{"id":2538,"date":"2016-08-09T05:10:51","date_gmt":"2016-08-09T08:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=2538"},"modified":"2016-08-09T08:03:21","modified_gmt":"2016-08-09T11:03:21","slug":"coluna-no-correio-se-gritar-leva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-se-gritar-leva\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Se gritar, leva"},"content":{"rendered":"<p>A desconfian\u00e7a dos investidores em rela\u00e7\u00e3o ao real compromisso do governo com o ajuste fiscal levou o Pal\u00e1cio do Planalto a recuar na promessa de fazer concess\u00f5es aos estados. Os recados emitidos pelo mercado nos \u00faltimos dias, sobretudo depois da libera\u00e7\u00e3o para que os governadores mantivessem a farra com reajustes e contrata\u00e7\u00e3o de servidores, indicavam que, se o presidente interino, Michel Temer, n\u00e3o voltasse atr\u00e1s nas benesses, a lua de mel que vigora desde que o peemedebista chegou ao Pal\u00e1cio do Planalto passaria por momentos de tormenta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi preciso, por\u00e9m, que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, atuasse pesadamente nos bastidores para que Temer reconhecesse os riscos que estava correndo. A vis\u00e3o no entorno do interino era de que as concess\u00f5es aos estados, que ter\u00e3o al\u00edvio de R$ 50 bilh\u00f5es em suas d\u00edvidas, seriam vitais para sacramentar o impeachment definitivo de Dilma Rousseff no fim deste m\u00eas. O chefe da equipe econ\u00f4mica alertou que n\u00e3o seria recomend\u00e1vel alimentar os questionamentos que os investidores v\u00eam fazendo diante do vaiv\u00e9m do governo na quest\u00e3o fiscal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o do mercado \u00e9 de que, para garantir o impeachment, Temer est\u00e1 disposto a tudo, inclusive a jogar por terra a promessa de arruma\u00e7\u00e3o das contas p\u00fablicas. Muitos investidores dizem que o interino n\u00e3o resiste a um grito. Basta um grupo falar mais alto que o normal para conseguir o que est\u00e1 pleiteando. Nas \u00faltimas duas semanas, governadores e servidores, que se sentiram prejudicados pelas duras condi\u00e7\u00f5es impostas no acordo de renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas dos estados, passaram a pressionar o Planalto a recuar. E conseguiram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo com a imposi\u00e7\u00e3o de que haver\u00e1 um teto para o aumento dos gastos dos estados, correspondente \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior, e com a proibi\u00e7\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o de concursos e de concess\u00e3o de reajustes ao funcionalismo nos pr\u00f3ximos dois anos, o projeto que deve ser votado nesta semana na C\u00e2mara mant\u00e9m fora dos c\u00e1lculos das despesas com pessoal os benef\u00edcios pagos pelos Judici\u00e1rios estaduais e pelas assembleias legislativas. Tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e3o computados, nessa rubrica, os gastos com terceirizados. Meirelles acredita que, mais \u00e0 frente, ser\u00e1 poss\u00edvel corrigir tais distor\u00e7\u00f5es. Poucos acreditam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Acima dos mortais<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A vis\u00e3o dos investidores de que, no governo, quem grita leva se fortaleceu depois que o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, anunciou que os militares ficar\u00e3o de fora da reforma da Previd\u00eancia, cujo projeto o governo pretende encaminhar ao Congresso at\u00e9 o fim do ano. Quando as discuss\u00f5es sobre o tema se tornaram p\u00fablicas, o pr\u00f3prio Padilha disse que nem um grupo manteria privil\u00e9gios. As futuras regras de aposentadoria valeriam para todos. Meirelles, por sua vez, afirmava que todos deveriam dar sua conta de sacrif\u00edcio.<br \/>\nBastou, por\u00e9m, a caserna se manifestar para que Temer recuasse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora, o discurso \u00e9 o de que os militares s\u00e3o uma categoria \u00e0 parte, que n\u00e3o pode ser comparada \u00e0 dos simples mortais. Esses argumentos s\u00e3o repetidos, sem constrangimento, por Padilha e pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann. Gente gra\u00fada do governo acredita que, nesse contexto, nem mesmo a proposta de se ampliar o tempo de perman\u00eancia na ativa de integrantes das For\u00e7as Armadas, de 30 para 35 anos, ser\u00e1 levada adiante. Os comandantes do Ex\u00e9rcito, da Marinha e da Aeron\u00e1utica j\u00e1 disseram que s\u00e3o contra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O temor da equipe econ\u00f4mica \u00e9 de que outras corpora\u00e7\u00f5es mais organizadas se aproveitem dessa brecha para reivindicar a manuten\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios especiais. Como se sabe, o governo quer acabar com a possibilidade de policiais e professores de se aposentarem depois de 25 anos de trabalho. Pelo que est\u00e1 em estudo, as regras para esses grupos seriam igualadas, ao longo de 15 anos, \u00e0s de trabalhadores da iniciativa privada. Mas os policiais j\u00e1 avisaram ao secret\u00e1rio de Previd\u00eancia do Minist\u00e9rio da Fazenda, Marcelo Caetano, que n\u00e3o aceitar\u00e3o mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O risco, portanto, de a reforma da Previd\u00eancia ser esvaziada se elevou muito. H\u00e1, inclusive, a possibilidade de as mudan\u00e7as que est\u00e3o sendo pensadas nem sa\u00edrem do papel. Se, antes mesmo de apresentar o projeto e de coloc\u00e1-lo em debate no Congresso, o governo j\u00e1 est\u00e1 fazendo concess\u00f5es, imagine quando as corpora\u00e7\u00f5es se manifestarem contra. Nos \u00faltimos anos, foram justamente a gritaria contr\u00e1ria e a defesa em favor de privil\u00e9gios que inviabilizaram a reforma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Sinais de bravata<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos v\u00e3o dizer que tema t\u00e3o relevante s\u00f3 entrar\u00e1 na pauta depois que o presidente interino for efetivado no cargo e em meio a um quadro macroecon\u00f4mico melhor. Integrantes da equipe liderada por Meirelles acreditam que o segundo semestre do ano ser\u00e1 melhor, com o pa\u00eds podendo se livrar da recess\u00e3o de vez. Nesse ambiente, ressaltam, o governo ter\u00e1 for\u00e7a suficiente para aglutinar as bases e tocar a pauta defendida pelo ministro da Fazenda, que inclui a reforma da Previd\u00eancia, uma vez que, sem ela, de nada adiantar\u00e1 a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que limita o aumento dos gastos \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o custa lembrar que nem mesmo os governos mais populares da hist\u00f3ria foram capazes de dobrar as resist\u00eancias do Congresso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reforma da Previd\u00eancia. Temer, como ressaltam seus auxiliares, tem um grande diferencial: n\u00e3o est\u00e1 compromissado com as urnas, pois n\u00e3o se candidatar\u00e1 \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018. Sendo assim, usar\u00e1 toda a habilidade pol\u00edtica para aprovar medidas que aqueles que est\u00e3o de olho nos votos dos eleitores n\u00e3o t\u00eam coragem. O discurso \u00e9 bonito, mas, por tudo o que se viu nos tr\u00eas primeiros meses do governo do peemedebista, pode-se identificar nele sinais de bravata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os investidores est\u00e3o atentos. Da mesma forma como t\u00eam dado um voto de confian\u00e7a a Temer neste momento, podem virar o jogo. Meirelles, melhor do que ningu\u00e9m, sabe o qu\u00e3o arisco \u00e9 o capital. Por isso, se movimentou como p\u00f4de para evitar o pior na renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas dos estados. Ele tem a exata no\u00e7\u00e3o de que sua reputa\u00e7\u00e3o, tanto quanto a do presidente interino, est\u00e1 em jogo. Mas transformar esse importante ativo em p\u00f3 \u00e9 muito f\u00e1cil. Basta acionar o bot\u00e3o do fracasso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 05h10min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A desconfian\u00e7a dos investidores em rela\u00e7\u00e3o ao real compromisso do governo com o ajuste fiscal levou o Pal\u00e1cio do Planalto a recuar na promessa de fazer concess\u00f5es aos estados. 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