{"id":1649,"date":"2016-06-25T00:01:28","date_gmt":"2016-06-25T03:01:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1649"},"modified":"2016-06-25T19:28:40","modified_gmt":"2016-06-25T22:28:40","slug":"coluna-no-correio-licoes-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-licoes-todos\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Li\u00e7\u00f5es a todos"},"content":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A decis\u00e3o dos eleitores brit\u00e2nicos de sair da Uni\u00e3o Europeia (UE) pode prejudicar a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pela queda na demanda global. Mas tamb\u00e9m pode prolongar as medidas de afrouxamento monet\u00e1rio, o que favorece a queda de juros aqui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1, por outro lado, o preju\u00edzo indireto de entrarmos em um mundo mais isolacionista, menos integrado. O maior preju\u00edzo, claro, ser\u00e1 para os pr\u00f3prios brit\u00e2nicos. Mais especificamente, os ingleses, cujos votos foram decisivos para o resultado. \u00c9 grande a chance de implos\u00e3o do Reino Unido. Os escoceses votaram em peso pela op\u00e7\u00e3o de ficar na Uni\u00e3o Europeia. Tendem, agora, a fazer um novo referendo para se separar do Reino Unido e ficar na UE. A Irlanda do Norte pode ir na mesma linha, juntando-se \u00e0 Rep\u00fablica da Irlanda, que integra a Zona do Euro, embora isso seja um pouco mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Reduzida ou n\u00e3o, a Gr\u00e3-Bretanha vai enfrentar grandes dificuldades para negociar um acordo de livre com\u00e9rcio com o continente. Afinal, para os europeus essa negocia\u00e7\u00e3o ser\u00e1 decisiva. A meta \u00e9 mostrar a outros pa\u00edses que os efeitos para quem sair ser\u00e3o duros. Espera-se, com isso, evitar o efeito em cascata, a sa\u00edda de outros membros do bloco na esteira dos brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Riscos<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1, certamente, li\u00e7\u00f5es para todos, inclusive para n\u00f3s, brasileiros. Em primeiro lugar, um bloco econ\u00f4mico deve ser percebido como um bem para todos os envolvidos. Segundo, \u00e9 importante lembrar que estruturas de governan\u00e7a muito grandes tendem a ser percebidas como contr\u00e1rias ao interesse p\u00fablico. Terceiro, a comunica\u00e7\u00e3o com os eleitores, o que envolve dizer e ouvir, deve ser constante, especialmente com os menos escolarizados. E, em quarto, pol\u00edticos n\u00e3o devem arriscar medidas populistas para ganhar capital pol\u00edtico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O primeiro item \u00e9 algo que est\u00e1 em pauta hoje nas discuss\u00f5es do Mercosul. Muitos brasileiros, especialmente os empres\u00e1rios, acham que o pa\u00eds est\u00e1 atrasado na assinatura de acordos de livre com\u00e9rcio com outros blocos ou na\u00e7\u00f5es por ter de esperar a anu\u00eancia de todo os membros. As facilidades de acesso aos mercados vizinhos \u00e9 vista como um benef\u00edcio question\u00e1vel, tantos s\u00e3o os entraves que se colocam, \u00e0s vezes, para fazer valer a suposta liberdade comercial. O atual chanceler, Jos\u00e9 Serra, \u00e9 especialmente cr\u00edtico disso. A tend\u00eancia \u00e9 que o Mercosul acabe se esvaziando rapidamente caso n\u00e3o mostre benef\u00edcios reais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O gigantismo das estruturas \u00e9 um problema que conhecemos bem. No Brasil, o cidad\u00e3o v\u00ea o governo como algo que existe para servir a si mesmo. Uma boa parte do Estado est\u00e1 ali para que os ministros tenham cargos e exposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Sem falar nas chances de corrup\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma enorme oportunidade para desperd\u00edcio. \u00c9 um quadro que acontece tamb\u00e9m nos estados e munic\u00edpios, muitos dos quais seriam invi\u00e1veis se n\u00e3o pudessem contar com recursos da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os funcion\u00e1rios p\u00fablicos acabam sendo beneficiados, porque, sem eles, os governantes n\u00e3o conseguem tocar essa estrutura. Assim, h\u00e1, em muitos lugares, servidores demais, sal\u00e1rios generosos e trabalho de menos. Muita gente exagera ao dizer que, no Brasil, pagam impostos sem qualquer coisa em troca. N\u00e3o \u00e9 assim. Temos sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o universais, aposentadoria e distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que poder\u00edamos ter mais servi\u00e7os, ou ent\u00e3o impostos mais baixos, com uma m\u00e1quina mais eficiente. O peso da estrutura da UE \u00e9 muito criticado por v\u00e1rios cidad\u00e3os europeus. Entre os brit\u00e2nicos, o peso dos impostos comunit\u00e1rios foi uma raz\u00e3o para sair. Aqui, n\u00e3o est\u00e1 em pauta separatismo. Mas tamb\u00e9m \u00e9 bom os pol\u00edticos se preocuparem com as consequ\u00eancias eleitorais do descontentamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Estorvo<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o dos eleitores com menor renda e escolaridade \u00e9 algo que teve um peso imenso na decis\u00e3o dos brit\u00e2nicos. E algo que estamos muito acostumados a ver aqui, igualmente pelo vi\u00e9s do peso negativo que essas pessoas tendem a ter nas decis\u00f5es pol\u00edticas. Aqui, essas pessoas s\u00e3o mais conservadoras e se op\u00f5em a mudan\u00e7as que favore\u00e7am a igualdade de g\u00eanero e de orienta\u00e7\u00e3o sexual, assim como tendem a aceitar pol\u00edticos corruptos que lhes tragam benef\u00edcios diretos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na Inglaterra, esse grupo \u00e9 pouco globalizado. N\u00e3o tem aspira\u00e7\u00f5es a viajar ou morar fora e v\u00ea estrangeiros como amea\u00e7a, afinal compete com imigrante nos empregos de baixa renda, e com os mais ricos em habita\u00e7\u00e3o e outros itens de consumo \u2014 que se tornaram car\u00edssimos na Inglaterra, especialmente em Londres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tend\u00eancia, l\u00e1 e c\u00e1, ou em qualquer lugar, \u00e9 olharmos para esse grupo com arrog\u00e2ncia, como um estorvo. N\u00e3o pode ser assim, at\u00e9 porque n\u00e3o d\u00e1 certo, a menos que se opte pelo regime autorit\u00e1rio com um d\u00e9spota esclarecido. Na democracia, \u00e9 preciso conviver com todas as pessoas, inclusive com essas, levando-lhes muita informa\u00e7\u00e3o e, sobretudo, ouvindo, para entender por que defendem suas posi\u00e7\u00f5es. \u00c9 o caminho para acabar com o preconceito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O \u00faltimo item, de vi\u00e9s populista, \u00e9 bem conhecido dos brasileiros, nem que seja pelos livros de hist\u00f3ria. Em 1961, o presidente J\u00e2nio Quadros renunciou ao mandato na expectativa de que o povo sa\u00edsse \u00e0s ruas para defender a sua volta. Esperava, com isso, ter poder de barganha muito maior na rela\u00e7\u00e3o com o Congresso. N\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O primeiro-ministro brit\u00e2nico James Cameron desenvolveu grande empatia na rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico. N\u00e3o \u00e9, portanto, um pol\u00edtico fraco. Quis se fortalecer ainda mais ao lan\u00e7ar a ideia do plebiscito tr\u00eas anos atr\u00e1s. Se vencesse, ningu\u00e9m mais poderia reclamar de pagar muito impostos para a UE e ter de se submeter \u00e0s leis do bloco. Ele e seu partido teriam, assim, uma licen\u00e7a para atuar na pol\u00edtica europeia e em muitas outras coisas. Seus projetos pessoais foram por \u00e1gua abaixo. Ele ser\u00e1 reconhecido como um dos piores no cargo, ou at\u00e9 mesmo o pior. Se o Reino Unidos implodir, ele n\u00e3o poder\u00e1 andar nem mesmo entre seus correligion\u00e1rios, os conservadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h01min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO &nbsp; A decis\u00e3o dos eleitores brit\u00e2nicos de sair da Uni\u00e3o Europeia (UE) pode prejudicar a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pela queda na demanda global. 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