{"id":2927,"date":"2016-08-30T00:01:45","date_gmt":"2016-08-30T03:01:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=2927"},"modified":"2016-08-30T00:01:33","modified_gmt":"2016-08-30T03:01:33","slug":"coluna-no-correio-pagina-virada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-pagina-virada\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: P\u00e1gina virada"},"content":{"rendered":"<p>Salvo uma grande surpresa de \u00faltima hora, Dilma Rousseff despediu-se ontem do mandato. E quem assistiu ao seu discurso \u2014 muito bem escrito, ressalte-se \u2014 e acompanhou as respostas que ela deu aos senadores que a questionaram, teve certeza do porqu\u00ea a petista est\u00e1 sendo afastada do poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dilma continua a mesma. Admitiu duas vezes que errou, mesmo assim, de forma t\u00edmida. Ela culpou a todos pela mais grave recess\u00e3o da hist\u00f3ria do pa\u00eds, pela destrui\u00e7\u00e3o das contas p\u00fablicas, pelo desemprego de quase 12 milh\u00f5es de trabalhadores. Colocou-se na condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima, quando liderou o processo de destrui\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como na campanha \u00e0 relei\u00e7\u00e3o de 2014, pautada pela mentira, Dilma distorceu fatos, confundiu informa\u00e7\u00f5es, deu respostas desconexas. Manteve a arrog\u00e2ncia que lhe \u00e9 caracter\u00edstica, sem apresentar ideias concretas para tirar a economia do atoleiro. A petista foi incapaz de mostrar um projeto de governo caso o destino lhe devolvesse a presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dilma ficou mais preocupada em entrar para a hist\u00f3ria como a injusti\u00e7ada. Repetiu a tese de golpe, quando est\u00e1 provado que ela, deliberadamente, desrespeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que n\u00e3o \u00e9 uma lei menor, como seus defensores tentam passar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acusou o atual governo de estelionato eleitoral por levar adiante um programa de governo diferente daquele aprovado nas urnas. Mas ela pr\u00f3pria fez isso quando se reelegeu. Como candidata, negou que houvesse descontrole da infla\u00e7\u00e3o. Garantiu que n\u00e3o aumentaria pre\u00e7os da gasolina e da energia el\u00e9trica. Ressaltou que as finan\u00e7as do pa\u00eds estavam em ordem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>T\u00e3o logo os resultados das elei\u00e7\u00f5es foram confirmados, a petista liberou o Banco Central para aumentar a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) a fim de conter a infla\u00e7\u00e3o, que continuou galopante, devido aos fortes reajustes dos combust\u00edveis e da conta de luz. Em 2014, mesmo com as pedaladas fiscais, o governo registrou rombo de R$ 32,5 bilh\u00f5es em suas contas, buraco que saltou para R$ 111 bilh\u00f5es no passado e chegar\u00e1 a R$ 170,5 bilh\u00f5es neste ano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Esperan\u00e7a e frustra\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 triste ver Dilma submetida a um processo t\u00e3o desgastante, por toda a sua hist\u00f3ria. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 como negar a incapacidade dela para conduzir o pa\u00eds. Quando ela chegou ao Pal\u00e1cio do Planalto houve um sopro de esperan\u00e7a e de renova\u00e7\u00e3o. O Brasil seria comandado por uma mulher, v\u00edtima da ditadura, sem os v\u00edcios do mundo pol\u00edtico tradicional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa perspectiva, por\u00e9m, foi se desfazendo rapidamente. Percebeu-se uma presidente autorit\u00e1ria, com um vi\u00e9s intervencionista, acreditando que o Estado podia tudo. Pior: cercou-se de incompetentes e de corruptos, que foram pegos surrupiando os cofres de um dos maiores s\u00edmbolos do pa\u00eds, a Petrobras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo com todos os alertas de que o caminho pelo qual o pa\u00eds havia trilhado estava errado, manteve a emp\u00e1fia, dando total aval \u00e0 tal nova matriz econ\u00f4mica, cujos resultados est\u00e3o a\u00ed: queda de mais de 7% no Produto Interno Bruto (PIB) em dois anos, aumento das desigualdades sociais, viol\u00eancia avassaladora e desconfian\u00e7a quanto ao futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muita gente acreditava que, nos tr\u00eas meses em que ficou confinada no Pal\u00e1cio da Alvorada aguardando seu julgamento, Dilma tivesse feito uma reflex\u00e3o sobre os motivos que a levaram a sofrer um impeachment. Pelo visto, continuou acreditando nos mesmos equ\u00edvocos que levaram ao abreviamento de seu mandato. A petista, infelizmente, foi a maior culpada por todo o sofrimento a que est\u00e1 sendo submetida e ao trauma vivido pelo Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fim da complac\u00eancia<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O fato, por\u00e9m, de Dilma ser uma p\u00e1gina virada, n\u00e3o diminui os desafios colocados pelo pa\u00eds. Muito pelo contr\u00e1rio. O sucessor dela, Michel Temer, ter\u00e1 que provar que merece ocupar o cargo mais importante da Rep\u00fablica. A urg\u00eancia n\u00e3o permite vacilos, muito menos um presidente ref\u00e9m de grupos pol\u00edticos viciados nas benesses oferecidas pelo Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temer j\u00e1 enfrenta a chantagem de seu pr\u00f3prio partido, o PMDB, que avisou n\u00e3o estar disposto a apoiar um projeto priorit\u00e1rio para o ajuste fiscal e o resgate da confian\u00e7a: a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que limita a aumento de gastos \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior. Se a PEC for enterrada, a crise que, se acredita, est\u00e1 ficando para tr\u00e1s voltar\u00e1 com uma viol\u00eancia sem precedentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do Banco Central, as tarefas colocadas s\u00e3o para um estadista. Mas ele se mostra c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade do peemedebista. \u201cTemer, o partido dele e a maior parte das legendas aliadas n\u00e3o demonstram o empenho necess\u00e1rio para fazer as reformas que o pa\u00eds tando necessita\u201d, diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O quadro \u00e9 t\u00e3o grave, destaca Freitas, que, mesmo com a aprova\u00e7\u00e3o da PEC do teto dos gastos, o governo registrar\u00e1, em 2018, deficit fiscal de 1,5% do PIB. Com isso, a d\u00edvida p\u00fablica flertar\u00e1 com os 90% do PIB. \u201cEsses n\u00fameros s\u00e3o eloquentes quanto ao que precisa ser feito. N\u00e3o ser\u00e3o medidas paliativas que resolver\u00e3o os problemas\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir de amanh\u00e3, com o encerramento do impeachment, a complac\u00eancia ser\u00e1 riscada do dicion\u00e1rio dos agentes econ\u00f4micos. Promessas ser\u00e3o vistas com desconfian\u00e7a. Ou o governo mostra a que veio rapidamente, ou teremos de nos contentar com a mediocridade. Pior: com o ajuste sendo for\u00e7ado pelo mercado, com mais infla\u00e7\u00e3o, recess\u00e3o e desemprego.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h01min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salvo uma grande surpresa de \u00faltima hora, Dilma Rousseff despediu-se ontem do mandato. E quem assistiu ao seu discurso \u2014 muito bem escrito, ressalte-se \u2014 e acompanhou as respostas que ela deu aos senadores que a questionaram, teve certeza do porqu\u00ea a petista est\u00e1 sendo afastada do poder. &nbsp; Dilma continua a mesma. 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