{"id":21200,"date":"2021-09-24T19:15:01","date_gmt":"2021-09-24T22:15:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=21200"},"modified":"2021-09-24T19:15:12","modified_gmt":"2021-09-24T22:15:12","slug":"o-jornalismo-esta-de-luto-morre-jose-antonio-severo-reporter-ate-o-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/o-jornalismo-esta-de-luto-morre-jose-antonio-severo-reporter-ate-o-fim\/","title":{"rendered":"O jornalismo est\u00e1 de luto: morre Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Severo, rep\u00f3rter at\u00e9 o fim"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELMAR BONES, da Editora J\u00e1<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Morreu nesta sexta-feira, 24 de setembro, o jornalista e escritor Jos\u00e9 Antonio Severo, aos 79 anos. Em mais de meio s\u00e9culo como rep\u00f3rter, editor, diretor, ele passou pelos principais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Desde o <em>Jornal do Dia<\/em>, de Porto Alegre, onde come\u00e7ou, seguindo por <em>Veja<\/em>, <em>Realidade<\/em>, <em>Exame<\/em>, Reuters, <em>Estad\u00e3o<\/em>, <em>Gazeta Mercantil<\/em>, TV Bandeirantes e Rede Globo<em>. <\/em>Sempre deixou a marca de um talento exuberante e generoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hospitalizado havia duas semanas, continuou conversando, escrevendo e respondendo a mensagens at\u00e9 o \u00faltimo momento, quando foi levado para o centro cir\u00fargico, segundo conta sua mulher, a cantora C\u00e9lia Mazzei. \u00c0 tarde, antes de morrer, conversou com o sobrinho Alberto sobre a situa\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o e da economia brasileira. Pouco depois, falou com o editor Edgar Lisboa, sobre um artigo que havia escrito para ser publicado no fim de semana. Sugeriu algumas altera\u00e7\u00f5es e encerrou o telefonema: \u201cVou ter que desligar, vou entrar para uma cirurgia agora\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Era diab\u00e9tico e contraiu covid no in\u00edcio do ano. Embora tenha se recuperado rapidamente, desde ent\u00e3o, sua sa\u00fade ficou inst\u00e1vel, com perda crescente de imunidade, obrigado a sucessivas interna\u00e7\u00f5es e at\u00e9 uma cirurgia para extrair a ves\u00edcula. Ele\u00a0voltara ao hospital para tratar de uma hemorragia no pulm\u00e3o e foi isso que o levou \u00e0 cirurgia no fim da tarde de sexta-feira, \u00e0 qual n\u00e3o resistiu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um profissional inquieto<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ga\u00facho, de Ca\u00e7apava do Sul, Severo cresceu no campo e sempre lembrava da inf\u00e2ncia em meio \u00e0s lides campeiras na est\u00e2ncia da fam\u00edlia. Estava disposto a seguir essa vida aos 16 anos, quando mudou-se para Porto Alegre e matriculou-se na Escola T\u00e9cnica de Agricultura de Viam\u00e3o, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Formado, obteve o primeiro emprego na Secretaria Estadual da Agricultura, e a\u00ed descobriu sua voca\u00e7\u00e3o. Tinha facilidade para escrever e foi designado para o Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola, onde passou a produzir um \u201cInformativo Rural e Econ\u00f4mico\u201d. Inquieto, teve a ideia de viajar pelo estado, produzindo mat\u00e9rias para o informativo e suas reportagens chamaram aten\u00e7\u00e3o. Foi convidado, em 1964, para ser editor do suplemento rural do <em>Jornal do Dia<\/em>, jornal cat\u00f3lico editado em Porto Alegre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma reportagem sobre o pre\u00e7o da carne rendeu-lhe outro convite, do jornal <em>O Estado de S.Paulo<\/em>, para um est\u00e1gio na capital paulista. Antes do fim do est\u00e1gio, estava contratado, emplacando mat\u00e9rias de capa, que o levaram \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de rep\u00f3rter especial. Em 1968, quando a Editora Abril montou a equipe para lan\u00e7ar a revista <em>Veja<\/em> ele se inscreveu e foi selecionado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas foi na revista <em>Realidade<\/em>, pouco depois, que se tornou conhecido por suas reportagens sobre esportes radicais, vivenciadas e narradas na primeira pessoa. Era reconhecido na rua e ficava constrangido: &#8220;Eu devia estar fazendo mat\u00e9rias de den\u00fancia \u00e0 ditadura e, em vez disso, estava me divertindo fazendo coberturas de esportes&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um revolucion\u00e1rio no jornalismo da tev\u00ea<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa inquieta\u00e7\u00e3o levou-o de volta a Porto Alegre, onde assumiu a dire\u00e7\u00e3o da <em>Folha da Manh\u00e3<\/em>, mas a experi\u00eancia n\u00e3o durou dois anos e retornou \u00e0 imprensa paulista. Nessa \u00e9poca surgiram os primeiros textos mais longos. Pretendia que se tornassem roteiros de s\u00e9ries para a TV.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Guerra dos Cachorros<\/em>, editado pela LPM, transpunha para S\u00e3o Paulo o fen\u00f4meno das matilhas de c\u00e3es selvagens que assolavam os campos nos tempos do Rio Grande primitivo. No cen\u00e1rio urbano, os c\u00e3es simbolizavam uma revolta dos animais pelo tratamento que recebem dos humanos. Ele considerava um projeto frustrado. <em>A Invas\u00e3o<\/em>, de 1978, tamb\u00e9m publicada pela LPM, \u00e9 uma \u201creportagem-fic\u00e7\u00e3o\u201d sobre uma mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um outro desafio, por\u00e9m, se apresentou e, em 1979, foi trabalhar na Rede Globo. Primeiro como rep\u00f3rter do Jornal Nacional e, pouco depois, como editor-chefe do Jornal da Globo, do qual foi um dos criadores.<br \/>\nAinda era uma \u00e9poca em que os profissionais do jornalismo impresso resistiam ao telejornalismo. Ali nasceu o formato existente hoje, com bancadas compostas por jornalistas \u2014 at\u00e9 ent\u00e3o, eram locutores que liam as not\u00edcias no ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo em outras fun\u00e7\u00f5es, sempre se considerou &#8220;um rep\u00f3rter 24 horas por dia&#8221;, rigoroso em rela\u00e7\u00e3o aos fatos. &#8220;N\u00e3o tenho apego ao texto, sempre dei total liberdade aos editores para que mexessem. S\u00f3 me fixo na precis\u00e3o dos dados&#8221;, dizia. Sempre jovial e entusiasmado, gostava de conversar com os mais jovens e dava conselhos: \u201cN\u00e3o se levem muito a s\u00e9rio. Levem a s\u00e9rio a not\u00edcia\u201d ou \u201cO leitor n\u00e3o \u00e9 abstrato. Tem que escrever para o leitor\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Paix\u00e3o pelo cinema<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A experi\u00eancia na TV, tamb\u00e9m reavivou uma paix\u00e3o da inf\u00e2ncia, o cinema. &#8220;Quando v\u00ednhamos para Porto Alegre, eu e meus irm\u00e3os emend\u00e1vamos uma sess\u00e3o na outra&#8221;, lembrava. Do encontro com o escritor e cineasta Tabajara Ruas nasceu o produtor e roteirista. Escreveu <em>Os senhores da guerra<\/em>, romance hist\u00f3rico, pensando na vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica. No drama de dois irm\u00e3os em conflito, resume o per\u00edodo sangrento no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, em que o Rio Grande do Sul se dividiu entre \u201cChimangos\u201d e \u201cMaragatos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pesquisa para essa obra levou-o a uma incurs\u00e3o pelas guerras pela conquista do extremo sul da Am\u00e9rica, Percorreu a regi\u00e3o por um ano e, por um ano e meio, isolou-se com uma pequena biblioteca numa casa na praia do Santinho em Florian\u00f3polis, onde produziu <em>General Os\u00f3rio e seu Tempo<\/em>, obra de quase mil p\u00e1ginas, painel impressionista da forma\u00e7\u00e3o do extremo sul da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dois anos, trabalhou na pesquisa para o roteiro da s\u00e9rie <em>200 Anos da Independ\u00eancia<\/em>, produzido pela TV Cultura de S\u00e3o Paulo, para exibi\u00e7\u00e3o em 2022. Da pesquisa resultou um livro com o mesmo t\u00edtulo que ser\u00e1 editado na data.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELMAR BONES, da Editora J\u00e1 &nbsp; Morreu nesta sexta-feira, 24 de setembro, o jornalista e escritor Jos\u00e9 Antonio Severo, aos 79 anos. Em mais de meio s\u00e9culo como rep\u00f3rter, editor, diretor, ele passou pelos principais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. 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