{"id":12838,"date":"2020-01-30T16:23:18","date_gmt":"2020-01-30T19:23:18","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=12838"},"modified":"2020-01-30T16:30:49","modified_gmt":"2020-01-30T19:30:49","slug":"o-desertao-artistico-do-governo-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/o-desertao-artistico-do-governo-bolsonaro\/","title":{"rendered":"O desert\u00e3o art\u00edstico do governo Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\"><em>Auto-intitulados \u201csertanejos\u201d, o grupo de artistas conservadores que se reuniu com Bolsonaro nessa quarta-feira nada tem a ver com a cultura popular que leva esse nome<\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\n<p>LUIZ CALCAGNO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A palavra \u201csert\u00e3o\u201d, da qual deriva o nome do estilo musical \u201csertanejo\u201d, vem do termo \u201cdesert\u00e3o\u201d &#8211; um grande vazio. O batismo \u00e9 dos portugueses, embora a caatinga n\u00e3o seja, por assim dizer, um deserto. Nas cr\u00f4nicas dos colonizadores h\u00e1 refer\u00eancias, tamb\u00e9m, ao \u201csert\u00e3o indiano\u201d que, novamente, pouca rela\u00e7\u00e3o tem com o nosso. Por isso, a palavra \u201cdesert\u00e3o\u201d se aplicaria muito mais para designar um estilo musical que, focado principalmente na explora\u00e7\u00e3o comercial, pouco ou nada tem a ver com as ra\u00edzes sertanejas brasileiras. Em meio \u00e0 maior crise na \u00e1rea cultural desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, foram representantes desse movimento que estiveram no Pal\u00e1cio do Planalto para manifestar apoio ao presidente Jair Bolsonaro nesta quarta (29\/1).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Na primeira parte do cl\u00e1ssico Os Sert\u00f5es, epop\u00e9ia nacional escrita por Euclides da Cunha, o autor se prop\u00f5e a discorrer sobre a transforma\u00e7\u00e3o da topografia brasileira do sudeste at\u00e9 a caatinga, no sert\u00e3o nordestino. \u00c9 o caminho tra\u00e7ado pelo jornalista junto a militares rumo ao arraial de Canudos, que chegaria ao fim em um massacre promovido pelo Ex\u00e9rcito Brasileiro e por policiais locais. Em seguida, o escritor descreve o sertanejo que, afirma, \u00e9, \u201cantes de tudo, um forte\u201d. Euclides tra\u00e7a uma an\u00e1lise profunda daquele povo que fez da sua fraqueza, a escassez, sua maior for\u00e7a. Esmagados entre o esquecimento do governo e os coron\u00e9is, grandes propriet\u00e1rios de terra e mandat\u00e1rios heredit\u00e1rios, entravam encourados na caatinga para buscar o gado. Um boi ou bezerro era, muitas vezes, a paga do trabalho duro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Sabiam o que comer e de onde tirar \u00e1gua da vegeta\u00e7\u00e3o escassa, \u00e1rida e ouri\u00e7a que, como o pr\u00f3prio sertanejo, tamb\u00e9m tornava-se vivaz e colorida ap\u00f3s a estiagem. \u00c9 uma gente que se desenvolve sob rudes circunst\u00e2ncias. E as condi\u00e7\u00f5es ambientais e socioecon\u00f4micas, no entanto, s\u00e3o fundamentais para a sedimenta\u00e7\u00e3o de uma cultura e um modo de vida. A vestimenta, a devo\u00e7\u00e3o religiosa, o conhecimento da natureza e do territ\u00f3rio, a culin\u00e1ria, a arte, fosse m\u00fasica sertaneja, literatura de cordel, escultura ou a xilogravura, florescem sob uma est\u00e9tica espec\u00edfica, pr\u00f3pria desse povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ainda, \u00e9 a profundidade dessa cultura, desse modo de vida, que acaba por se desdobrar em dois grandes movimentos indissoci\u00e1veis da hist\u00f3ria do pa\u00eds: o religioso messi\u00e2nico, que chega ao \u00e1pice com Ant\u00f4nio Conselheiro, no fim do Imp\u00e9rio e in\u00edcio da Rep\u00fablica e, posteriormente, o canga\u00e7o, que tem em Virgulino Ferreira, o Lampi\u00e3o, sua figura mais ic\u00f4nica, e se extingue sob o governo de Get\u00falio Vargas. Detalhe: ambas as figuras foram decapitadas pelo Estado e tiveram as cabe\u00e7as expostas como exemplo. Tanto a cultura messi\u00e2nica sertaneja quanto o canga\u00e7o s\u00e3o resultado, justamente do abandono, da fome, da mis\u00e9ria e da opress\u00e3o do governo e das oligarquias contra os sertanejos. Sertanejos que fizeram dessa lida vida pujante, assim como quem extrai \u00e1gua do espinhoso mandacar\u00fa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Embora os artistas que se encontraram com Bolsonaro na quarta tenham se apropriado h\u00e1 muito do termo \u201csertanejo\u201d, na reuni\u00e3o, deram provas de que nada guardam, e at\u00e9 desconhecem a for\u00e7a e a profundidade dessa palavra. Primeiro, classificaram o presidente da Rep\u00fablica, que tem forte apoio do agroneg\u00f3cio, de \u201cmaior governante\u201d da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Ora, a monocultura extensiva, praticada no Brasil desde os primeiros anos de coloniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 marca registrada dos grandes propriet\u00e1rios de terra, incluso os coron\u00e9is, algozes do povo nordestino.\u00a0Contratava a gente pelo m\u00ednimo e, tamb\u00e9m, a matava pelo m\u00ednimo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Agromusical<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">A carta de apoio, lida por Cuiabano Lima, mais conhecido como \u201cA Voz de Barretos\u201d, fala de uma suposta proximidade da classe com a popula\u00e7\u00e3o. \u201cOs artistas sertanejos, que percorrem todos os cantos desse grandioso Brasil e vivenciam todos os dilemas e dificuldades do povo brasileiro, encontraram no governo do presidente Bolsonaro essa postura de um governante que trabalha em prol de seu povo, de seu pa\u00eds\u201d, afirma o texto. \u00c9 verdade que os artistas que estiveram com o presidente tem grande ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Da\u00ed, inclusive, deriva sua fama, fen\u00f4meno coletivo que depende diretamente dos admiradores para ocorrer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Mas, apesar da alegada proximidade com o povo, pediram o fim da meia entrada e a regulamenta\u00e7\u00e3o de normas para flexibilizar as contrata\u00e7\u00f5es de trabalhadores no setor. Certamente, gente bem mais pobre que os artistas e empres\u00e1rios. O presidente, claro, se mostrou sens\u00edvel \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es dos apoiadores. Disse, inclusive, que participar\u00e1 da 65\u00aa edi\u00e7\u00e3o Festa do Pe\u00e3o de Barretos, com a condi\u00e7\u00e3o de dar\u00a0 duas voltas na arena montado em um cavalo. Trocando em mi\u00fados, s\u00e3o artistas sertanejos que nada tem de sertanejos. O agro pode at\u00e9 ser pop, mas est\u00e1 longe, muito longe, das ra\u00edzes da cultura popular.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Auto-intitulados \u201csertanejos\u201d, o grupo de artistas conservadores que se reuniu com Bolsonaro nessa quarta-feira nada tem a ver com a cultura popular que leva esse nome LUIZ CALCAGNO &nbsp; A palavra \u201csert\u00e3o\u201d, da qual deriva o nome do estilo musical \u201csertanejo\u201d, vem do termo \u201cdesert\u00e3o\u201d &#8211; um grande vazio. 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