{"id":1660,"date":"2016-06-26T05:30:54","date_gmt":"2016-06-26T08:30:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1660"},"modified":"2016-06-26T12:54:02","modified_gmt":"2016-06-26T15:54:02","slug":"pais-envelhece-mas-poupanca-diminui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/pais-envelhece-mas-poupanca-diminui\/","title":{"rendered":"Pa\u00eds envelhece, mas poupan\u00e7a diminui"},"content":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO E HENRICK MENEZES<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Proporcionar uma exist\u00eancia mais longa aos cidad\u00e3os \u00e9 um dos principais indicadores de desenvolvimento de um pa\u00eds. N\u00e3o basta, por\u00e9m, viver muito. As pessoas querem ter qualidade de vida. E, para isso, \u00e9 preciso que a economia cres\u00e7a, garantindo mais recursos para o consumo e servi\u00e7os p\u00fablicos melhores. O envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo ajuda e atrapalha esse processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma grande vantagem foi descoberta recentemente: \u00e0 medida em que as pessoas percebem que seus pais e av\u00f3s est\u00e3o vivendo durante mais tempo, elas se d\u00e3o conta de que precisam poupar mais, para garantir uma vida tranquila depois de parar de trabalhar. E a vantagem aparece para todos, porque, com maior volume de poupan\u00e7a, h\u00e1 maior disponibilidade de recursos e os juros caem. Foi assim em v\u00e1rios pa\u00edses pesquisados. No Brasil, que n\u00e3o faz parte da amostra, a poupan\u00e7a caiu, e os juros continuam nas alturas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o que mostra um trabalho, publicado pelo Federal Reserve Bank de S\u00e3o Francisco, de autoria de tr\u00eas economistas: Fernanda Nechio, da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o, Andrea Ferrero, professor da Universidade de Oxford (Reino Unido) e Carlos Viana de Carvalho, professor da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), indicado para a diretoria de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica do Banco Central (BC) \u2014 a nomea\u00e7\u00e3o ainda depende de aprova\u00e7\u00e3o do Senado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a crise global, os bancos centrais de muitos pa\u00edses baixaram as taxas b\u00e1sicas de juros, que se tornaram, em muitos casos, negativas em termos reais, pois quem compra os t\u00edtulos do governo deve se contentar com remunera\u00e7\u00e3o abaixo da infla\u00e7\u00e3o. Os economistas mostraram que, embora o objetivo de impulsionar a economia explique parte da queda dos juros, grande parte da pol\u00edtica monet\u00e1ria \u00e9 consequ\u00eancia da demografia. Em 17 pa\u00edses desenvolvidos estudados, a taxa m\u00e9dia real de juros caiu de 5,6% ao ano em 1990 para -0,7% em 2013. Dessa queda de 6,3 pontos, 24% s\u00e3o resultado do envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Brasil, \u00e9 dif\u00edcil olhar para um per\u00edodo t\u00e3o grande e que inclua a d\u00e9cada de 1990, quando a infla\u00e7\u00e3o atingia milhares de pontos percentuais por ano. O fato \u00e9 que a expectativa de vida aumentou de l\u00e1 para c\u00e1 e a poupan\u00e7a baixou, n\u00e3o s\u00f3 porque as pessoas guardam menos dinheiro, mas porque o deficit do governo consome uma parcela maior dos recursos do pa\u00eds. E os juros subiram, sobretudo quando se observa o per\u00edodo recente, desde que a presidente Dilma Rousseff chegou ao poder. A taxa de juros brasileira \u00e9 recorde mundial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Procurado, Carvalho disse que n\u00e3o poderia comentar o trabalho enquanto aguarda a an\u00e1lise pelo Senado da indica\u00e7\u00e3o de seu nome para o BC. \u201cFocamos em pa\u00edses desenvolvidos, onde a transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica est\u00e1 mais avan\u00e7ada\u201d, afirma a brasileira Fernanda Nechio, do Fed de S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Paradoxo<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, a rela\u00e7\u00e3o entre envelhecimento e eleva\u00e7\u00e3o da poupan\u00e7a \u00e9 um mecanismo conhecido, que se torna mais claro no trabalho dos tr\u00eas economistas. \u201cIsso ocorre enquanto a expectativa de vida est\u00e1 subindo. Depois, quando a popula\u00e7\u00e3o se estabiliza com um grande n\u00famero de idosos, a poupan\u00e7a cai, porque essas pessoas tendem a guardar menos dinheiro\u201d, diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Zeina acredita que o paradoxo brasileiro, em que, mesmo vivendo mais, as pessoas poupam menos, se deve ao fato de termos uma ampla rede de prote\u00e7\u00e3o social bancada pelo Estado. \u201cAs pessoas acham que n\u00e3o precisam se preocupar, j\u00e1 que o governo vai prover o que precisam\u201d.\u00a0A analista de recursos humanos Carla Feitosa, 37 anos, bem que gostaria de poupar, mas o sal\u00e1rio mal d\u00e1 para sustentar ela e as duas filhas. \u201cCom as contas cada vez mais caras, raramente eu tenho um dinheiro sobrando\u201d, diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A baixa renda explica uma parte do problema, j\u00e1 que, quanto menor o sal\u00e1rio, maior a propor\u00e7\u00e3o de recursos que s\u00e3o direcionados para necessidades b\u00e1sicas, como alimenta\u00e7\u00e3o. Mas v\u00e1rios economistas apontam para o fato de que, em outros pa\u00edses, sobretudo os asi\u00e1ticos, mesmo as pessoas que ganham pouco d\u00e3o um jeito de guardar um pouquinho todo m\u00eas para gastos futuros. \u201cElas fazem isso porque sabem que ter\u00e3o maior dificuldade de contar com o Estado\u201d, explica Zeina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitas vezes h\u00e1 frustra\u00e7\u00e3o com o rendimento quando se chega \u00e0 aposentadoria, mas a\u00ed j\u00e1 \u00e9 tarde. O agricultor Geraldo Almeida, 67, enfrentou muita burocracia para receber o benef\u00edcio. \u201cPassei por dificuldades financeiras, foi a\u00ed que vi que deveria ter poupado l\u00e1 atr\u00e1s\u201d, conta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Previd\u00eancia na berlinda<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A economista-chefe da XP investimentos, Zeina Latif, explica que a baixa poupan\u00e7a \u00e9 uma das explica\u00e7\u00f5es das altas taxas de juros No Brasil, entre outras. Mas a Previd\u00eancia, que desestimula as pessoas a guardarem dinheiro, tamb\u00e9m prejudica o custo dos empr\u00e9stimos, pois \u00e9 respons\u00e1vel pela maior parte do deficit p\u00fablico do pa\u00eds, um dos principais fatores da carestia brasileira. Para segurar os pre\u00e7os, o Banco Central se v\u00ea obrigado a promover o aperto na pol\u00edtica monet\u00e1ria e a subir os juros, o que, por sua vez, desestimula a atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 um pa\u00eds jovem, mas tem gastos previdenci\u00e1rios de pa\u00eds velho\u201d, diz Fernanda Nechio, do Fed de S\u00e3o Francisco, uma das autoras do estudo sobre a evolu\u00e7\u00e3o da poupan\u00e7a com as tend\u00eancias demogr\u00e1ficas em 17 pa\u00edses. O economista Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz, professor da Escola Nacional de Ci\u00eancia Estat\u00edstica (ENCE), destaca que esse era o momento de a Previd\u00eancia custar menos, n\u00e3o mais. A raz\u00e3o disso, segundo o professor, \u00e9 que o pa\u00eds est\u00e1 em pleno b\u00f4nus demogr\u00e1fico, o que \u00e9 provocado pela transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Curva<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A taxa de natalidade caiu bruscamente no Brasil. Assim, h\u00e1 um grande n\u00famero de jovens no mercado de trabalho, que t\u00eam menos crian\u00e7as e idosos para sustentar. O b\u00f4nus \u00e9 uma curva que sobe e desce, e agora est\u00e1 no auge. A partir de 2030, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a piorar, pois o mesmo contingente de trabalhadores ter\u00e1 de sustentar um n\u00famero de idosos cada vez maior. \u201cSe a Previd\u00eancia j\u00e1 est\u00e1 assim hoje, com um grande deficit, imagine como vai estar no futuro!\u201d, exclama Diniz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele explica que o pa\u00eds est\u00e1 perdendo o b\u00f4nus demogr\u00e1fico porque o desemprego \u00e9 alto. Assim, h\u00e1 muitos jovens dispon\u00edveis para trabalhar, mas poucas oportunidades para eles. \u201cIsso \u00e9 consequ\u00eancia dos investimentos de m\u00e1 qualidade que foram realizados nos \u00faltimos anos, sobretudo por estatais, nas quais houve muita corrup\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o de uma idade m\u00ednima para a aposentadoria, em estudo pelo governo, poder\u00e1 mudar a percep\u00e7\u00e3o dos brasileiros sobre o futuro. O professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica Matias Mendes, 29 anos, guarda dinheiro e procura usar as economias s\u00f3 para emerg\u00eancias. \u201cAcredito que a velhice \u00e9 para descansar e curtir, n\u00e3o para ter dores de cabe\u00e7a. Sempre aplico todos os meses 20% do que ganho. Fazer isso me deixa mais tranquilo, al\u00e9m de servir como um fundo para cobrir poss\u00edveis eventualidades\u201d, relata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 05h30min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO E HENRICK MENEZES &nbsp; Proporcionar uma exist\u00eancia mais longa aos cidad\u00e3os \u00e9 um dos principais indicadores de desenvolvimento de um pa\u00eds. N\u00e3o basta, por\u00e9m, viver muito. As pessoas querem ter qualidade de vida. 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