{"id":1486,"date":"2016-06-18T07:01:17","date_gmt":"2016-06-18T10:01:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1486"},"modified":"2016-06-18T15:18:54","modified_gmt":"2016-06-18T18:18:54","slug":"o-rio-do-atraso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/o-rio-do-atraso\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: O Rio do desastre"},"content":{"rendered":"<p>A decis\u00e3o do governador interino, Francisco Dornelles, de decretar estado de calamidade no Rio de Janeiro \u00e9 o sinal mais eloquente do desastre da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica do pa\u00eds. Explicita todo o descaso com que o dinheiro do contribuinte \u00e9 tratado. As m\u00e1quinas de governo, sejam elas federal, estaduais, sejam municipais, se transformaram em instrumentos para enriquecimento il\u00edcito. Os gestores est\u00e3o mais preocupados em engordar o patrim\u00f4nio pessoal e os de amigos pr\u00f3ximos do que em prestar um bom servi\u00e7o \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os exemplos de m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o e inefici\u00eancia, quadro que era mascarado pela \u00e9poca de recursos f\u00e1ceis. Agora, com a grave crise econ\u00f4mica estrangulando as finan\u00e7as dos governos, todos os problemas se escancararam. A Uni\u00e3o j\u00e1 indicou que ter\u00e1 pelo menos quatro anos seguidos de rombos nas suas contas \u2014 o buraco entre 2014 e 2017 pode, facilmente, chegar aos R$ 500 bilh\u00f5es. H\u00e1, sim, o risco de o Tesouro Nacional se tornar insolvente, caso o Congresso n\u00e3o se movimente para aprovar medidas que viabilizem o ajuste fiscal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos estados e em v\u00e1rios munic\u00edpios, o calote j\u00e1 foi institucionalizado. Sal\u00e1rios de servidores t\u00eam sido pagos em parcelas. Aposentadorias e pens\u00f5es est\u00e3o atrasadas. Contratos com fornecedores foram rasgados e n\u00e3o h\u00e1 perspectiva de recebimento do que j\u00e1 foi entregue. O resultado disso \u00e9 uma piora substancial em servi\u00e7os b\u00e1sicos, como seguran\u00e7a p\u00fablica, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 desamparada. Os gestores, por\u00e9m, mant\u00eam privil\u00e9gios como se n\u00e3o houvesse crise. Carros com motoristas, viagens de primeira classe, almo\u00e7os nos melhores restaurantes, ajuda de custo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Efeitos tr\u00e1gicos<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Especialista em contas p\u00fablicas, Jos\u00e9 Matias-Pereira, professor da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), resume bem os tempos de descalabro que estamos vivendo. \u201cO Brasil atravessa uma tempestade que est\u00e1 deixando para tr\u00e1s efeitos tr\u00e1gicos\u201d, diz. Ele ressalta que o setor p\u00fablico n\u00e3o aproveitou o per\u00edodo de bonan\u00e7a para melhorar a gest\u00e3o. Em vez disso, recorreu ao contribuinte para bancar a inefici\u00eancia de uma m\u00e1quina cada vez mais inchada. O professor \u00e9 enf\u00e1tico: \u201cO desperd\u00edcio na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 t\u00e3o grave quanto a corrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Matias-Pereira, o Rio de Janeiro, com a declara\u00e7\u00e3o de calamidade p\u00fablica, abriu a porteira. \u201cEstamos vendo apenas o in\u00edcio de um processo de estrangulamento de estados e munic\u00edpios\u201d, afirma. Ele lembra que o estouro da bolha de inefici\u00eancia e incapacidade administrativa se deu justamente com o estado que mais recebeu recursos da Uni\u00e3o nos \u00faltimos anos e mais se beneficiou da alta dos pre\u00e7os das commodities, mais precisamente, do petr\u00f3leo. Como o pre\u00e7o do \u00f3leo despencou, os royalties recebidos pelo estado encolheram 60% desde 2014. A maldi\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo abateu o Rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O professor reconhece que h\u00e1, sim, um problema s\u00e9rio no federalismo que rege a distribui\u00e7\u00e3o de recursos no pa\u00eds. As manobras promovidas pela Uni\u00e3o, ao substituir v\u00e1rios impostos por contribui\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o compartilhadas com estados e munic\u00edpios, criaram um sistema que se mostra insustent\u00e1vel. Nada, por\u00e9m, se equipara ao incha\u00e7o que foi promovido na m\u00e1quina p\u00fablica nos \u00faltimos anos. N\u00e3o \u00e0 toa, pelo menos 18 estados est\u00e3o com a folha de sal\u00e1rios do funcionalismo muito acima do limite fixado pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Tempos sombrios<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O governo federal acredita que pode minimizar os problemas enfrentados por estados oferecendo benef\u00edcios em troca de apoio pol\u00edtico \u2014 os governadores movimentariam suas bases no Senado para liquidar logo a fatura do impeachment de Dilma Rousseff. Mas, para Matias-Pereira, n\u00e3o veremos luz no fim do t\u00fanel t\u00e3o cedo. Os estados, em sua maioria, e o Distrito Federal avan\u00e7aram todos os sinais, a ponto de usarem recursos de fundos de previd\u00eancia e de dep\u00f3sitos judiciais para pagar sal\u00e1rios. Essa farra, contudo, acabou, mas as d\u00edvidas e os problemas continuam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ideal seria que a popula\u00e7\u00e3o, a maior prejudicada pela m\u00e1 gest\u00e3o, pela inefici\u00eancia e pela corrup\u00e7\u00e3o, aprendesse a li\u00e7\u00e3o e n\u00e3o elegesse mais pessoas despreparadas para os cargos de gestores p\u00fablicos. O Rio, infelizmente, se tornou um porto seguro para pol\u00edticos aventureiros, que o levaram, sem qualquer constrangimento, \u00e0 fal\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1, por\u00e9m, sinais de mudan\u00e7a na qualidade dos votos. E n\u00e3o se trata de desesperan\u00e7a. Basta ver os nomes que est\u00e3o colocados para as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es para constatar que tudo continuar\u00e1 como sempre foi.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Rio, a porta de entrada do pa\u00eds, a sede das Olimp\u00edadas, \u00e9 hoje o pior retrato do Brasil do atraso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 07h01min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A decis\u00e3o do governador interino, Francisco Dornelles, de decretar estado de calamidade no Rio de Janeiro \u00e9 o sinal mais eloquente do desastre da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica do pa\u00eds. Explicita todo o descaso com que o dinheiro do contribuinte \u00e9 tratado. 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