{"id":2406,"date":"2016-08-03T07:10:29","date_gmt":"2016-08-03T10:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=2406"},"modified":"2016-08-03T07:42:32","modified_gmt":"2016-08-03T10:42:32","slug":"coluna-no-correio-meirelles-escorrega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-meirelles-escorrega\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Meirelles escorrega"},"content":{"rendered":"<p>De concess\u00e3o em concess\u00e3o no projeto que trata da renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas de estados, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, vai dando mostras do que ser\u00e1 a negocia\u00e7\u00e3o para a aprova\u00e7\u00e3o da Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que limita o aumento dos gastos \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior. O chefe da equipe econ\u00f4mica come\u00e7ou falando grosso com governadores e parlamentares, mas, por determina\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio do Planalto, acabou cedendo em pontos que manter\u00e3o abertas muitas torneiras dos gastos que levaram v\u00e1rias unidades da Federa\u00e7\u00e3o \u00e0 quase fal\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para um ministro que, desde que tomou posse, assumiu como bandeira um duro combate \u00e0 gastan\u00e7a e prop\u00f4s uma revolu\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o das contas p\u00fablicas ao se estabelecer um limite para a alta das despesas, n\u00e3o h\u00e1 como entender a atual complac\u00eancia. Meirelles aceitou ontem incluir os servidores das assembleias legislativas no grupo de categorias cujos gastos com terceiriza\u00e7\u00e3o, indeniza\u00e7\u00f5es, aux\u00edlios e despesas de exerc\u00edcios anteriores ser\u00e3o retirados do c\u00e1lculo da folha salarial. Assim, n\u00e3o ser\u00e3o considerados como despesas com pessoal para efeito da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera, o ministro j\u00e1 havia concordado com a retirada, da folha de sal\u00e1rios, dos mesmos benef\u00edcios pagos a servidores do Judici\u00e1rio, do Minist\u00e9rio P\u00fablico, da Defensoria P\u00fablica e dos Tribunais de Contas estaduais. Muita gente viu a a\u00e7\u00e3o como um gesto pol\u00edtico compreens\u00edvel, a fim de dar celeridade \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas e permitir o andamento de outros projetos de interesse do Executivo. Mas, agora, a impress\u00e3o \u00e9 de que a porteira est\u00e1 sendo aberta a uma velocidade muito r\u00e1pida, que pode desfigurar o ajuste que tanto se espera dos estados. Pior: n\u00e3o ser\u00e1 surpresa se demandas semelhantes partirem do Executivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aliados de Meirelles garantem que tudo est\u00e1 sob controle, pois, apesar das concess\u00f5es, tais despesas s\u00f3 poder\u00e3o aumentar de acordo com a infla\u00e7\u00e3o do ano anterior, seguindo o modelo tra\u00e7ado para a PEC dos gastos da Uni\u00e3o. Usando a ret\u00f3rica, o ministro, que tenta se preservar, afirma que \u201cqualquer mudan\u00e7a, se vier, ser\u00e1 para melhor\u201d. Todos sabem que n\u00e3o \u00e9 assim, j\u00e1 que n\u00e3o se tem a garantia de que os governadores cumprir\u00e3o o acertado. O hist\u00f3rico deles \u00e9 terr\u00edvel. Para desrespeitar a LRF, criaram um monte de atalhos. Deu no que deu: estados quebrados, insolventes, atrasando sal\u00e1rios e suspendendo a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os essenciais \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. O risco de os problemas que vemos hoje se repetirem mais \u00e0 frente \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Reputa\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A fraqueza demonstrada pela Fazenda contrasta com a posi\u00e7\u00e3o dura adotada pelo Banco Central. A atual diretoria, comandada por Ilan Goldfajn, entendeu a import\u00e2ncia de se construir uma boa reputa\u00e7\u00e3o. Mesmo com o mercado bancando que haver\u00e1 queda da taxa b\u00e1sica de juros (Selic), que est\u00e1 em 14,25% ao ano, a partir de outubro, a ordem \u00e9 manter intacto o discurso de que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a flexibiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Internamente, o BC comemora o fato de os analistas estarem revisando, para baixo, as proje\u00e7\u00f5es futuras de infla\u00e7\u00e3o. As estimativas para 2018, 2019 e 2020 j\u00e1 est\u00e3o ancoradas no centro da meta, de 4,5%, e as de 2017 come\u00e7am a migrar para esse patamar \u2014 est\u00e3o em 5,2%. Mas, como dizem os diretores, ainda \u00e9 muito pouco. \u00c9 preciso mais para que a institui\u00e7\u00e3o d\u00ea partida ao movimento de redu\u00e7\u00e3o da Selic.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa postura ultraconservadora \u00e9 uma resposta \u00e0 vis\u00e3o que prevalecia no mercado em rela\u00e7\u00e3o a Ilan. At\u00e9 assumir a presid\u00eancia do BC, ele era visto como um \u201cpombo\u201d (dovish, em ingl\u00eas), adjetivo usado para classificar os economistas mais complacentes com a infla\u00e7\u00e3o. O economista afirmava que os juros poderiam cair dois pontos percentuais a partir de julho \u00faltimo. Mas, j\u00e1 no cargo, trabalhou pesado para a manuten\u00e7\u00e3o da taxa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ilan entendeu que, se n\u00e3o se fosse mais contundente na defesa de um BC ultraortodoxo, ficaria desmoralizado. Agora, \u00e9 o primeiro a dizer, nas conversas internas, que o momento \u00e9 de aproveitar o movimento de desinfla\u00e7\u00e3o da economia para levar a infla\u00e7\u00e3o ao centro da meta e ancor\u00e1-la nos 4,5% ou abaixo disso. O discurso dentro do BC \u00e9 o de que acabou o per\u00edodo de experimentalismos e de discursos sem consist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Perto da queda<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, um BC linha-dura \u00e9 importante para o controle das expectativas. Se os agentes econ\u00f4micos acreditam no compromisso de controle da infla\u00e7\u00e3o, com o tempo os \u00edndices de pre\u00e7os acabar\u00e3o convergindo para a meta. \u201cE \u00e9 o que estamos vendo hoje\u201d, diz. Ela acredita que, com a credibilidade adquirida at\u00e9 agora, seria at\u00e9 aceit\u00e1vel que o Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) derrubasse os juros j\u00e1 em agosto. \u201cHaveria justificativas plaus\u00edveis para isso\u201d, acrescenta. Mas o BC de Ilan n\u00e3o far\u00e1 isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A prioridade desse Banco Central cauteloso, acredita Zeina, \u00e9 aumentar o estoque de reputa\u00e7\u00e3o para que os juros caiam de forma segura, sem solavancos. \u201cA diretoria atual vive o que chamamos de curva de aprendizado\u201d, ressalta. Para ela, \u00e9 poss\u00edvel que a taxa b\u00e1sica caia antes mesmo de o Congresso aprovar as medidas de ajuste fiscal. O BC condicionar\u00e1, por\u00e9m, a magnitude da queda \u00e0 arruma\u00e7\u00e3o das contas p\u00fablicas. Quanto mais contundente for o processo, maior ser\u00e1 o recuo dos juros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Zeina destaca que a boa not\u00edcia, na atual conjuntura, \u00e9 a mudan\u00e7a de regime da pol\u00edtica econ\u00f4mica. No in\u00edcio do ano, falava-se em d\u00f3lar a R$ 6, em juros de dois d\u00edgitos em 2018 e em domin\u00e2ncia fiscal (quando a pol\u00edtica monet\u00e1ria perde a efic\u00e1cia). \u201cHoje, o debate \u00e9 quando e quanto a Selic vai cair. As discuss\u00f5es se normalizaram\u201d, afirma. \u201cAgora, \u00e9 importante que o governo fa\u00e7a o ajuste fiscal. Se n\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o sair\u00e1 do controle\u201d, avisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 07h10min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De concess\u00e3o em concess\u00e3o no projeto que trata da renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas de estados, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, vai dando mostras do que ser\u00e1 a negocia\u00e7\u00e3o para a aprova\u00e7\u00e3o da Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que limita o aumento dos gastos \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior. 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