{"id":3015,"date":"2016-09-04T05:30:35","date_gmt":"2016-09-04T08:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=3015"},"modified":"2016-09-04T16:55:42","modified_gmt":"2016-09-04T19:55:42","slug":"um-pais-em-busca-do-crescimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/um-pais-em-busca-do-crescimento\/","title":{"rendered":"Um pa\u00eds em busca do crescimento"},"content":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando o carro perde a tra\u00e7\u00e3o e come\u00e7a a descer a ladeira de r\u00e9, \u00e9 preciso conseguir primeiro par\u00e1-lo, e ent\u00e3o tentar andar para frente, recuperando o trajeto perdido. O Brasil chegou finalmente a esse ponto de inflex\u00e3o, o que j\u00e1 \u00e9 alguma coisa. Estamos saindo de uma recess\u00e3o que, desde os \u00faltimos meses de 2014, aniquilou pouco mais de 7% do Produto Interno Bruto (PIB). Foi o maior recuo da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Analistas estimam que o \u00faltimo resultado negativo possivelmente ter\u00e1 sido o do segundo trimestre deste ano, apresentado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) na semana passada: queda de 0,6% em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior e de 3,8% na compara\u00e7\u00e3o anual. A varia\u00e7\u00e3o do intervalo em que nos encontramos, entre julho e setembro, tende a ser pr\u00f3xima de zero, de acordo com os indicadores antecedentes que v\u00eam sendo observados por analistas. E a dos tr\u00eas \u00faltimos meses do ano deve ser positiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEstamos entrando em um novo ciclo de crescimento, mas apenas moderado\u201d, avisa o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno. Grande parte do ganho de produ\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a recupera\u00e7\u00e3o do que o pa\u00eds perdeu. Quer dizer, subir a ladeira e chegar at\u00e9 o in\u00edcio da derrapada. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa, por\u00e9m. H\u00e1 bem pouco tempo, nem sequer isso parecia estar garantido para o Brasil.\u00a0\u201cAs empresas passaram por ajustes muito fortes, reduzindo estoques e pessoal, renegociando contratos. Muitas entraram em recupera\u00e7\u00e3o judicial. Se vier outro choque, n\u00e3o aguentam\u201d, alerta Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela acha que n\u00e3o h\u00e1 sinais de grande preocupa\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio externo, embora as chances de piora nunca possam ser descartadas. No ambiente dom\u00e9stico, os riscos ca\u00edram muito com a conclus\u00e3o do processo de impeachment da agora ex-presidente Dilma Rousseff. \u201cSe ela voltasse ao poder, seria um choque para as empresas\u201d, atesta Zeina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 uma constata\u00e7\u00e3o desapaixonada, com base na frieza dos n\u00fameros, e consensual entre os analistas. Assim que Dilma saiu, o risco associado \u00e0 d\u00edvida do governo e das empresas brasileiras no mercado externo despencou, o d\u00f3lar tamb\u00e9m foi para baixo, e os \u00edndices de confian\u00e7a de empres\u00e1rios e consumidores come\u00e7aram a melhorar. \u201cNos \u00faltimos anos, criaram-se problemas estruturais com intervencionismo econ\u00f4mico\u201d, analisa Rostagno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Erros<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os erros j\u00e1 foram comentados \u00e0 exaust\u00e3o, e incluem o excesso de subs\u00eddios para algumas empresas na tentativa de criar os \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d. A Petrobras e outras estatais foram obrigadas a comprar equipamentos de empresas nacionais e bancos estatais direcionaram um volume imenso de cr\u00e9dito subsidiado, o equivalente a duas d\u00e9cadas do gasto com o Bolsa Fam\u00edlia. Al\u00e9m disso, a estatal de petr\u00f3leo teve de vender combust\u00edvel abaixo do pre\u00e7o de custo para evitar a alta da infla\u00e7\u00e3o, que, mesmo assim, disparou devido ao descontrole dos gastos p\u00fablicos e \u00e0 pol\u00edtica monet\u00e1ria frouxa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o pr\u00f3ximo ano, o governo conta com eleva\u00e7\u00e3o do PIB de 1,6%. Em 2018, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse na sexta-feira, em Xangai, na China, que a economia brasileira poder\u00e1 avan\u00e7ar 2,5%. S\u00e3o expectativas ainda ousadas, na avalia\u00e7\u00e3o dos analistas.\u00a0O crescimento potencial do nosso PIB, pelas contas de Rostagno, n\u00e3o passa atualmente de 0,7%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso quer dizer que o pa\u00eds n\u00e3o consegue crescer de forma sustentada por v\u00e1rios anos a uma taxa superior a essa sem gerar desequil\u00edbrios, como infla\u00e7\u00e3o alta. Para conseguir mais do que isso, \u00e9 preciso aprova\u00e7\u00e3o de reformas, sobretudo a proposta de emenda constitucional que limita a varia\u00e7\u00e3o do total de gastos p\u00fablicos \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior e \u00e0 mudan\u00e7a das regras para a aposentadoria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Expectativa<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cPor enquanto, o que temos \u00e9 expectativa de crescimento econ\u00f4mico. Para que as condi\u00e7\u00f5es sejam de fato dadas, \u00e9 preciso que essas reformas sejam aprovadas\u201d, diz Paulo Miguel, economista-chefe e s\u00f3cio da GPS, gestora de investimentos do banco Julios Baer. Mas ele acha que, se de fato as reformas forem aprovadas, o crescimento vir\u00e1 forte, acima at\u00e9 das atuais expectativas do governo. \u201cFicar\u00e1 mais perto de 2% do que de 1,6%\u201d. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, est\u00e3o dadas as condi\u00e7\u00f5es para que, vencidos os problemas fiscais, a economia se destrave.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os juros poder\u00e3o baixar ainda neste ano, conforme j\u00e1 sinalizou o BC no comunicado da semana passada ap\u00f3s a reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom). Na avalia\u00e7\u00e3o de Miguel, isso ocorrer\u00e1 se a PEC dos gastos for aprovada ao menos em primeiro turno at\u00e9 o fim do ano. \u201cCom a redu\u00e7\u00e3o dos juros, h\u00e1 um encadeamento de situa\u00e7\u00f5es positivas: o custo dos empr\u00e9stimos cai, os consumidores ficam com menos medo de perder o emprego e come\u00e7am a comprar produtos dur\u00e1veis que desejam, mas deixam de levar para casa por medo de ficar sem dinheiro no futuro para coisas essenciais\u201d, diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o ex-diretor do Banco Central (BC) Carlos Thadeu de Freitas Gomes, a recupera\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos meses \u00e9 garantida. A d\u00favida \u00e9 quando. \u201cVamos ver se o governo ser\u00e1 \u00f3timo ou apenas bom\u201d, afirma ele, que \u00e9 chefe da Divis\u00e3o Econ\u00f4mica da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Com\u00e9rcio (CNC). \u201cO pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 quebrado em d\u00f3lares, como j\u00e1 esteve no passado. Tem expectativa de dificuldade de pagar os compromissos em reais, mas isso n\u00e3o vai acontecer amanh\u00e3. E a gente espera que n\u00e3o aconte\u00e7a caso se consiga equilibrar as contas p\u00fablicas\u201d, explica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As dificuldades que o pa\u00eds atravessa, percebidas pela popula\u00e7\u00e3o e pelos parlamentares, s\u00e3o um combust\u00edvel para aprova\u00e7\u00e3o de reformas, avisam v\u00e1rios analistas. Portanto, caso a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds comece a melhorar muito rapidamente, pode ficar mais dif\u00edcil garantir mudan\u00e7as estruturais. \u201cO governo tem clareza de que pode ser v\u00edtima do pr\u00f3prio sucesso na recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Seria o tiro pela culatra\u201d, nota o economista Evandro Buccini, da Rio Bravo Investimentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo que se consigam aprovar o conjunto mais urgente de reformas \u2014 as PECs dos gastos e da Previd\u00eancia \u2014, ser\u00e1 preciso fazer mais para levar o pa\u00eds a outro patamar de crescimento, que permita elevar o PIB de forma sustent\u00e1vel em mais do que 2,5% anuais, como previu Meirelles. \u201cCaso tenhamos sucesso na atual etapa, v\u00e3o surgir novos problemas, decorrentes de nossas falhas estruturais, e ser\u00e1 preciso fazer outras reformas\u201d, afirma Miguel, da GPS.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Falta de quadros<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora as perspectivas de crescimento sejam favor\u00e1veis, as empresas brasileiras v\u00e3o encontrar um obst\u00e1culo nada trivial: a falta de executivos competentes para liderar esse processo, alerta o especialista em recursos humanos Marco Dalpozzo, da consultoria Comatrix. Uma das raz\u00f5es para isso, ele explica, tem a ver com o processo pol\u00edtico e jur\u00eddico que o pa\u00eds atravessa: a perda de quadros com as condena\u00e7\u00f5es em processo de corrup\u00e7\u00e3o. Outra, ele nota, \u00e9 econ\u00f4mica mesmo: com a recess\u00e3o, faltaram investimentos das empresas na forma\u00e7\u00e3o de l\u00edderes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO &nbsp; Quando o carro perde a tra\u00e7\u00e3o e come\u00e7a a descer a ladeira de r\u00e9, \u00e9 preciso conseguir primeiro par\u00e1-lo, e ent\u00e3o tentar andar para frente, recuperando o trajeto perdido. O Brasil chegou finalmente a esse ponto de inflex\u00e3o, o que j\u00e1 \u00e9 alguma coisa. 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