{"id":2344,"date":"2016-07-31T07:50:44","date_gmt":"2016-07-31T10:50:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=2344"},"modified":"2016-07-31T16:06:31","modified_gmt":"2016-07-31T19:06:31","slug":"coluna-no-correio-as-zelites-reais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-as-zelites-reais\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: As &#8220;zelites&#8221; reais"},"content":{"rendered":"<p>POR ANT\u00d4NIO MACHADO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se, assim como diz o ditado, a caravana passa e os c\u00e3es ladram, na economia\u00a0continua passando solto o desemprego. Ele \u00e9 o resultado do ajuste para\u00a0livrar o pa\u00eds de uma crise certa das contas externas se n\u00e3o houvesse o\u00a0cavalo de pau da pol\u00edtica econ\u00f4mica ap\u00f3s a reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff. E\u00a0assim ser\u00e1 at\u00e9 o desfecho da a\u00e7\u00e3o absurdamente morosa do impeachment, devido\u00a0aos desatinos do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Senado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dessa s\u00edntese do quadro da economia decorrem dois eventos, um bom, outro\u00a0perverso. O bom \u00e9 que o rombo de US$ 104 bilh\u00f5es em conta corrente no fim\u00a0de 2014, correspondendo a 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB), tende j\u00e1 este\u00a0ano a pouco mais de 1% do PIB, algo como US$ 23 bilh\u00f5es ou at\u00e9 menos. N\u00e3o\u00a0deve chegar a um superavit e pode, eventualmente, at\u00e9 crescer um pouco\u00a0depois deste ano, com o fim da recess\u00e3o e a volta gradativa do crescimento\u00a0nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dado relevante na virada nas contas externas tem sido o desempenho da\u00a0balan\u00e7a comercial. O deficit de US$ 3,9 bilh\u00f5es em 2014 &#8211; ano em que tudo\u00a0foi p\u00e9ssimo para a economia e fantasioso na pol\u00edtica, para enganar o eleitor\u00a0e dar a reelei\u00e7\u00e3o a Dilma e ao PT \u2013 se converteu no superavit de US$ 19,7\u00a0bilh\u00f5es no ano passado e deve chegar a US$ 40 bilh\u00f5es este ano. \u00c9 preciso\u00a0qualificar essa revers\u00e3o expressiva.\u00a0Ela aconteceu mais pelo colapso das importa\u00e7\u00f5es, que se encontram hoje 38%\u00a0abaixo do pico registrado em 2013 (US$ 239,6 bilh\u00f5es) que pelo vigor das\u00a0exporta\u00e7\u00f5es. Elas ainda s\u00e3o, em 12 meses, 25% menores que no \u00faltimo pico (US$\u00a0256 bilh\u00f5es em 2011) e 14% abaixo de 2014.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O super\u00e1vit comercial, portanto, \u00e9 sequela da recess\u00e3o que abate a economia\u00a0desde meados de 2014, implicando preju\u00edzos, desemprego e a renda real ro\u00edda\u00a0pela infla\u00e7\u00e3o. A importa\u00e7\u00e3o desabou por isso. Mas n\u00e3o cederia se, na\u00a0aus\u00eancia de alinhamento entre as a\u00e7\u00f5es fiscais e monet\u00e1rias, o desemprego\u00a0n\u00e3o servisse de instrumento para ajustar o balan\u00e7o de pagamentos externo\u00a0mediante o corte de demanda. \u00c9 nesse sentido que o desemprego foi obra\u00a0autoral do governo Dilma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O lado maligno do ajuste derivado de dois anos de omiss\u00e3o de Dilma para\u00a0ocultar do eleitor os seus erros e n\u00e3o afetar a reelei\u00e7\u00e3o est\u00e1 na taxa de\u00a0desemprego de 11,3% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa no trimestre m\u00f3vel\u00a0encerrado em junho. S\u00e3o 11,6 milh\u00f5es de pessoas sem emprego \u2013 3 pontos\u00a0percentuais acima do n\u00edvel em igual m\u00eas de 2015. O governo interino de\u00a0Michel Temer nada tem a ver com esta chaga.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A origem dos privil\u00e9gios<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 a gravidade do processo recessivo vem de mais longe, com ra\u00edzes na<br \/>\nConstitui\u00e7\u00e3o de 1988, mas n\u00e3o bem pelas transfer\u00eancias de renda (o cerne das\u00a0pol\u00edticas sociais que cresceram nos governos petistas) e, sim, pelo maior\u00a0iniquidade desde o Imp\u00e9rio \u2013 os benef\u00edcios dados aos servidores do setor\u00a0p\u00fablico, e s\u00f3 a eles, como estabilidade no emprego, aposentadoria integral e\u00a0aumento real de sal\u00e1rio, mesmo em \u00e9poca de recess\u00e3o e desemprego como a\u00a0atual. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Porque em 1987 o sal\u00e1rio m\u00e9dio do funcionalismo era baixo, havia o conceito\u00a0de que algumas carreiras (tipo delegado, auditor e ju\u00edzes) deveriam estar\u00a0livres de press\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas e, enfim, alguns \u201cs\u00e1bios\u201d da\u00a0burocracia acad\u00eamica e de of\u00edcio pensaram ser um excelente neg\u00f3cio para o\u00a0Tesouro Nacional (sempre na pior) trocar o FGTS do regime da CLT pela\u00a0aposentadoria estatut\u00e1ria, que s\u00f3 viria a ser um \u00f4nus para as contas\u00a0fiscais, supunham, d\u00e9cadas adiante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Quem paga. E quem recebe<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Constituinte chamada ent\u00e3o de \u201ccidad\u00e3\u201d pelos constituintes criou um\u00a0sistema quase feudal em que tudo pode aos senhores do Estado, e aos demais,\u00a0\u00e0 ral\u00e9, cabe prov\u00ea-los com impostos, com a renda comida pela infla\u00e7\u00e3o, que \u00e9\u00a0uma forma de tributo, e engolir as sequelas de tal situa\u00e7\u00e3o. A que levouNisso? O mapa do emprego medido pelo IBGE traz a resposta. Ela aparece n\u00edtida\u00a0nos dados do rendimento m\u00e9dio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto a m\u00e9dia salarial dos 34,4 milh\u00f5es de empregados do setor privado\u00a0com carteira foi, de abril a junho, de R$ 1.887, os 11,3 milh\u00f5es de\u00a0servidores p\u00fablicos receberam, em m\u00e9dia, R$ 3.137 \u2013 66% mais. Excluindo doNtotal os funcion\u00e1rios estaduais e municipais, a diferen\u00e7a se amplia, j\u00e1 que\u00a0m\u00e9dia salarial do pessoal ativo do Executivo, do Judici\u00e1rio e do Congresso\u00a0chegou a R$ 7.941 em 2015. \u00c9 esse pessoal que est\u00e1 tendo aumentos anuais\u00a0garantidos at\u00e9 2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lobbies da agonia fiscal<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A iniquidade se repete na previd\u00eancia. Na p\u00fablica, um milh\u00e3o de inativos\u00a0recebe em m\u00e9dia 30 vezes mais que o benef\u00edcio m\u00e9dio dos 24 milh\u00f5es do regime\u00a0geral. Isso explica o grosso do d\u00e9ficit fiscal.\u00a0Embora tais problemas tenham raiz estrutural antiga, agravaram-se com Dilma,\u00a0que n\u00e3o os percebeu, al\u00e9m de desfalcar a receita com as desonera\u00e7\u00f5es fiscais\u00a0a setores empresariais e desestruturar \u00e1reas inteiras, como a el\u00e9trica e de\u00a0petr\u00f3leo, com rupturas regulat\u00f3rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o pano de fundo de seu prov\u00e1vel impeachment, mas tamb\u00e9m das\u00a0dificuldades de Temer, j\u00e1 que os interesses que fomentam a agonia fiscal\u00a0manipulam o jogo parlamentar. Est\u00e1 ru\u00e7o, mas pode clarear.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A Lava-Jato como aliada<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Numa grande s\u00edntese dos problemas da economia, tem-se um cen\u00e1rio em que\u00a0desponta, na g\u00eanese, uma maioria parlamentar despreparada em rela\u00e7\u00e3o ao\u00a0Executivo, uma burocracia cada vez mais aut\u00f4noma, guiada pelo autointeresse,\u00a0at\u00e9 chegar, nos \u00faltimos anos, \u00e0 vulgariza\u00e7\u00e3o da arte de governar por meio do\u00a0arrendamento de aliados no Congresso &#8211; a base da corrup\u00e7\u00e3o em alta escala\u00a0descoberta pela Lava Jato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem Dilma, tudo muda na forma e nada no conte\u00fado, se Temer e seus aliados conseguirem, com a ajuda da Lava-Jato, dar um rumo ao Congresso,\u00a0levando-o a aprovar projetos reformistas, em especial a PEC do Teto, que\u00a0quer atar \u00e0 infla\u00e7\u00e3o o laxismo fiscal (que ainda cresce neste semestre a\u00a012,5 pontos percentuais acima da receita).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 um baita desafio, at\u00e9 porque n\u00e3o se refaz a receita tribut\u00e1ria com<br \/>\nexporta\u00e7\u00e3o, mas com o mercado interno. O al\u00edvio externo traz \u00e9 conforto ao\u00a0Banco Central para afrouxar a Selic, in\u00edcio da volta da normalidade na\u00a0economia. Temer tem a physique du r\u00f4le para fazer a cabe\u00e7a do Congresso. Mas\u00a0tamb\u00e9m tem de convencer a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Brasilia, 07h50min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR ANT\u00d4NIO MACHADO &nbsp; Se, assim como diz o ditado, a caravana passa e os c\u00e3es ladram, na economia\u00a0continua passando solto o desemprego. Ele \u00e9 o resultado do ajuste para\u00a0livrar o pa\u00eds de uma crise certa das contas externas se n\u00e3o houvesse o\u00a0cavalo de pau da pol\u00edtica econ\u00f4mica ap\u00f3s a reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff. 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