{"id":2179,"date":"2016-07-24T19:30:38","date_gmt":"2016-07-24T22:30:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=2179"},"modified":"2016-07-24T19:53:59","modified_gmt":"2016-07-24T22:53:59","slug":"desastrada-politica-de-aproximacao-comercial-com-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/desastrada-politica-de-aproximacao-comercial-com-africa\/","title":{"rendered":"A desastrada pol\u00edtica de aproxima\u00e7\u00e3o comercial com a \u00c1frica"},"content":{"rendered":"<p>POR ROSANA HESSEL<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma das primeiras medidas de pol\u00edtica externa do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva foi ampliar a presen\u00e7a do Brasil na \u00c1frica. O discurso era privilegiar as rela\u00e7\u00f5es Sul-Sul para melhorar a pauta de exporta\u00e7\u00e3o, uma vez que o pa\u00eds tinha no continente africano um amplo mercado potencial para os manufaturados nacionais. O resultado, no entanto, n\u00e3o veio, j\u00e1 que n\u00e3o houve melhora expressiva nas exporta\u00e7\u00f5es de produtos com maior valor agregado. E o pa\u00eds ainda colheu um efeito colateral indesej\u00e1vel: na esteira de opera\u00e7\u00f5es que envolveram grandes empreiteiras nacionais em obras no continente africano, sobram den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde 2004, foram abertas 20 embaixadas em pa\u00edses da \u00c1frica, de acordo com dados do Itamaraty. Em seus dois mandatos, Lula fez 33 viagens ao continente. O n\u00famero caiu no per\u00edodo da presidente afastada, Dilma Rousseff. Nesses 12 anos, entretanto, a participa\u00e7\u00e3o dos africanos nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras encolheu de 4,39% para 3,99%. Al\u00e9m disso, a balan\u00e7a comercial sempre foi desfavor\u00e1vel para o Brasil, que acabou importando mais do que exportando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi s\u00f3 isso. Representantes de empreiteiras investigadas pela Pol\u00edcia Federal na Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato contaram que pagaram propinas elevadas para conseguir contratos. \u201cA percep\u00e7\u00e3o do mercado \u00e9 de que foi criado um canal de corrup\u00e7\u00e3o do Brasil utilizando os governos totalit\u00e1rios africanos. Estreitar rela\u00e7\u00f5es com a \u00c1frica \u00e9 importante, significa diversificar parcerias, mas os ganhos s\u00e3o insignificantes no contexto internacional\u201d, comenta o professor de Finan\u00e7as do Insper Otto Nogami. \u201cEm uma rela\u00e7\u00e3o bilateral, \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o se o parceiro tem uma renda que sustente o com\u00e9rcio. Precisamos lembrar que houve perd\u00e3o de d\u00edvidas de alguns pa\u00edses, na expectativa de contrapartidas que n\u00e3o ocorreram. Esse tipo de rela\u00e7\u00e3o comercial \u00e9 extremamente equivocado\u201d, critica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nogami destaca ainda que, com o desenvolvimento da Lava-Jato, h\u00e1 pouco o que comemorar dessa empreitada. \u201cO que se v\u00ea \u00e9 que, nos governos petistas, muitos conseguiram utilizar o continente para investimentos de empresas brasileiras e usufruir das benesses de superfaturamento de opera\u00e7\u00f5es escusas sem, infelizmente, contribuir para o crescimento e o desenvolvimento da ind\u00fastria nacional. O discurso era um e a a\u00e7\u00e3o foi totalmente diferente\u201d, emenda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O consultor Welber Barral, ex-secret\u00e1rio de Com\u00e9rcio Exterior do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento durante o governo Lula, diz que n\u00e3o se pode resumir tudo a corrup\u00e7\u00e3o, e aponta um problema estrutural. \u201cEstive bastante envolvido no esfor\u00e7o de aproxima\u00e7\u00e3o com pa\u00edses africanos. O Brasil, por n\u00e3o ter a pecha de colonialista, ocupou espa\u00e7os que antes eram de ingleses e franceses. Mas o pa\u00eds n\u00e3o tem a m\u00ednima condi\u00e7\u00e3o de competir com os chineses no financiamento de exporta\u00e7\u00f5es\u201d, desabafa. \u201cA participa\u00e7\u00e3o da \u00c1frica nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras teve um momento de avan\u00e7o. Mas o crescimento encontrou uma barreira, que \u00e9 a log\u00edstica. O fluxo mar\u00edtimo e a\u00e9reo entre Brasil e na\u00e7\u00f5es daquele continente caiu nos \u00faltimos anos, e isso vem comprometendo o com\u00e9rcio\u201d, explica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Transporte<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O economista Altair Maia, autor do livro Log\u00edstica internacional \u2014 o desafio do Atl\u00e2ntico Sul, conhece bem o problema e lembra que uma carga fracionada que saia de navio do Brasil com destino \u00e0 \u00c1frica precisa, primeiro, passar pela Europa, o que encarece o frete e aumenta o tempo de viagem. \u201cO frete de um cont\u00eainer do Brasil para a \u00c1frica custa US$ 4 mil. \u00c9 o dobro do que se paga pelo percurso entre a China e aquele continente, que \u00e9 duas vezes mais longo. Por isso, fica dif\u00edcil para os produtos brasileiros competirem com os chineses\u201d, destaca Maia. \u201cSe tiv\u00e9ssemos um navio por semana atracando em um porto africano, ou mesmo a cada duas semanas, conseguir\u00edamos dobrar as exporta\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o de um ano, com certeza\u201d, aposta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para especialistas, a estrat\u00e9gia dos governos petistas foi equivocada, principalmente, por simplesmente refletir posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. O projeto de amplia\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de manufaturados nem sequer decolou. \u201cQuando houve melhora dos embarques, o destaque continuou com as commodities, que dependem mais do bom funcionamento do mercado externo. J\u00e1 os produtos manufaturados ficaram a ver navios porque o governo n\u00e3o fez reformas estruturais e o pa\u00eds perdeu competitividade\u201d, lamenta Maia. Segundo ele, h\u00e1 um grande n\u00famero de empresas de m\u00e9dio e de pequeno portes esperando que alguma coisa seja feita em rela\u00e7\u00e3o ao transporte para a \u00c1frica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Com\u00e9rcio Exterior do Brasil (AEB), Jos\u00e9 Augusto de Castro, ao priorizar as rela\u00e7\u00f5es Sul-Sul, o governo se concentrou em mercados muito pequenos, que representam cerca de 3% das importa\u00e7\u00f5es mundiais. Ele lembra que o Brasil responde por apenas 1,2% das exporta\u00e7\u00f5es globais e a participa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds s\u00f3 n\u00e3o caiu mais porque o com\u00e9rcio mundial tamb\u00e9m encolheu. Castro critica a falta de estrat\u00e9gia do governo para melhorar a penetra\u00e7\u00e3o dos produtos nacionais no mercado internacional, o que tamb\u00e9m acabou se refletindo na rela\u00e7\u00e3o com a \u00c1frica. \u201cN\u00e3o fizemos o nosso dever de casa para ganhar competitividade e o passeio que a carga faz at\u00e9 a Europa para depois chegar ao continente africano encarece ainda mais o custo dos produtos nacionais. Com isso, quem ganha espa\u00e7o s\u00e3o os asi\u00e1ticos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Calote<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Jos\u00e9 Serra, sinalizou que pretende fechar algumas embaixadas em pa\u00edses africanos. Para muitos analistas, \u00e9 uma medida coerente, j\u00e1 que n\u00e3o haveria sentido em manter estruturas caras em pa\u00edses que n\u00e3o d\u00e3o retorno comercial para o Brasil. A economista Alessandra Ribeiro, s\u00f3cia da Tend\u00eancias Consultoria, defende uma estrat\u00e9gia de pol\u00edtica externa mais elaborada. \u201cO pa\u00eds deve parar de focar na rela\u00e7\u00e3o Sul-Sul porque o que vai ganhar import\u00e2ncia na balan\u00e7a comercial \u00e9 a Sul-Norte. \u00c9 preciso concentrar energia nos grandes mercados. N\u00e3o faz sentido o Brasil estar ausente de grandes acordos, como a Alian\u00e7a do Pac\u00edfico, por exemplo\u201d, pontua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro problema nas rela\u00e7\u00f5es comerciais com pa\u00edses da \u00c1frica \u00e9 a inseguran\u00e7a financeira. O diretor de Desenvolvimento Industrial da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI), Carlos Abijaodi, diz que vender para pa\u00edses africanos \u00e9 complicado porque o risco de calote \u00e9 grande. \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para o exportador conseguir adiantamento de cr\u00e9dito em bancos\u201d, afirma. A inadimpl\u00eancia elevada custou caro ao Brasil. Desde 2013, o governo brasileiro perdoou, em m\u00e9dia, 80% do valor das d\u00edvidas de na\u00e7\u00f5es do continente africano, de acordo com o Minist\u00e9rio da Fazenda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em nota, o Itamaraty considerou que a estrat\u00e9gia foi a mais correta. \u201cNo Brasil e em numerosos outros pa\u00edses, a renegocia\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas busca primordialmente recuperar cr\u00e9ditos que, de outra forma, n\u00e3o seriam recebidos. No caso brasileiro, os resultados foram positivos, pois v\u00e1rios credores quitaram o remanescente de seus d\u00e9bitos nos \u00faltimos anos\u201d informou a pasta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ganho diplom\u00e1tico<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Itamaraty destaca que as principais conquistas da aproxima\u00e7\u00e3o com pa\u00edses da \u00c1frica foi o aumento da representatividade do Brasil em organismos internacionais, pois os votos dos africanos foram cruciais para que o pa\u00eds elegesse dois brasileiros em organismos internacionais: Roberto de Azevedo, diretor-geral da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Com\u00e9rcio (OMC), e Jos\u00e9 Graziano da Silva, diretor-geral Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 19h30min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR ROSANA HESSEL &nbsp; Uma das primeiras medidas de pol\u00edtica externa do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva foi ampliar a presen\u00e7a do Brasil na \u00c1frica. 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