preparou o discurso para agradecer \u201cos excelentes servi\u00e7os\u201d prestados por um servidor p\u00fablico comprometido com os interesses do pa\u00eds. Mas, no fundo, ela est\u00e1 agradecendo por, agora, estar livre de qualquer press\u00e3o para retomar as maluquices que prevaleceram no primeiro mandato. E que ningu\u00e9m acredite que o futuro ministro da Fazenda ter\u00e1 autonomia para agir, seja ele quem for.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se Dilma conseguir se livrar do impeachment, o governo n\u00e3o far\u00e1 ajuste fiscal, mas apenas um disfarce de superavit prim\u00e1rio. A petista acredita que, para o pa\u00eds sair do atoleiro no qual ela o meteu, \u00e9 preciso dar est\u00edmulos, como se o Estado ainda tivesse capacidade de intervir na economia. O que a presidente colher\u00e1, por\u00e9m, ser\u00e1 mais recess\u00e3o, infla\u00e7\u00e3o e desemprego. O Brasil n\u00e3o aguenta mais esse tipo de pol\u00edtica desastrosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A sa\u00edda de Levy do governo acende, portanto, todos os sinais de alerta. O governo, que j\u00e1 estava \u00e0 deriva, tende a afundar de vez e levar o pa\u00eds junto. N\u00e3o h\u00e1 como esperar bom senso diante de tudo o que j\u00e1 se viu. Para o Pal\u00e1cio do Planalto, o mais importante \u00e9 garantir o mandato de Dilma. O resto \u00e9 o resto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 08h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi um longo processo de desgaste e desrespeito, mas, finalmente a dignidade do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que havia se tornado um zumbi, falou mais alto, e ele decidiu sair do governo. 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