{"id":1913,"date":"2016-07-12T05:02:12","date_gmt":"2016-07-12T08:02:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1913"},"modified":"2016-07-12T08:41:14","modified_gmt":"2016-07-12T11:41:14","slug":"coluna-no-correio-de-maos-dadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-de-maos-dadas\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: De m\u00e3os dadas"},"content":{"rendered":"<p>Por mais que o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, insista em dizer que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para cortes de juros neste ano, os investidores mant\u00eam firme a aposta de redu\u00e7\u00e3o da taxa b\u00e1sica (Selic), que est\u00e1 em 14,25%, a partir de outubro. Os donos do dinheiro est\u00e3o certos de que, aprovado o impeachment definitivo de Dilma Rousseff, o governo de Michel Temer baixar\u00e1 uma s\u00e9rie de medidas para refor\u00e7ar o ajuste fiscal, o que permitir\u00e1 ao BC afrouxar a pol\u00edtica monet\u00e1ria mesmo com a infla\u00e7\u00e3o ainda distante do centro da meta, de 4,5%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O discurso duro de Ilan faz parte da nova roupagem do BC, que tenta reconstruir a credibilidade perdida. Ele acredita que as a\u00e7\u00f5es do banco devem estar perfeitamente casadas com as palavras emitidas pelo comando da institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 essa sintonia que guiar\u00e1 as expectativas do mercado. Para Ilan, at\u00e9 agora, tudo est\u00e1 funcionando como o previsto. Tanto que as proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o v\u00eam caindo h\u00e1 duas semanas. As estimativas deste ano baixaram para 7,26%. As de 2017 cederam para 5,40% e as de 2008, para 4,71%. J\u00e1 as previs\u00f5es para 2019 e 2020 ancoraram nos 4,5%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O presidente do BC sabe que esse \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o de um trabalho \u00e1rduo. E n\u00e3o bastar\u00e1 apenas o esfor\u00e7o da institui\u00e7\u00e3o para que a infla\u00e7\u00e3o permita a t\u00e3o esperada queda dos juros. Na verdade, o banco tem papel de coadjuvante no processo. As cartas est\u00e3o com o Minist\u00e9rio da Fazenda, ao qual cabe apresentar as medidas para o ajuste fiscal, e com o Congresso, que precisa avalizar o que foi proposto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os t\u00e9cnicos do BC n\u00e3o gostam muito dessa posi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria. Preferem dizer que a autoridade monet\u00e1ria est\u00e1 de m\u00e3os dadas com a equipe de Henrique Meirelles e com o Legislativo num processo maior, que \u00e9 o da reconstru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds que luta para sair de uma grav\u00edssima recess\u00e3o. Vaidades \u00e0 parte, todos no Banco Central reconhecem que, se o governo n\u00e3o se empenhar para aprovar, ainda neste ano, a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que limita o aumento de gastos e n\u00e3o levar adiante projetos importantes como o reforma da Previd\u00eancia Social, o rompimento com o mercado ser\u00e1 traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>P\u00f3s-impeachment<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto aguarda pelo ajuste fiscal e vai colhendo os frutos de um compromisso claro de levar a infla\u00e7\u00e3o para o centro da meta at\u00e9 o fim de 2017, Ilan tenta resolver um problema mais urgente: encontrar um ponto de equil\u00edbrio para o d\u00f3lar, de forma que n\u00e3o pressione a infla\u00e7\u00e3o nem tire a competitividade das exporta\u00e7\u00f5es, o que poria em risco o \u00fanico ajuste que o Brasil fez, o das contas externas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o, fechada com o diretor de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria, Reinaldo le Grazie, \u00e9 de agir de forma gradual, sem sobressaltos, para evitar volatilidade desnecess\u00e1ria no mercado, pois, nos \u00faltimos tempos, o que n\u00e3o faltou foi ru\u00eddo no c\u00e2mbio. Com interven\u00e7\u00f5es pontuais, de US$ 500 milh\u00f5es ao dia, por meio de contratos de swap reverso, esp\u00e9cie de compra futura de d\u00f3lar, Ilan explicita que o BC est\u00e1 atento a qualquer movimento at\u00edpico do mercado e, discretamente, come\u00e7a a desmontar a montanha de US$ 60 bilh\u00f5es em contratos tradicionais de swap (venda da moeda).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ilan tem ouvido de v\u00e1rios interlocutores do sistema financeiro que a infla\u00e7\u00e3o vai cair. Mas a velocidade depender\u00e1 da for\u00e7a com que Temer emergir\u00e1 depois de aprovado o impeachment de Dilma e do discurso que ele adotar\u00e1. O presidente interino j\u00e1 avisou que est\u00e1 preparando um pacote de maldades para lan\u00e7ar assim que for anunciada a decis\u00e3o do Senado. E a aposta \u00e9 de aumento de impostos e de cortes mais radicais nas despesas do governo. O risco \u00e9 de o peemedebista se inebriar pelo poder e acreditar que, sendo mais complacente com os males que afligem o pa\u00eds, ser\u00e1 reeleito em 2018.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Cara nova<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Economista-chefe da Quantitas Asset Management, Ivo Chermont ainda est\u00e1 resistente em ver um quadro mais benigno para a infla\u00e7\u00e3o em 2017. As proje\u00e7\u00f5es dele apontam para um \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) de 5,7%, bem distante dos 4,5% prometidos por Ilan. No entender dele, com essa taxa, \u00e9 imposs\u00edvel pensar em queda dos juros. Mas ele acredita que, se o ajuste fiscal andar, o BC ceder\u00e1 e assumir\u00e1 que o arrocho refor\u00e7ar\u00e1 o peso da pol\u00edtica monet\u00e1ria, ao contr\u00e1rio do que se viu nos \u00faltimos anos, quando a autoridade monet\u00e1ria ficou isolada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Chermont, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que um deficit de R$ 139 bilh\u00f5es em 2017 \u2014 o quarto ano seguido de contas no vermelho \u2014 \u00e9 um terror para o BC. Contudo, dada a realidade do pa\u00eds, a tend\u00eancia \u00e9 de o time chefiado por Ilan olhar mais para as quest\u00f5es estruturais, como as medidas encaminhadas ao Congresso, que, se aprovadas, dar\u00e3o uma cara nova \u00e0s finan\u00e7as do pa\u00eds. \u201cSe tudo caminhar como o desejado e esperado, veremos redu\u00e7\u00e3o de juros ainda neste ano, mesmo com uma infla\u00e7\u00e3o um pouco maior do que o indicado pelo BC\u201d, afirma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele, por\u00e9m, est\u00e1 mais c\u00e9tico que a maioria do mercado. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, a Selic s\u00f3 come\u00e7ar\u00e1 a cair a partir de novembro e descer\u00e1 at\u00e9 11,25% ao longo dos meses seguintes. \u201cEsse \u00e9 o quadro mais compat\u00edvel com a ortodoxia mostrada pelo BC de Ilan\u201d, diz. A pr\u00f3xima reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) est\u00e1 marcada para os dias 19 e 20 deste m\u00eas. Mais do que o resultado, que todos j\u00e1 sabem \u2014 os juros ser\u00e3o mantidos em 14,25% \u2014, o que dar\u00e1 o tom ser\u00e1 o comunicado p\u00f3s-encontro. Ser\u00e1 o primeiro documento preparado inteiramente pelo novo BC. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 05h02min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por mais que o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, insista em dizer que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para cortes de juros neste ano, os investidores mant\u00eam firme a aposta de redu\u00e7\u00e3o da taxa b\u00e1sica (Selic), que est\u00e1 em 14,25%, a partir de outubro. 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