{"id":287,"date":"2015-11-20T08:30:04","date_gmt":"2015-11-20T10:30:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=287"},"modified":"2015-11-20T13:03:46","modified_gmt":"2015-11-20T15:03:46","slug":"nao-me-engane-que-eu-nao-gosto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/nao-me-engane-que-eu-nao-gosto\/","title":{"rendered":"N\u00c3O ME ENGANE, QUE EU N\u00c3O GOSTO"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 leg\u00edtimo o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, imprimir um tom otimista em seu discurso. Faz parte da liturgia do cargo. Mas encampar a propaganda enganosa que \u00e9 caracter\u00edstica do PT j\u00e1 \u00e9 demais. Mesmo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) mostrando forte acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o em novembro \u2014 o IPCA-15 cravou alta de 10,28% em 12 meses, a maior taxa desde 2003 \u2014, o chefe da equipe econ\u00f4mica disse, sem constrangimento, que a carestia est\u00e1 em queda. Para um t\u00e9cnico t\u00e3o conceituado quanto Levy, seria melhor se ele tivesse ficado calado. Se continuar difundindo o modelo \u201cme engana, que eu gosto\u201d, t\u00e3o presente no discurso petista, corre o risco de entrar para o time de ministros que se tornaram motivo de piada. Que o diga o antecessor dele, Guido Mantega.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o, asseguram especialistas, continuar\u00e1 elevada at\u00e9 pelo menos o fim do primeiro semestre de 2016. Com o resultado do IPCA-15 de novembro, de 0,85%, muitos economistas revisaram, para cima, as proje\u00e7\u00f5es deste m\u00eas e do ano. Nos c\u00e1lculos de Elson Teles, do Ita\u00fa Unibanco, em vez de 0,70%, o IPCA fechado de novembro ser\u00e1 de 0,90%. Para dezembro, a estimativa preliminar est\u00e1 em 0,85%. J\u00e1 a taxa anual ficar\u00e1 em 10,4% ante os 10,1% previstos anteriormente. Na vis\u00e3o de Teles, a dissemina\u00e7\u00e3o de reajustes ganhou for\u00e7a. Em outubro, de cada 100 produtos e servi\u00e7os pesquisados pelo IBGE, 68,8% apontaram aumento. Agora, o chamado \u00edndice de difus\u00e3o saltou para 71%.<br \/>\nO recrudescimento da infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 se dando mesmo com o aprofundamento da recess\u00e3o. Esperava-se que, com queda t\u00e3o acentuada do Produto Interno Bruto (PIB), os pre\u00e7os recuassem j\u00e1 no fim deste ano. Esse, inclusive, era o cen\u00e1rio tra\u00e7ado pelo Banco Central, que prometia entregar a carestia no centro da meta, de 4,5%, at\u00e9 o fim de 2016. Mas tudo est\u00e1 jogando contra, especialmente o governo. Para dar a sensa\u00e7\u00e3o de que a situa\u00e7\u00e3o estava sob controle e garantir a reelei\u00e7\u00e3o, a presidente Dilma Rousseff segurou, o quanto pode, os pre\u00e7os administrados, mais precisamente os da energia el\u00e9trica e dos combust\u00edveis. T\u00e3o logo as urnas confirmaram o segundo mandato, a verdade deu as caras. As contas de luz passaram a subir numa velocidade impressionante e os aumentos da gasolina e do diesel se tornaram mais frequentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esses reajustes se espalharam por toda a economia e se somaram \u00e0 alta do d\u00f3lar e \u00e0 dos alimentos. Agora, acima de 10%, qualquer movimento fora da curva poder\u00e1 empurrar o IPCA para 11% facilmente. Infla\u00e7\u00e3o de dois d\u00edgitos no Brasil \u00e9 um grande problema, devido \u00e0 forte indexa\u00e7\u00e3o da economia. Os contratos corrigidos por \u00edndice t\u00e3o elevado v\u00e3o contaminar o custo de vida futuro. Por isso, a cada semana, pioram as estimativas para os pr\u00f3ximos anos. Se os economistas estiverem certos, nem em 2018 a infla\u00e7\u00e3o estar\u00e1 no centro da meta. Ou seja, nos oito anos de mandato de Dilma n\u00e3o se ver\u00e1 o BC cumprir a miss\u00e3o que lhe foi entregue. Para 2016, o consenso aponta para carestia de 7%, acima do limite de toler\u00e2ncia (6,5%).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia nas periferias<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O quadro inflacion\u00e1rio se torna mais dram\u00e1tico diante do estrago que a recess\u00e3o est\u00e1 fazendo no mercado de trabalho. Andr\u00e9 Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, afirma que o desemprego, que atingiu 7,9% em outubro, chegar\u00e1 a 10% no ano que vem, retornando aos n\u00edveis de 2006 \u2014 um retrocesso de uma d\u00e9cada. Somente nos \u00faltimos 12 meses, a renda m\u00e9dia real dos trabalhadores caiu 7%. Isso quer dizer que, al\u00e9m das demiss\u00f5es em massa, quem ainda consegue uma vaga est\u00e1 sendo obrigado a aceitar sal\u00e1rios menores. O resultado disso ser\u00e1 mais retra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que mais perturba especialistas \u00e9 o estrago social que est\u00e1 se desenhando no pa\u00eds. Recess\u00e3o, infla\u00e7\u00e3o alta e desemprego tendem a elevar a pobreza, por mais resistente que seja a rede de prote\u00e7\u00e3o criada nos \u00faltimos anos. Nas periferias das grandes cidades, j\u00e1 se v\u00ea um contingente maior de homens adultos desocupados. Muitos sequer t\u00eam dinheiro para pagar as passagens de \u00f4nibus que lhes permitiriam procurar trabalho. Os recursos do seguro-desemprego, que vinha segurando as despesas emergenciais, j\u00e1 acabaram. Restar\u00e1, nesse ambiente de insatisfa\u00e7\u00e3o, o aumento da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O IBGE mostra que, em rela\u00e7\u00e3o a outubro do ano passado, a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o em Salvador passou de 8,5% para 12,8%; em S\u00e3o Paulo, quase dobrou, saltando de 4,4% para 8,1%; em Recife, foi de 6,7% para 9,8%; em Belo Horizonte, de 3,5% para 6,6%; no Rio de Janeiro, de 3,8% para 6,0%; e, em Porto Alegre, de 4,6% para 6,8%. Para Andr\u00e9 Perfeito, o aumento do desemprego faz parte do ajuste que Levy e o Banco Central buscam para derrubar a infla\u00e7\u00e3o. Resta saber, segundo ele, se a sociedade aguentar\u00e1 calada esse arrocho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Presente de grego<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ordem, dentro do governo, \u00e9 para monitorar as tens\u00f5es sociais que possam despontar pa\u00eds afora devido ao descontentamento com a economia. Dilma j\u00e1 deixou claro a interlocutores a preocupa\u00e7\u00e3o com o risco de a nova classe m\u00e9dia, a mais beneficiada pelo longo per\u00edodo de crescimento econ\u00f4mico, sair \u00e0s ruas e encampar as press\u00f5es pelo impeachment. A presidente sabe que, neste momento, n\u00e3o tem nada a oferecer para aplacar as mazelas que est\u00e3o destruindo o poder de compra das fam\u00edlias e inibindo os investimentos produtivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A alternativa ser\u00e1 apresentar paliativos, como o Programa de Prote\u00e7\u00e3o ao Emprego (PPE), sancionado ontem. Lan\u00e7ado em julho, o projeto trouxe pouqu\u00edssimo alento. As demiss\u00f5es se acentuaram, a economia afundou na recess\u00e3o e a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao governo s\u00f3 cresceu, por causa, sobretudo, da crise pol\u00edtica que travou o pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dilma, Levy e companhia poder\u00e3o at\u00e9 recorrer \u00e0 ret\u00f3rica para tentar segurar os \u00e2nimos. Mas, com o bolso dos trabalhadores t\u00e3o estragado \u00e0s v\u00e9speras do Natal, a miss\u00e3o ser\u00e1 quase imposs\u00edvel. Em vez da esperan\u00e7a de dias melhores, o que a petista est\u00e1 entregando para a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 um grande presente de grego.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 08h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 leg\u00edtimo o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, imprimir um tom otimista em seu discurso. Faz parte da liturgia do cargo. Mas encampar a propaganda enganosa que \u00e9 caracter\u00edstica do PT j\u00e1 \u00e9 demais. 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