{"id":2907,"date":"2016-08-28T13:04:22","date_gmt":"2016-08-28T16:04:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=2907"},"modified":"2016-08-28T17:08:13","modified_gmt":"2016-08-28T20:08:13","slug":"se-ajuste-fiscal-nao-sair-crise-sera-muito-pior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/se-ajuste-fiscal-nao-sair-crise-sera-muito-pior\/","title":{"rendered":"Se ajuste fiscal n\u00e3o sair, crise ser\u00e1 muito pior"},"content":{"rendered":"<p>POR ANTONIO TEM\u00d3TEO E PAULO SILVA PINTO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As previs\u00f5es para a economia brasileira no pr\u00f3ximo ano tendem a ser moderadamente positivas, mas est\u00e3o longe de insignificantes as chances de a situa\u00e7\u00e3o voltar a piorar. S\u00e3o v\u00e1rias as preocupa\u00e7\u00f5es dos investidores e dos analistas de mercado: quanto \u00e0 vontade e \u00e0 capacidade do governo de enfrentar interesses, consolidando o ajuste fiscal e a aprova\u00e7\u00e3o de reformas, como a da Previd\u00eancia; com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 continuidade da valoriza\u00e7\u00e3o do real frente ao d\u00f3lar, efeito colateral da melhora da economia brasileira, que pode adiar a retomada das exporta\u00e7\u00f5es; no tocante \u00e0 resist\u00eancia da infla\u00e7\u00e3o, que impede a redu\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida da taxa de juros; e, de modo amplo, pelas incertezas no quadro global.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio mundial re\u00fane problemas diversos e at\u00e9 contradit\u00f3rios. Isso quer dizer que h\u00e1 riscos para o Brasil caso a demanda se recupere e caso a retomada seja lenta. O desafio na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica do pa\u00eds \u00e9 driblar os dois tipos de problemas, assim como um t\u00e9cnico de futebol n\u00e3o deve escolher entre uma defesa eficiente e um ataque forte: precisa das duas coisas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um exemplo do que o pa\u00eds e o mundo enfrentam ocorreu na sexta-feira. Janet Yellen, a presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), fez declara\u00e7\u00f5es em um evento que sugerem a alta dos juros nos Estados Unidos em setembro pr\u00f3ximo, antes do previsto, provocando a alta da moeda norte-americana. Isso poder\u00e1 reduzir a entrada de recursos estrangeiros no Brasil e postergar a redu\u00e7\u00e3o da Selic, a taxa b\u00e1sica fixada pelo Banco Central (BC), de 14,25% ao ano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O custo dos empr\u00e9stimos \u00e9 um dos maiores obst\u00e1culos \u00e0 retomada dos investimentos. \u201cOs juros ainda est\u00e3o muito altos aqui para permitir uma recupera\u00e7\u00e3o mais forte\u201d, ressalta o economista Renato Fragelli, professor da Escola Brasileira de Economia e Finan\u00e7as da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (EPGE\/FGV).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ociosidade<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando se leva em conta a persist\u00eancia da crise, h\u00e1 um aspecto que est\u00e1 no radar de poucos analistas. Jos\u00e9 M\u00e1rio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos, \u00e9 um deles. \u201cH\u00e1 uma capacidade ociosa enorme em todo o mundo\u201d, destaca. Para ele, quando a demanda for retomada com for\u00e7a, as f\u00e1bricas instaladas na China ser\u00e3o as primeiras a absorver novas encomendas, o que poder\u00e1 adiar a recupera\u00e7\u00e3o no Brasil. A estimativa dele \u00e9 de que o Produto Interno Bruto do segundo trimestre caia 0,6%. No ano, prev\u00ea redu\u00e7\u00e3o de 3,2%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Camargo, professor da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), destaca que s\u00f3 a melhora das contas p\u00fablicas pode mudar as perspectivas de crescimento do pa\u00eds. \u201cA crise fiscal \u00e9 profunda. Somente as reformas podem favorecer a retomada da atividade\u201d, destaca. Fragelli vai na mesma linha. \u201c\u00c9 preciso melhorar o ambiente institucional com um trip\u00e9 de reformas: A DRU (Desvincula\u00e7\u00e3o de Receitas da Uni\u00e3o), o teto de gastos p\u00fablicos e a da Previd\u00eancia. Sem qualquer uma dessas tr\u00eas, tudo desaba\u201d, alerta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas d\u00favidas sobre o que vai ocorrer de fato. \u201cClaro que, ao buscar a aprova\u00e7\u00e3o de tudo isso, o governo vai ter de ceder em algo. Faz parte da negocia\u00e7\u00e3o. Mas se as propostas forem desfiguradas, isso n\u00e3o vai ter efeito\u201d, lembra Tha\u00eds Marzola Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, para quem o PIB do terceiro trimestre cair\u00e1 0,6% e o do ano, 3,6%. Ela tem d\u00favidas de que mesmo no quarto trimestre se consiga resultado positivo \u2014 crescimento mesmo, s\u00f3 em 2017.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fundo do po\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>V\u00e1rios analistas destacam que todo o quadro positivo que est\u00e1 se desenhando pode se reverter caso as reformas n\u00e3o sejam aprovadas, levando at\u00e9 mesmo a uma nova fase de recess\u00e3o. \u201cO fundo do po\u00e7o est\u00e1 para tr\u00e1s. Mas, se as reformas n\u00e3o forem feitas, poderemos descobrir que o po\u00e7o tem outro fundo, mais embaixo\u201d, diz Eduardo Velho, economista-chefe da A2A INVX Global. \u201cO mais importante \u00e9 procedermos com o ajuste fiscal para que a economia se recupere nos pr\u00f3ximos anos\u201d, diz economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Aumento da d\u00edvida<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, prev\u00ea queda de 0,6% do PIB no segundo trimestre e de 3% no ano. Na avalia\u00e7\u00e3o dela, o governo e o pa\u00eds n\u00e3o podem temer o eventual efeito recessivo do ajuste fiscal, pois, sem a retomada dos superavits prim\u00e1rios e a revers\u00e3o do aumento da d\u00edvida, n\u00e3o haver\u00e1 retomada sustentada do crescimento. \u201cMuitos associam o ajuste \u00e0 recess\u00e3o. Entretanto, quanto mais r\u00e1pido ele for executado, com maior velocidade sairemos da crise\u201d, afirma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Susto com servidores<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os investidores est\u00e3o atentos a todos os movimentos do governo. E algo que os assustou recentemente foi o recuo na regra que impedia o aumento de sal\u00e1rios de funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Esse item entrou no projeto de renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas dos estados, mas foi retirado mais tarde do texto. Para o governo, o recuo na renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas dos estados foi pouco significativo. O argumento \u00e9 de que a inclus\u00e3o do veto dos aumentos era um pedido dos governadores, que, no entanto, n\u00e3o fizeram press\u00e3o nas bancadas para aprov\u00e1-lo. O Executivo decidiu tirar esse item para n\u00e3o colocar em risco a aprova\u00e7\u00e3o do teto de aumento de gastos para os estados, isso sim considerado essencial para harmonizar com o que se pretende fazer no \u00e2mbito federal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O progn\u00f3stico das reformas \u00e9 visto como favor\u00e1vel no Pal\u00e1cio do Planalto e no Minist\u00e9rio da Fazenda. A Desvincula\u00e7\u00e3o de Receitas da Uni\u00e3o (DRU) foi aprovada na semana passada. E o governo conta com uma vit\u00f3ria nos pr\u00f3ximos dois meses com o aval da C\u00e2mara dos Deputados \u00e0 proposta de emenda constitucional (PEC) do teto para gastos p\u00fablicos, que ter\u00e3o como limite o valor do total do ano anterior corrigido pela infla\u00e7\u00e3o. A promessa foi feita pelo presidente da casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Na opini\u00e3o de um integrante da equipe econ\u00f4mica, h\u00e1 certa ansiedade do mercado com o tema. \u201c\u00c0s vezes reclamaram que o projeto est\u00e1 parado. E eu respondo: tem que estar parado mesmo, \u00e9 o prazo regimental. Mas vai avan\u00e7ar no tempo certo\u201d, comenta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A equipe econ\u00f4mica tem clareza de que as reformas s\u00f3 ter\u00e3o efeito se realizadas em conjunto. A estrat\u00e9gia \u00e9 aprovar antes a PEC dos gastos, pois isso criar\u00e1 um incentivo extra para a aprova\u00e7\u00e3o da reforma da Previd\u00eancia, a ser enviada nos pr\u00f3ximos meses pelo Executivo ao Congresso. O custo das aposentadorias cresce rapidamente a cada ano. \u201cSe a situa\u00e7\u00e3o continuar assim e o teto de gastos j\u00e1 estiver em vigor, n\u00e3o sobrar\u00e1 dinheiro para emendas parlamentares\u201d, argumenta um t\u00e9cnico pr\u00f3ximo ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. \u201cA \u00fanica maneira de evitar a situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 aprovar a reforma da Previd\u00eancia\u201d, vaticina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro t\u00e9cnico da Fazenda chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, se o mercado tivesse tantas d\u00favidas quanto ao futuro, n\u00e3o haveria indicadores favor\u00e1veis: alta da bolsa, queda do d\u00f3lar e do risco-pa\u00eds e volta das empresas brasileiras ao mercado internacional de t\u00edtulos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 13h04min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR ANTONIO TEM\u00d3TEO E PAULO SILVA PINTO &nbsp; As previs\u00f5es para a economia brasileira no pr\u00f3ximo ano tendem a ser moderadamente positivas, mas est\u00e3o longe de insignificantes as chances de a situa\u00e7\u00e3o voltar a piorar. 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