{"id":2889,"date":"2016-08-27T05:10:23","date_gmt":"2016-08-27T08:10:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=2889"},"modified":"2016-08-27T12:55:38","modified_gmt":"2016-08-27T15:55:38","slug":"coluna-no-correio-bolha-de-expectativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-bolha-de-expectativa\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Bolha de expectativa"},"content":{"rendered":"<p>Faltam quatro dias para o fim de agosto, mas setembro nunca pareceu t\u00e3o distante. A reta final do impeachment de Dilma Rousseff est\u00e1 mexendo com os nervos de todos, ainda que o resultado esteja praticamente decidido. A pergunta que mais tem tirado o sono da equipe econ\u00f4mica e dos mercados \u00e9 se Michel Temer ter\u00e1 for\u00e7a suficiente para tomar as medidas necess\u00e1rias a fim de p\u00f4r o Brasil novamente na rota do crescimento sustentado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tanta expectativa se justifica. Desde que o presidente interino assumiu o comando do Pal\u00e1cio do Planalto, criou-se uma onda de confian\u00e7a suficiente para reanimar um pa\u00eds atolado numa severa recess\u00e3o. Mesmo cientes de que a retomada ser\u00e1 lenta e muito dolorida, os agentes econ\u00f4micos passaram a reavaliar projetos e a expressar o desejo de retomar os investimentos produtivos. Os analistas n\u00e3o s\u00f3 solidificaram as previs\u00f5es de um Produto Interno Bruto (PIB) positivo em 2017, como, pouco a pouco, foram apresentando proje\u00e7\u00f5es melhores. Muitos falavam num terceiro ano seguido de recess\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A torcida entre os t\u00e9cnicos da equipe econ\u00f4mica \u00e9 para que essas expectativas n\u00e3o se transformem em uma bolha que pode estourar rapidamente, com consequ\u00eancias dram\u00e1ticas. N\u00e3o por acaso, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, vai batalhar para que a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que limita o aumento de gastos \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior ganhe prioridade entre as vota\u00e7\u00f5es previstas no Congresso. Se conseguir avan\u00e7ar com esse projeto, o governo dar\u00e1 a mais dura resposta \u00e0 irresponsabilidade fiscal que prevaleceu nos \u00faltimos anos e detonou a crise que atormenta a todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Janela que se fecha<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A urg\u00eancia que se imp\u00f5e a Temer ganhou um ingrediente com potencial para fazer desandar todo o quadro positivo que est\u00e1 colocado: a poss\u00edvel alta dos juros nos Estados Unidos. At\u00e9 ontem, o consenso era de que o custo do dinheiro na maior pot\u00eancia do planeta ficaria est\u00e1vel pelo menos at\u00e9 o primeiro trimestre do ano que vem. Agora, por\u00e9m, o pr\u00f3prio Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos EUA, indica que os juros podem come\u00e7ar a subir em setembro. Taxas maiores no mercado\u00a0 norte-americano significam menos recursos circulando no mundo em dire\u00e7\u00e3o a pa\u00edses emergentes como o Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O impacto dos juros maiores nos Estados Unidos pode ser medido pela rea\u00e7\u00e3o dos mercados. Na manh\u00e3 da sexta-feira, a presidente do Fed, Janet Yellen, fez um discurso considerado ameno pelos investidores, que parecem n\u00e3o ter entendido os recados passados por ela. As bolsas de valores subiram e o d\u00f3lar perdeu valor. T\u00e3o logo Stanley Fischer, vice-presidente do BC norte-americano, interpretou o discurso da chefe e indicou a poss\u00edvel eleva\u00e7\u00e3o dos juros no m\u00eas que vem, a situa\u00e7\u00e3o se inverteu por completo. O estresse passou a dar o tom das negocia\u00e7\u00f5es, com bolsa em queda e juros e d\u00f3lar em alta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de t\u00e9cnicos da equipe econ\u00f4mica, a \u00fanica forma de o governo minimizar os efeitos da alta dos juros nos EUA \u00e9 tirando o ajuste fiscal do papel, fazendo com que o discurso que prevaleceu at\u00e9 agora seja colocado em pr\u00e1tica. \u201cEstamos confiantes. Todos os sinais que temos recebido do Planalto indicam apoio total \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da PEC em outubro na C\u00e2mara dos Deputados e, at\u00e9 o in\u00edcio de dezembro, no Senado\u201d, afirma um dos subordinados de Meirelles. Para ele, Temer tem completo entendimento de que o sucesso dele depende do bom andamento da economia. \u201cN\u00e3o h\u00e1 outro caminho\u201d, diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Amea\u00e7as internas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As amea\u00e7as n\u00e3o se restringem aos juros nos EUA. Est\u00e3o tamb\u00e9m no pr\u00f3prio governo. H\u00e1 ru\u00eddos desnecess\u00e1rios criados nas \u00faltimas semanas que v\u00eam sendo anotados, um por um, pelos agentes econ\u00f4micos. Ningu\u00e9m consegue entender, por exemplo, quem est\u00e1 falando a verdade sobre um poss\u00edvel aumento de impostos. Meirelles afirma que h\u00e1, sim, chances reais de eleva\u00e7\u00e3o de tributos para fechar o Or\u00e7amento de 2017, que prev\u00ea rombo de at\u00e9 R$ 139 bilh\u00f5es nas contas p\u00fablicas. O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, por sua vez, diz que esse tema foi enterrado com o aval de Temer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na base governista, h\u00e1 uma diverg\u00eancia gritante entre o PMDB, o partido do presidente interino, e o PSDB, o principal avalista do ajuste fiscal. Os peemedebistas querem a aprova\u00e7\u00e3o, ainda na primeira quinzena de setembro, do aumento dos sal\u00e1rios dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). J\u00e1 os senadores da legenda aliada dizem que o momento \u00e9 de dar exemplo de responsabilidade fiscal e n\u00e3o de ampliar os gastos. O reajuste nos subs\u00eddios dos integrantes da mais alta Corte do pa\u00eds elevar\u00e1 o teto do funcionalismo e provocar\u00e1 um perverso efeito cascata em estados e munic\u00edpios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cTomara o governo consiga se acertar, para que as diverg\u00eancias n\u00e3o atrapalhem o que j\u00e1 se conquistou at\u00e9 agora em termos de confian\u00e7a\u201d, diz um importante t\u00e9cnico do Banco Central. \u201cEstamos acompanhando todos os movimentos do governo, j\u00e1 que as medidas a serem tomadas para o ajuste fiscal ter\u00e3o forte impacto na pol\u00edtica monet\u00e1ria\u201d, ressalta. Para ele, as chances de Temer colocar o pa\u00eds nos eixos s\u00e3o reais. S\u00f3 depender\u00e1 do empenho dele para a arruma\u00e7\u00e3o das contas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se o ajuste fiscal estivesse em curso, certamente o Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom), que se re\u00fane na semana que vem, j\u00e1 teria um bom motivo para pensar em cortar a taxa b\u00e1sica de juros (Selic), de 14,25% ao ano. Na melhor das hip\u00f3teses, s\u00f3 come\u00e7ar\u00e1 a dar um al\u00edvio no custo do dinheiro a partir de outubro. Isso, \u00e9 claro, se tudo seguir o roteiro tra\u00e7ado por Meirelles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 05h10min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faltam quatro dias para o fim de agosto, mas setembro nunca pareceu t\u00e3o distante. A reta final do impeachment de Dilma Rousseff est\u00e1 mexendo com os nervos de todos, ainda que o resultado esteja praticamente decidido. 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