{"id":1817,"date":"2016-07-05T05:30:58","date_gmt":"2016-07-05T08:30:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1817"},"modified":"2016-07-08T09:27:33","modified_gmt":"2016-07-08T12:27:33","slug":"coluna-no-correio-passagem-para-o-desastre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-passagem-para-o-desastre\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Passagem para o desastre"},"content":{"rendered":"<p>O governo j\u00e1 identificou estrago na imagem da equipe econ\u00f4mica. As incoer\u00eancias na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica fiscal levaram muitos investidores e analistas de peso a questionarem se realmente o grupo chefiado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, est\u00e1 disposto a arrumar as contas p\u00fablicas. N\u00e3o foi por acaso, portanto, que o presidente interino, Michel Temer, usou parte de seu discurso, ontem, em uma feira agr\u00edcola para avisar que, depois do impeachment, tudo ser\u00e1 diferente. Para compensar as bondades anunciadas nos \u00faltimos dias, que custar\u00e3o quase R$ 130 bilh\u00f5es ao Tesouro Nacional, o Pal\u00e1cio do Planalto promete aumentar impostos e cortar benef\u00edcios, sobretudo da Previd\u00eancia Social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pouca gente acredita, por\u00e9m, que Temer ter\u00e1 coragem para contrariar interesses arraigados. Desde que ele chegou ao Pal\u00e1cio do Planalto, ap\u00f3s o afastamento de Dilma Rousseff, n\u00e3o conseguiu levar adiante temas pol\u00eamicos. Logo na primeira semana de governo, a equipe econ\u00f4mica preparou uma s\u00e9rie de medidas visando um ajuste fiscal mais r\u00e1pido e consistente, mas a maior parte do pacote foi para o lixo, sob a justificativa de que o momento pol\u00edtico n\u00e3o comportava tanta maldade. A partir da\u00ed, o que se viu foi uma s\u00e9rie de aumentos de despesas contrariando todo o discurso de arrocho propagado por Meirelles e comprado, com vontade, pelos investidores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Pal\u00e1cio do Planalto patrocinou o aumento de sal\u00e1rios dos servidores, fatura que chegar\u00e1 a R$ 67 bilh\u00f5es at\u00e9 2018. Abriu m\u00e3o de R$ 50 bilh\u00f5es referentes a d\u00edvidas de estados. Reajustou o Bolsa Fam\u00edlia (o menor dos gastos e o \u00fanico aumento justific\u00e1vel), liberou emendas de parlamentares e ampliou o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) \u2014 a lista \u00e9 muito mais extensa. Tudo embalado pelo discurso de que o governo s\u00f3 estava cumprindo o que foi acertado pela administra\u00e7\u00e3o anterior, mas que precisava ser incorporado \u00e0 previs\u00e3o de rombo fiscal, elevada para R$ 170,5 bilh\u00f5es. Ou seja, Temer estava aumentando os gastos, mas a culpa era exclusivamente de Dilma. A ela deveriam ser direcionadas as cr\u00edticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Roupa velha<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A falta de originalidade no discurso do governo Temer n\u00e3o tem limite. Para mostrar que, a partir de 2017, tudo ser\u00e1 diferente, a equipe econ\u00f4mica, apontada por muitos como brilhante, passou a difundir que o rombo nas contas ser\u00e1 menor. No ano que vem, parte do buraco ser\u00e1 coberto por receitas de vendas de ativos, totalizando at\u00e9 R$ 30 bilh\u00f5es. Mas o grupo chefiado por Meirelles sequer se deu ao trabalho de apresentar um pacote novo. Optou pelo caminho mais f\u00e1cil, ao usar, como alvos de privatiza\u00e7\u00e3o, a Caixa Seguridades, o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) e as participa\u00e7\u00f5es que a Infraero tem em aeroportos privados, al\u00e9m de concess\u00f5es de rodovias e terminais a\u00e9reos. \u00c9 o mesmo programa citado por Joaquim Levy e Nelson Barbosa, ex-ministros da Fazenda de Dilma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O governo est\u00e1 t\u00e3o perdido em rela\u00e7\u00e3o ao ajuste fiscal que, a poucos dias de encaminhar ao Congresso a meta fiscal de 2017, n\u00e3o tem a menor no\u00e7\u00e3o do tamanho do rombo, estimado pela equipe de Dilma em R$ 65 bilh\u00f5es. A cada declara\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m da equipe econ\u00f4mica, a previs\u00e3o aumenta. Come\u00e7ou em R$ 100 bilh\u00f5es, passou para cerca de R$ 130 bilh\u00f5es, cogitou-se R$ 150 bilh\u00f5es e at\u00e9 se repetir os R$ 170,5 bilh\u00f5es de 2016. Essa falta de par\u00e2metro s\u00f3 confirma a disposi\u00e7\u00e3o da atual administra\u00e7\u00e3o de acomodar despesas, um sinal de que a licen\u00e7a para gastar continua valendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do Banco Central, a decep\u00e7\u00e3o \u00e9 geral. \u201cNingu\u00e9m esperava esse tipo de comportamento do atual governo, at\u00e9 porque, neste momento, aumento de gastos n\u00e3o faz o menor sentido econ\u00f4mico\u201d, diz. No entender dele, \u00e9 perigosa a complac\u00eancia de parte dos agentes econ\u00f4micos, que aponta como justificativa para a gastan\u00e7a a necessidade de Temer de fortalecer sua base no Senado e aprovar o impeachment definitivo de Dilma. \u201cN\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio fazer coisas erradas para obter for\u00e7a pol\u00edtica\u201d, afirma. \u201cTenho tantas d\u00favidas diante do que estou vendo que n\u00e3o me surpreenderei se o rombo nas contas deste ano for maior do que os R$ 170,5 bilh\u00f5es anunciados por Meirelles\u201d, emenda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Sobreviv\u00eancia<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Menos cr\u00edtico, o professor Renato Fragelli, da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), assinala que as a\u00e7\u00f5es de Temer nos \u00faltimos dois meses tiveram como objetivo a sobreviv\u00eancia pol\u00edtica. Para ele, n\u00e3o havia como o peemedebista comprar briga com servidores, barrando um reajuste que havia sido sacramentado no governo anterior, nem fechar as portas para a renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas de estados, muitos deles quebrados por causa dos incentivos dados por Dilma a alguns setores por meio da redu\u00e7\u00e3o do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Fragelli, as medidas t\u00e3o criticadas foram tomadas por um governo provis\u00f3rio. O importante, acrescenta, \u00e9 n\u00e3o levar adiante o descontrole estrutural das contas p\u00fablicas. \u201cE isso n\u00e3o ser\u00e1 feito, uma vez que Meirelles est\u00e1 propondo, por meio de uma PEC (Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o), um teto para o aumento dos gastos. Essa PEC nos tirar\u00e1 da ilus\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria que sempre prevaleceu no pa\u00eds\u201d, frisa. Ele diz ainda acreditar que o ministro da Fazenda n\u00e3o manchar\u00e1 sua vida p\u00fablica ao patrocinar a mesma farra fiscal que levou o Brasil para o buraco e est\u00e1 custando caro para empresas e trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar das ressalvas de Fragelli, a desconfian\u00e7a \u00e9 grande, inclusive no entorno de Temer. Gente gra\u00fada e de boa f\u00e9 que transita pela Esplanada dos Minist\u00e9rios v\u00ea sinais de racha dentro do governo, com parte da ala pol\u00edtica tentando fritar Meirelles, repetindo o modelo usado por petistas para destruir Joaquim Levy. Uma dessas raposas desabafa: \u201cSe Temer deixar o fogo amigo avan\u00e7ar sobre o ministro da Fazenda, ser\u00e1 seu suic\u00eddio pol\u00edtico. A \u00fanica forma de ele se manter no poder e fazer uma travessia tranquila at\u00e9 2018 \u00e9 justamente recuperando a economia. E isso passa por entregar um ajuste fiscal consistente\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, a preocupa\u00e7\u00f5es com as incoer\u00eancias do governo n\u00e3o est\u00e3o somente no mercado. J\u00e1 ganharam corpo dentro do governo. Ou Temer acordo r\u00e1pido, ou vai afundar \u2014 e r\u00e1pido. A \u00e1rea pol\u00edtica do Planalto n\u00e3o tem o que perder. O risco de ela ser atropelada pela Lava-Jato \u00e9 grande.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 05h30min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo j\u00e1 identificou estrago na imagem da equipe econ\u00f4mica. As incoer\u00eancias na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica fiscal levaram muitos investidores e analistas de peso a questionarem se realmente o grupo chefiado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, est\u00e1 disposto a arrumar as contas p\u00fablicas. 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