{"id":2460,"date":"2016-08-05T00:01:21","date_gmt":"2016-08-05T03:01:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=2460"},"modified":"2016-08-05T00:11:01","modified_gmt":"2016-08-05T03:11:01","slug":"coluna-no-correio-sarney-e-itamar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-sarney-e-itamar\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Sarney e Itamar"},"content":{"rendered":"<p>Compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o inevit\u00e1veis. E o mercado financeiro \u00e9 pr\u00f3digo nesse assunto. Diante das contradi\u00e7\u00f5es do governo na \u00e1rea fiscal, v\u00e1rios analistas v\u00eam se perguntando se o presidente interino, Michel Temer, est\u00e1 mais para Jos\u00e9 Sarney ou para Itamar Franco. Os dois ex-presidentes, ambos do PMDB, representam momentos bem distintos da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Sarney fez um governo med\u00edocre, com v\u00e1rios planos econ\u00f4micos fracassados. Itamar, totalmente desacreditado, conseguiu a proeza de domar a infla\u00e7\u00e3o e recolocar o pa\u00eds no caminho da estabilidade ao lan\u00e7ar m\u00e3o do Plano Real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temer, na avalia\u00e7\u00e3o dos agentes econ\u00f4micos, ainda n\u00e3o se definiu para que lado pender\u00e1. Mas o tempo, que \u00e9 curto, h\u00e1 de se encarregar de faz\u00ea-lo. Uma coisa \u00e9 certa: se n\u00e3o cumprir a promessa de levar adiante reformas importantes, como a da Previd\u00eancia Social, e n\u00e3o conseguir colocar as contas p\u00fablicas em ordem, certamente encerrar\u00e1 seu mandato de forma melanc\u00f3lica, como ocorreu com Sarney. Nos quase tr\u00eas meses que est\u00e1 ocupando a cadeira mais importante do pa\u00eds, o interino prometeu muito, mas entregou pouco. Na verdade, s\u00f3 alimentou expectativas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O discurso mais repetido pelos defensores de Temer \u00e9 o de que julg\u00e1-lo agora \u00e9 injusto. Num processo de interinidade, por mais poder que tenha o ocupante do Pal\u00e1cio do Planalto, \u00e9 complicado tomar medidas duras. Essa situa\u00e7\u00e3o fica mais dif\u00edcil quando h\u00e1 um processo de impeachment no meio. Aos mais pr\u00f3ximos, Temer tem refor\u00e7ado que um novo governo come\u00e7ar\u00e1 assim que Dilma Rousseff for afastada de vez. Da\u00ed em diante se poder\u00e1, sim, fazer compara\u00e7\u00f5es de julgamentos. O peemedebista acredita que haver\u00e1 surpresas positivas na travessia at\u00e9 o fim de 2018.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o bastar\u00e1 apenas vontade para tocar projetos indispens\u00e1veis, como a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que limita o aumento dos gastos p\u00fablicos \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior. Temer ter\u00e1 que combinar o jogo com sua base de apoio no Congresso. At\u00e9 agora, o que mais o interino fez foi ceder ao fisiologismo e ao desinteresse de parlamentares de tirar o pa\u00eds do atoleiro. Em quase todas as tentativas para botar o m\u00ednimo de ordem na quest\u00e3o fiscal, o peemedebista deixou a sensa\u00e7\u00e3o de que o que menos importa neste momento \u00e9 arrumar as finan\u00e7as do pa\u00eds. A licen\u00e7a para gastar continua prevalecendo em rela\u00e7\u00e3o ao bom senso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Confian\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sarney, como mostra a hist\u00f3ria, fez as escolhas erradas. Enganou a popula\u00e7\u00e3o logo no primeiro pacote econ\u00f4mico que lan\u00e7ou, com a promessa de debelar a hiperinfla\u00e7\u00e3o. Criou, com o Plano Cruzado, uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar ao congelar pre\u00e7os. T\u00e3o logo o seu partido se sagrou campe\u00e3o nas urnas nas primeiras elei\u00e7\u00f5es ap\u00f3s tomar posse, liberou um tarifa\u00e7o que resultou em revolta da popula\u00e7\u00e3o. O Brasil ficou \u00e0 beira de uma convuls\u00e3o social. Dali em diante, nenhuma outra tentativa de colocar o pa\u00eds nos eixos deu certo. Sarney conseguiu terminar o governo conduzindo uma pol\u00edtica batizada de feij\u00e3o com arroz, sin\u00f4nimo claro de fracasso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Itamar, por sua vez, cercou-se de economistas brilhantes, aos quais deu liberdade para trabalhar. Apostou todas as fichas de que, naquele momento, ap\u00f3s o impeachment de Fernando Collor de Mello, o Brasil teria condi\u00e7\u00f5es de se livrar de vez da praga da infla\u00e7\u00e3o. O temperamento dif\u00edcil do ent\u00e3o presidente levantava d\u00favidas se realmente um plano econ\u00f4mico com a envergadura do Real seria colocado em pr\u00e1tica. Itamar surpreendeu, sobretudo por n\u00e3o se render ao corporativismo de v\u00e1rias categorias trabalhistas e ao fisiologismo do Congresso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como ressaltam os analistas que tentam decifrar Temer, o peemedebista tem uma vantagem grande: assim como Itamar, nomeou pessoas extremamente competentes para a \u00e1rea econ\u00f4mica. O time comandado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, sabe perfeitamente o que \u00e9 preciso ser feito para que o pa\u00eds saia da recess\u00e3o, volte a crescer de forma sustentada, crie empregos e distribua renda. A credibilidade desse grupo \u00e9 tamanha que, mesmo n\u00e3o tendo feito nada de efetivo at\u00e9 agora, apenas apresentado propostas, conseguiu mudar o humor no pa\u00eds, melhorar os \u00edndices de confian\u00e7a e abrir focos de luz no horizonte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, com todas as concess\u00f5es que est\u00e3o sendo feitas, principalmente as que beneficiam estados que n\u00e3o t\u00eam o menor compromisso com o equil\u00edbrio fiscal, Temer macula a imagem da equipe econ\u00f4mica. A meta do grupo chefiado por Meirelles era impor limites duros para os gastos com pessoal dessas unidades da Federa\u00e7\u00e3o. Mas, diante do lobby de governadores, de servidores do Judici\u00e1rio e das assembleias legislativas, todas as contrapartidas para o al\u00edvio de R$ 50 bilh\u00f5es que os estados ter\u00e3o em suas d\u00edvidas foram parar no lixo. A vers\u00e3o Sarney de Temer nunca foi t\u00e3o expl\u00edcita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Populismo<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os investidores acreditam que ainda h\u00e1 tempo de o presidente interino fazer um governo marcante. Para isso, deve se afastar da tenta\u00e7\u00e3o do populismo. Se ele se preocupar apenas em aparecer bem nas pesquisas de opini\u00e3o, assinar\u00e1 rapidamente sua senten\u00e7a. Pode, inclusive, terminar o mandato como Dilma, apontada como uma das piores chefes de Estado da hist\u00f3ria. Ela deixou o Brasil de joelhos, atolado na pior recess\u00e3o de que se tem registro, com 11,6 milh\u00f5es de desempregados e o futuro da maior parte da popula\u00e7\u00e3o hipotecado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Exemplos, portanto, n\u00e3o faltam para Temer. Resta saber se ele ter\u00e1 a sabedoria necess\u00e1ria para conduzir o pa\u00eds para bem longe da crise. Um t\u00e9cnico da equipe econ\u00f4mica resume, com perfei\u00e7\u00e3o, o que todos esperam do interino: \u201cQue os interesses da popula\u00e7\u00e3o estejam acima de todos os interesses pol\u00edticos\u201d. \u00c9 duro dizer, mas, infelizmente, ainda estamos longe de acreditar nisso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h01min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o inevit\u00e1veis. E o mercado financeiro \u00e9 pr\u00f3digo nesse assunto. Diante das contradi\u00e7\u00f5es do governo na \u00e1rea fiscal, v\u00e1rios analistas v\u00eam se perguntando se o presidente interino, Michel Temer, est\u00e1 mais para Jos\u00e9 Sarney ou para Itamar Franco. Os dois ex-presidentes, ambos do PMDB, representam momentos bem distintos da hist\u00f3ria do pa\u00eds. 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