{"id":290,"date":"2015-11-27T08:30:22","date_gmt":"2015-11-27T10:30:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=290"},"modified":"2015-11-27T13:08:14","modified_gmt":"2015-11-27T15:08:14","slug":"o-quer-quer-o-bc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/o-quer-quer-o-bc\/","title":{"rendered":"O QUER QUER O BC?"},"content":{"rendered":"<p>A economia est\u00e1 ruindo, o pa\u00eds entrando em colapso pol\u00edtico e o Banco Central falando em aumento de juros? Por mais que a infla\u00e7\u00e3o seja um tormento, pouca gente entendeu o recado emitido pelo Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom), ao mostrar divis\u00e3o entre seus integrantes. Dois deles \u2014 Tony Volpon e Sidnei Marques \u2014 votaram, na noite de quarta-feira, pelo aumento de 0,5 ponto percentual na taxa b\u00e1sica (Selic). Por maioria, os juros foram mantidos em 14,25% ao ano, mas pode ser que, ao longo de 2016, o BC promova um novo arrocho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil acreditar nos sinais emitidos pela autoridade monet\u00e1ria. Olhando para a realidade do Brasil, que enfrentar\u00e1 dois anos seguidos de queda do Produto Interno Bruto (PIB), que vive uma confus\u00e3o fiscal sem precedentes \u2014 sequer se sabe a meta deste ano \u2014 e que tem um governo com a corda no pesco\u00e7o, derretendo por causa de um assustador processo de corrup\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para aumento de juros. Na verdade, se pudesse fazer alguma coisa, o BC deveria derrubar a Selic.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vamos aos fatos. A infla\u00e7\u00e3o deste ano, que ficar\u00e1 acima de 10%, tem todas as digitais do governo. A maior parcela dos aumentos captados pelos \u00edndices que medem o custo de vida vem dos pre\u00e7os administrados, mais precisamente da energia el\u00e9trica e dos combust\u00edveis. Durante um bom tempo, a presidente Dilma Rousseff segurou os reajustes da luz e da gasolina para enganar os consumidores, dando-lhes a falsa sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar em troca de votos \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o. Passado o per\u00edodo de vota\u00e7\u00e3o e com o Tesouro Nacional quebrado \u2014 depois de subsidiar por um longo per\u00edodo a eletricidade \u2013, ela decidiu repassar a fatura. A energia e os combust\u00edveis s\u00e3o grandes disseminadores de infla\u00e7\u00e3o. Quando sobem, levam os demais pre\u00e7os juntos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O governo tamb\u00e9m incentivou um movimento preventivo de remarca\u00e7\u00f5es. Desconfiados em rela\u00e7\u00e3o ao real compromisso do Pal\u00e1cio do Planalto de p\u00f4r um fim \u00e0 gastan\u00e7a com o intuito de ajustar as contas p\u00fablicas, muitos agentes econ\u00f4micos preferiram embutir nas mercadorias o custo Dilma. Essa mesma desconfian\u00e7a provocou a alta do d\u00f3lar, que encareceu todos os insumos e mercadorias importados. O d\u00f3lar alto bateu, inclusive, na conta de luz, j\u00e1 que a eletricidade produzida pela usina de Itaipu \u00e9 cotada pela moeda norte-americana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Boa parte desses desastres provocados pelo governo ter\u00e1 impacto na infla\u00e7\u00e3o de 2016. Tanto que os especialistas projetam alta de mais de 7% para o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA), taxa superior ao teto da meta, de 6,5%, definido pelo Conselho Monet\u00e1rio Nacional (CMN). Assim como n\u00e3o conseguiu conter a escalada do custo de vida neste ano, o BC n\u00e3o o far\u00e1 no ano que vem. A raz\u00e3o \u00e9 uma s\u00f3: os juros n\u00e3o t\u00eam o efeito desejado sobre a infla\u00e7\u00e3o contratada pelo pa\u00eds. Ela re\u00fane ingredientes que est\u00e3o muito al\u00e9m da capacidade do BC de agir: desconfian\u00e7a, tarifas p\u00fablicas e falta de ajuste fiscal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Press\u00e3o sobre Dilma<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se realmente vier a subir os juros no ano que vem, o BC estar\u00e1 empurrando o b\u00eabado morro abaixo. A institui\u00e7\u00e3o ter\u00e1 que assumir a responsabilidade por uma queda de at\u00e9 5% no PIB. Estamos diante de uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica fora da normalidade, quadro que, ressalte-se, teve boa contribui\u00e7\u00e3o da autoridade monet\u00e1ria. Durante o primeiro mandato de Dilma, em nenhum momento, o BC entregou a infla\u00e7\u00e3o na meta \u2014 e tudo indica que isso se repetir\u00e1 entre 2015 e 2018. A institui\u00e7\u00e3o foi cooptada pelo Planalto. Mesmo com a carestia em alta, cortou a taxa de juros, estimulando uma onda de desconfian\u00e7a. O BC linha-dura s\u00f3 deu \u00e0s caras depois da reelei\u00e7\u00e3o. Mas j\u00e1 era tarde.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de especialistas, ao indicar que pode subir os juros no ano que vem, mesmo com a atividade se contraindo, o BC est\u00e1 tentando reconstruir a credibilidade. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil. A tend\u00eancia \u00e9 de que o time comandado por Alexandre Tombini seja criticado duramente, mais uma vez, por seguir na dire\u00e7\u00e3o errada. N\u00e3o custa lembrar que a institui\u00e7\u00e3o ainda prev\u00ea retra\u00e7\u00e3o de 1,9% para o PIB de 2015. A nova estimativa ser\u00e1 divulgada at\u00e9 o fim de dezembro e ficar\u00e1 acima de 3%. Como, ent\u00e3o, justificar\u00e1 alta de juros numa economia em depress\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais que suas proje\u00e7\u00f5es, o BC ter\u00e1 de encarar os n\u00fameros do estrago provocado pelo governo \u2014 a hora de verdade, como dizem os especialistas. O desemprego no primeiro trimestre do pr\u00f3ximo ano encostar\u00e1 nos 10%. Nas contas do mercado, quase 1 milh\u00e3o de pessoas ser\u00e3o demitidas entre dezembro e mar\u00e7o. A press\u00e3o sobre a presidente Dilma, cuja popularidade est\u00e1 no ch\u00e3o, ser\u00e1 enorme.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O risco de as ruas serem tomadas por manifesta\u00e7\u00f5es populares \u00e9 enorme. Nesse contexto, como o BC ser\u00e1 capaz de pesar a m\u00e3o da Selic? Nem os livros textos justificariam tamanha aberra\u00e7\u00e3o. Tampouco, a necessidade de demonstra\u00e7\u00f5es de que a autoridade monet\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 ref\u00e9m da domin\u00e2ncia fiscal, quando a pol\u00edtica de juros passa a ser um estorvo para as contas p\u00fablicas e se torna um est\u00edmulo a mais \u00e0 carestia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Falta de paci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o vai, sim, cair. Mas bem mais adiante do que prev\u00ea o Banco Central. Para que o IPCA caminhe em dire\u00e7\u00e3o ao centro da meta, de 4,5%, ser\u00e1 preciso restabelecer a confian\u00e7a no governo e p\u00f4r em execu\u00e7\u00e3o um ajuste fiscal consistente. Esse quadro, por enquanto, \u00e9 uma miragem. A presidente Dilma, que havia ganhado um f\u00f4lego ao jogar o presidente da C\u00e2mara, Eduardo Cunha, no olho do furac\u00e3o, voltou ao centro das aten\u00e7\u00f5es depois que seu l\u00edder no Senado, Delc\u00eddio do Amaral, foi preso por tentar obstruir as investiga\u00e7\u00f5es da Lava-Jato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se, mesmo fora da linha de tiro e com a amea\u00e7a de impeachment afastada, Dilma n\u00e3o conseguiu avan\u00e7ar em nenhuma medida pr\u00f3 ajuste fiscal, pior ser\u00e1 agora com as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o instaladas no Planalto. O baque para o governo foi t\u00e3o grande com a pris\u00e3o de Delc\u00eddio, que j\u00e1 n\u00e3o se pode dizer hoje quais dos auxiliares mais pr\u00f3ximos da presidente conseguir\u00e3o virar o ano fora da pris\u00e3o. O governo est\u00e1 \u00e0 beira do precip\u00edcio, e o BC vem falar em alta de juros. Haja paci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 8h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A economia est\u00e1 ruindo, o pa\u00eds entrando em colapso pol\u00edtico e o Banco Central falando em aumento de juros? Por mais que a infla\u00e7\u00e3o seja um tormento, pouca gente entendeu o recado emitido pelo Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom), ao mostrar divis\u00e3o entre seus integrantes. 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