{"id":3287,"date":"2016-09-27T06:30:57","date_gmt":"2016-09-27T09:30:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=3287"},"modified":"2016-09-27T07:52:34","modified_gmt":"2016-09-27T10:52:34","slug":"coluna-no-correio-corrupcao-de-mercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-corrupcao-de-mercado\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Corrup\u00e7\u00e3o de mercado"},"content":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pris\u00e3o do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci ontem pela Pol\u00edcia Federal causou pouca como\u00e7\u00e3o. Foi bem diferente do que ocorreu na semana passada com o sucessor dele no cargo, Guido Mantega, levado sob cust\u00f3dia da porta do hospital onde sua mulher passava por um procedimento cir\u00fargico. O drama familiar de Mantega contou muito a seu favor, a ponto de a pris\u00e3o ser revogada pelo juiz S\u00e9rgio Moro. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Ele n\u00e3o \u00e9 suspeito de ter se enriquecido de forma irregular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Palocci, por outro lado, enfrentou acusa\u00e7\u00f5es ainda por conta de sua gest\u00e3o como prefeito de Ribeir\u00e3o Preto.\u00a0O ent\u00e3o ministro teve de deixar o governo Lula em 2006, depois do epis\u00f3dio em que o caseiro Francenildo Santos Costa o acusou de frequentar uma casa no Lago Sul ocupada por conterr\u00e2neos suspeitos de integrar um esquema de fraudes. Santos teve o sigilo banc\u00e1rio violado e foi injustamente acusado de receber dinheiro para apresentar as den\u00fancias. A quantia havia sido depositada em sua conta pelo pai biol\u00f3gico, que se recusava a reconhec\u00ea-lo oficialmente como filho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cNaquela \u00e9poca me convenci de que Palocci n\u00e3o merecia confian\u00e7a. Mas muita gente n\u00e3o mudou de ideia\u201d, conta o economista Carlos Eduardo de Freitas, que foi diretor do Banco Central em duas ocasi\u00f5es, no governo Sarney e no de Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar da derrota, Palocci seguiu com grande tr\u00e2nsito no mercado e no governo. Elegeu-se deputado e seguiu prestando consultoria. \u00c9 de 2009, quando ele exercia o mandato parlamentar, uma parte das a\u00e7\u00f5es suspeitas de favorecimento \u00e0 Odebrecht. Foi pe\u00e7a-chave na primeira elei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, que o fez ministro-chefe da Casa Civil. Caiu no primeiro semestre de governo exatamente pela venda de servi\u00e7os durante o mandato parlamentar. A presidente julgou que, ainda que n\u00e3o fosse il\u00edcito, isso n\u00e3o era moralmente aceito. Pouco importava o fato de que outro integrante de seu governo tivesse o mesmo hist\u00f3rico. Afinal, ele dispunha de maior afei\u00e7\u00e3o da chefe de Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A segunda sa\u00edda de Palocci foi bastante lamentada por analistas de grande reputa\u00e7\u00e3o. Foi uma esp\u00e9cie de marco do distanciamento de Dilma do projeto de aproxima\u00e7\u00e3o do PT com o mercado. Alguns viram isso naquele momento. Outros, registraram a inflex\u00e3o mais tarde. O fato \u00e9 que Dilma realmente se sentiu livre a partir dali para aventuras heterodoxas. Meses depois de Palocci deixar o cargo, o BC j\u00e1 come\u00e7ava a baixar os juros. N\u00e3o havia, por\u00e9m, condi\u00e7\u00f5es de afrouxar a pol\u00edtica monet\u00e1ria sem que os pre\u00e7os disparassem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O resultado foi a deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que dura at\u00e9 hoje: disparada da infla\u00e7\u00e3o, que chegou aos dois d\u00edgitos, e da pr\u00f3pria Selic, o que se fez inevit\u00e1vel na tentativa de controlar a carestia e ajudou a agravar a recess\u00e3o em que o pa\u00eds se encontra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Per\u00edodo her\u00f3ico<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda como respons\u00e1vel pela campanha eleitoral de Lula, Palocci foi o fiador da aproxima\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o candidato com o mercado. Feito ministro da Fazenda, promoveu um ajuste fiscal na melhor linha do que os petistas radicais chamavam de pol\u00edtica neoliberal. A busca de superavits prim\u00e1rios foi a inflex\u00e3o que permitiu a retomada da confian\u00e7a dos agentes econ\u00f4micos e o forte crescimento econ\u00f4mico que se seguiu, acelerado pelo boom no pre\u00e7o de commodities.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pol\u00edtica econ\u00f4mica pr\u00f3-mercado n\u00e3o se limitou \u00e0s medidas do Executivo. O governo conseguiu no Congresso Nacional a aprova\u00e7\u00e3o da reforma previdenci\u00e1ria do setor p\u00fablico, entre outras mudan\u00e7as. Para analistas e empres\u00e1rios, s\u00f3 havia motivos de comemora\u00e7\u00e3o. Pouco importava como vinha aquilo. Mais tarde ficou claro que o apoio parlamentar havia sido conseguido com as propinas do mensal\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que acaba valendo \u00e9 a vis\u00e3o pragm\u00e1tica. Se o \u00fanico jeito de resolver um problema e conseguir avan\u00e7os \u00e9 algo irregular, ou mesmo il\u00edcito, a a\u00e7\u00e3o pode se justificar. Claro que o mercado n\u00e3o \u00e9 algo monol\u00edtico e comporta muitas pessoas que pensam de outro modo. Mas, em geral, costuma se seduzir por solu\u00e7\u00f5es simples, r\u00e1pidas e aparentemente eficazes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 que se notar que as ambi\u00e7\u00f5es v\u00e3o muito al\u00e9m da melhora do ambiente de neg\u00f3cios ou da economia do pa\u00eds. A prioridade de um empres\u00e1rio, claro, \u00e9 transpor os obst\u00e1culos que afetam diretamente a empresa. Corrup\u00e7\u00e3o pode ser uma maneira de garantir o contrato e o lucro. \u00c9 por essa raz\u00e3o que muita gente continuou procurando Palocci, que, mesmo ap\u00f3s a segunda defenestra\u00e7\u00e3o do Planalto, mantinha tr\u00e2nsito e poder. A informa\u00e7\u00e3o do Blog do Vicente de que ele discutia a substitui\u00e7\u00e3o de Mantega em 2013 animou operadores investigados no esquema de corrup\u00e7\u00e3o da Petrobras, conforme demonstra troca de mensagens inclu\u00edda nos autos da Lava-Jato. Ali\u00e1s, se poucos se comovem com a pris\u00e3o de Palocci, h\u00e1 os que experimentam temor, pela disposi\u00e7\u00e3o que ele poder\u00e1 ter de abrir a boca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O problema de aceitar a corrup\u00e7\u00e3o, mesmo que seja para garantir um avan\u00e7o social ou institucional, \u00e9 que \u00e9 imposs\u00edvel controlar seus limites. A mazela apodrece toda a sociedade. Muitos empres\u00e1rios que recorrem a meios il\u00edcitos depois percebem que o instrumento deixou de ser um modo de conquistar o neg\u00f3cio. Tornou-se, simplesmente, a condi\u00e7\u00e3o para n\u00e3o ser alijado do processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o dos brasileiros, certos ou n\u00e3o, \u00e9 que a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 aumentando no pa\u00eds. Ao mesmo tempo, a economia mergulhou em uma espiral negativa. A ajuda de Palocci n\u00e3o \u00e9 mais de grande valia a empres\u00e1rios. E quase ningu\u00e9m v\u00ea raz\u00e3o para chorar por ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 06h30min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO &nbsp; A pris\u00e3o do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci ontem pela Pol\u00edcia Federal causou pouca como\u00e7\u00e3o. Foi bem diferente do que ocorreu na semana passada com o sucessor dele no cargo, Guido Mantega, levado sob cust\u00f3dia da porta do hospital onde sua mulher passava por um procedimento cir\u00fargico. 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