{"id":1786,"date":"2016-07-03T05:10:10","date_gmt":"2016-07-03T08:10:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1786"},"modified":"2016-07-08T10:07:20","modified_gmt":"2016-07-08T13:07:20","slug":"desempregado-agora-e-com-renda-menor-no-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/desempregado-agora-e-com-renda-menor-no-futuro\/","title":{"rendered":"Desempregado agora e com renda menor no futuro"},"content":{"rendered":"<p>POR ANTONIO TEM\u00d3TEO E RODOLFO COSTA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dois anos atr\u00e1s, a jovem Lu\u00eania F\u00e9lix, 22 anos, decidiu fazer um curso de auxiliar de odontologia certa de que todas as portas do mercado de trabalho se abririam para ela. Afinal, tudo o que ouvia era que um diploma de um curso t\u00e9cnico driblaria qualquer dificuldade que pudesse surgir no pa\u00eds que j\u00e1 enfiava os dois p\u00e9s na recess\u00e3o. No dia em que pegou o certificado final do curso, Lu\u00eania, que havia perdido o emprego de operadora de caixa, gritou: \u201cMeu futuro est\u00e1 garantido\u201d. Um sorriso iluminava seu rosto, simbolizando toda a esperan\u00e7a que carregava no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os dias que se seguiram foram cru\u00e9is para Lu\u00eania. As portas que ela imaginava abertas no mercado de trabalho se mostraram mais fechadas do que nunca. Em vez de um emprego que lhe garantiria um bom sustento, obteve uma cole\u00e7\u00e3o de falsas promessas. Nenhum dos telefonemas que lhe foram prometidos se concretizou. A jovem sentiu todo o peso da recess\u00e3o num pa\u00eds em que 11,4 milh\u00f5es de pessoas formam um ex\u00e9rcito de desempregados. Para Lu\u00eania, s\u00f3 restou uma op\u00e7\u00e3o: vender marmitas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cFoi o que sobrou para mim. Mas \u00e9 melhor um emprego informal do que nada. Preciso pagar minhas contas\u201d, diz Lu\u00eania. Ela ressalta que, com as marmitas, vendidas a R$ 6 cada, fatura, em m\u00e9dia, R$ 200 por semana. S\u00e3o R$ 800 por m\u00eas, 11,1% a menos do que os R$ 900 que ganhava quando tinha a carteira assinada. \u201cEssa perda de renda \u00e9 o reflexo da falta de oportunidades neste pa\u00eds\u201d, afirma. \u201cEstamos no Brasil da decep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o no pa\u00eds do futuro que eu acreditava existir\u201d, emenda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como Lu\u00eania, milhares de jovens que s\u00e3o despejados no mercado de trabalho a cada seis meses se deparam com essa realidade desanimadora. O Brasil vive o que os economistas chamam de desperd\u00edcio de capital humano. Prepara-se a m\u00e3o de obra, gasta-se uma fortuna para form\u00e1-la, mas todo o conhecimento \u00e9 jogado fora. Os formandos n\u00e3o conseguem encontrar vagas nas \u00e1reas em que estudaram. E quando conseguem uma oportunidade, ganham, em m\u00e9dia, 13% menos do que receberiam numa economia em expans\u00e3o. \u00c9 o ped\u00e1gio da recess\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cFiz v\u00e1rias pesquisas antes de me formar e vi que, com o meu diploma, conseguiria um sal\u00e1rio de R$ 1,2 mil por m\u00eas. Triste ilus\u00e3o\u201d, enfatiza Lu\u00eania, cujo diploma, que ela pensou ser um trof\u00e9u, est\u00e1 guardado no fundo de uma gaveta. O economista S\u00e9rgio Firpo, professor da escola de neg\u00f3cios Insper, entende perfeitamente a decep\u00e7\u00e3o da jovem. Ele explica que, em momentos de recess\u00e3o, o desemprego aumenta e os sal\u00e1rios encolhem. Nos \u00faltimos 12 meses, 3,3 milh\u00f5es de pessoas entraram na fila de desempregados. Um e cada quatro \u00e9 jovem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Desvantagem<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na recess\u00e3o, todos sofrem. \u201cA probabilidade de um cidad\u00e3o se recolocar no mercado de trabalho diminui muito. Mesmo os jovens, que t\u00eam mais anos de estudo e deveriam levar vantagem entre os mais velhos, sentem o baque da falta de crescimento econ\u00f4mico\u201d, frisa Firpo. Ele revela outro lado dram\u00e1tico de per\u00edodos em que o Produto Interno Bruto (PIB) est\u00e1 em contra\u00e7\u00e3o: quem perde o emprego e fica mais de seis meses sem um trabalho fixo dificilmente voltar\u00e1 a ter a renda igual ou superior \u00e0 recebida anteriormente quando se recolocar no mercado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cCom o desemprego em meio \u00e0 recess\u00e3o, a capacidade de recupera\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria salarial diminui. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ruim para quem foi dispensado e para quem \u00e9 contratado em momentos de dificuldades econ\u00f4micas\u201d, diz o professor do Insper. Pesquisas feitas nos Estados Unidos refor\u00e7am essa tese. Em m\u00e9dia, quem ficou desempregado por mais de seis meses ter\u00e1 um sal\u00e1rio10% menor em rela\u00e7\u00e3o ao que recebia antes de ser dispensado, mesmo 20 anos depois. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3. Na compara\u00e7\u00e3o com os que nunca foram demitidos, aqueles que, em algum momento, perderam o emprego ter\u00e3o rendimentos 20% menores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Firpo, n\u00e3o h\u00e1 melhoras \u00e0 vista t\u00e3o cedo. Ele alerta que os brasileiros n\u00e3o se preparam para a recess\u00e3o e o desemprego. Durante os per\u00edodos de bonan\u00e7a, muitos aproveitaram a oferta abundante de vagas para mudar de ocupa\u00e7\u00e3o em busca de sal\u00e1rios melhores ou para usufruir do colch\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o social, sobretudo do seguro-desemprego e do Fundo de Garantia do Tempo de Servi\u00e7o (FGTS). Assim, chegaram em 2016 sem a possibilidade de contar com tais benef\u00edcios. \u201cA alta rotatividade no emprego acabou se transformando em uma armadilha para muitas pessoas\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Antonio Nascimento, 44 anos, n\u00e3o se deixou levar pelos ventos a favor que sopravam na economia. Todos os meses, poupava pelo menos 10% do sal\u00e1rio para tempos dif\u00edceis. Um ano e meio depois de ser demitido, o engenheiro civil viu as reservas financeiras se esva\u00edrem. Agora, sabe que n\u00e3o ter\u00e1 outra op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser pegar o que aparecer pela frente. \u201cN\u00e3o d\u00e1 mais para esperar por uma vaga na minha \u00e1rea. Estou aceitando qualquer coisa, pois preciso garantir o sustento da minha mulher e das minhas duas filhas\u201d, diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo abrindo m\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o, Nascimento n\u00e3o ter\u00e1 vida f\u00e1cil. At\u00e9 empregos de menor remunera\u00e7\u00e3o sumiram. A perspectiva \u00e9 de que o desemprego, que est\u00e1 em 11,2%, ainda avance at\u00e9 os 14%, apesar de muitos analistas preverem um 2017 melhor, com crescimento de at\u00e9 2%. Cada ponto percentual a mais na taxa de desocupa\u00e7\u00e3o significa pelo menos 1 milh\u00e3o de novos desempregados. Um filme de terror que ainda assustar\u00e1 muita gente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 05h10min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR ANTONIO TEM\u00d3TEO E RODOLFO COSTA &nbsp; Dois anos atr\u00e1s, a jovem Lu\u00eania F\u00e9lix, 22 anos, decidiu fazer um curso de auxiliar de odontologia certa de que todas as portas do mercado de trabalho se abririam para ela. 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