{"id":1897,"date":"2016-07-11T05:30:11","date_gmt":"2016-07-11T08:30:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1897"},"modified":"2016-07-11T11:30:00","modified_gmt":"2016-07-11T14:30:00","slug":"retomada-da-economia-ainda-esta-distante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/retomada-da-economia-ainda-esta-distante\/","title":{"rendered":"Retomada da economia ainda est\u00e1 distante"},"content":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para vencer os 170 km entre o Rio de Janeiro e sua casa de praia em B\u00fazios, o economista Jos\u00e9 M\u00e1rcio Camargo costumava levar, nas noites de sexta-feira, pouco mais de duas horas em 2009, quando o Brasil estava mergulhado em uma recess\u00e3o. No ano seguinte, com a forte recupera\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o trajeto ganhou mais meia hora. Mais um ano, e j\u00e1 estava em quatro, quase o dobro do tempo inicial. Mas a partir de 2014 o tempo come\u00e7ou a se reduzir. J\u00e1 est\u00e1 em 2h30 novamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O prosaico indicador do caminho para B\u00fazios \u00e9 t\u00e3o eloquente quanto outros, resultantes dos modelos sofisticados com que Camargo lida como economista-chefe da Opus Investimentos e professor da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio): o Brasil vai se aproximando do fundo do po\u00e7o. Uma hora, voltar\u00e1 a crescer. \u201cO pa\u00eds n\u00e3o acaba\u201d, explica. O problema \u00e9 saber quando ser\u00e1 a retomada. \u201cPodemos ficar anos nesta situa\u00e7\u00e3o\u201d, avisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A opini\u00e3o \u00e9 compartilhada por muitos analistas na academia e no mercado. Eles veem poucas chances de a recupera\u00e7\u00e3o aparecer logo que a economia encoste na base, como em um gr\u00e1fico em V, com uma forte guinada para cima. A tend\u00eancia est\u00e1 mais para um U, com maior per\u00edodo pr\u00f3ximo do piso. Os mais pessimistas veem at\u00e9 mesmo um desenho em L, com duradoura estagna\u00e7\u00e3o. A lista de fatores negativos incluem a dificuldade do governo de equilibrar as contas p\u00fablicas, sobretudo por press\u00f5es pol\u00edticas; a resist\u00eancia da infla\u00e7\u00e3o decorrente, em parte, da situa\u00e7\u00e3o fiscal e de fatores clim\u00e1ticos; e a eleva\u00e7\u00e3o da incerteza global com a decis\u00e3o dos eleitores do Reino Unido de retirar o pa\u00eds da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um dos principais argumentos que apontam para a retomada em breve \u00e9 a exist\u00eancia de capacidade instalada ociosa nas empresas, algo visto com reservas por Camargo. \u201cMuitos investimentos realizados nos \u00faltimos anos foram in\u00fateis, n\u00e3o v\u00e3o servir para nada\u201d, diz ele citando, entre outras, obras car\u00edssimas da Petrobras, como a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o Complexo Petroqu\u00edmico do Rio de Janeiro (Comperj). Al\u00e9m do desperd\u00edcio com propina, grande parte do que foi transformado em concreto e equipamentos corre o risco de ir para o ralo, pois n\u00e3o atende a necessidades reais de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Endividamento<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro problema que Camargo identifica \u00e9 que, diferentemente dos per\u00edodos anteriores de recess\u00e3o, desta vez, os consumidores est\u00e3o muito endividados. Diante da perspectiva de perder o emprego, relutam muito em tomar novos empr\u00e9stimos para consumir. Da popula\u00e7\u00e3o ativa, 11,2% est\u00e3o na rua. O n\u00famero deve atingir 13% at\u00e9 o fim do ano e ent\u00e3o se estabilizar. \u201cDiminuir s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel um ano mais tarde, se a infla\u00e7\u00e3o realmente for controlada\u201d, avisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O economista Ma\u00edlson da N\u00f3brega, ex-ministro da Fazenda, compartilha da preocupa\u00e7\u00e3o de Camargo quanto \u00e0 velocidade de recupera\u00e7\u00e3o da economia brasileira. N\u00e3o tanto, por\u00e9m, pelo endividamento das fam\u00edlias. Ele ressalta que, embora a propor\u00e7\u00e3o seja alta para padr\u00f5es hist\u00f3ricos, com comprometimento pr\u00f3ximo de metade da renda das fam\u00edlia nos \u00faltimos 12 meses, \u00e9 pouco para padr\u00f5es internacionais. \u201cEm pa\u00edses desenvolvidos e na China, \u00e9 bem mais\u201d, nota. O endividamento de longo prazo, principalmente com a casa pr\u00f3pria, \u00e9 respons\u00e1vel por metade dos compromissos dos brasileiros. Assim, a parte comprometida realmente com as compras \u00e9 reduzida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O aumento da confian\u00e7a entre consumidores e empres\u00e1rios \u00e9 um sinal extremamente positivo, na avalia\u00e7\u00e3o de N\u00f3brega. Mas ele ressalva que os entraves da economia brasileira s\u00e3o significativos, portanto n\u00e3o v\u00ea recupera\u00e7\u00e3o da plena capacidade de crescimento do pa\u00eds em menos de cinco anos. \u201cEst\u00e1 mais para um gr\u00e1fico em U mesmo\u201d, avisa. Ele chama a aten\u00e7\u00e3o para os elevados custos de transa\u00e7\u00e3o, que atrapalham os neg\u00f3cios, e s\u00f3 poderiam ser resolvidos com mudan\u00e7as profundas no sistema de impostos e na legisla\u00e7\u00e3o trabalhista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esses fatores, aliados \u00e0 baixa qualifica\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra, fazem com que o trabalhador brasileiro tenha apenas 20% da produtividade de um norte-americano. Melhorar isso exigiria avan\u00e7os na educa\u00e7\u00e3o, algo que vai demorar para surtir efeito. \u201cN\u00e3o basta aumentar a cobertura da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e o n\u00famero de pessoas no ensino superior. \u00c9 preciso melhorar muito a qualidade. No Brasil h\u00e1 muita gente que s\u00f3 est\u00e1 atr\u00e1s do diploma, n\u00e3o de aprender de fato\u201d, critica Ma\u00edlson.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Carlos Thadeu de Freitas Gomes, economista-chefe da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Com\u00e9rcio e ex-diretor do Banco Central (BC), concorda com a vis\u00e3o de Ma\u00edlson sobre o espa\u00e7o para endividamento dos consumidores e o fato de que os indicadores de confian\u00e7a est\u00e3o melhorando. Ele v\u00ea a possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o significativa no pr\u00f3ximo semestre. \u201cNormalmente, \u00e9 um per\u00edodo mais favor\u00e1vel. Muitas pessoas v\u00e3o receber metade do 13\u00ba sal\u00e1rio agora, e estar\u00e3o mais dispostas a consumir\u201d, avisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Juros<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As declara\u00e7\u00f5es do presidente do Banco Central, Ilan Goldjan, de que o objetivo da autoridade monet\u00e1ria \u00e9 chegar \u00e0 infla\u00e7\u00e3o de 4,5% j\u00e1 no pr\u00f3ximo ano divide especialistas. Enquanto Freitas Gomes, da CNC, acredita que teria sido melhor que o BC admitisse um \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) entre 5% e 5,5% \u2014 para abrir espa\u00e7o maior para a queda da taxa b\u00e1sica de juros (Selic) \u2014, Jos\u00e9 M\u00e1rcio Camargo, da Opus, considera acertada a decis\u00e3o de Ilan. A converg\u00eancia r\u00e1pida ao centro da meta de infla\u00e7\u00e3o, diz, \u00e9 importante para que sobre uma parcela maior da renda \u00e0s fam\u00edlias, o que lhes permitir\u00e1 voltar a ampliar o consumo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 05h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO &nbsp; Para vencer os 170 km entre o Rio de Janeiro e sua casa de praia em B\u00fazios, o economista Jos\u00e9 M\u00e1rcio Camargo costumava levar, nas noites de sexta-feira, pouco mais de duas horas em 2009, quando o Brasil estava mergulhado em uma recess\u00e3o. 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