{"id":1273,"date":"2016-06-07T07:01:25","date_gmt":"2016-06-07T10:01:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1273"},"modified":"2016-06-07T07:49:39","modified_gmt":"2016-06-07T10:49:39","slug":"fatura-da-cintradicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/vicente\/fatura-da-cintradicao\/","title":{"rendered":"Fatura da contradi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O governo de Michel Temer est\u00e1 prestes a completar um m\u00eas, e o que se v\u00ea \u00e9 uma administra\u00e7\u00e3o vacilante, que pode ruir a qualquer momento. Ainda que a maior amea\u00e7a ao peemedebista seja a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, que j\u00e1 derrubou dois de seus ministros e pode mandar pelos ares mais dois, h\u00e1 o risco de o ponto alto da sua administra\u00e7\u00e3o, a equipe econ\u00f4mica, cair no descr\u00e9dito \u2014 o pior dos mundos. A raz\u00e3o: os sinais contradit\u00f3rios em rela\u00e7\u00e3o ao ajuste fiscal, ponto nevr\u00e1lgico para tirar o Brasil da recess\u00e3o e bot\u00e1-lo de novo na rota do crescimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde que Temer tomou posse, ele e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, adotaram um discurso duro sobre a necessidade de se arrumar as contas p\u00fablicas, que est\u00e3o na base dos problemas que levaram o pa\u00eds a mergulhar na mais grave crise econ\u00f4mica desde os anos 30 do s\u00e9culo passado. Mas atos e declara\u00e7\u00f5es mostram que, na pr\u00e1tica, as portas para o aumento de gastos continuam escancaradas. E o reajuste do funcionalismo, que custar\u00e1 quase R$ 100 bilh\u00f5es at\u00e9 2019, \u00e9 o emblema maior do descompromisso com o ajuste fiscal que se v\u00ea at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante da gritaria de economistas contra a corre\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios de servidores num momento em que 11,4 milh\u00f5es de brasileiros est\u00e3o desempregados, Meirelles sentiu o baque. Ontem, soltou uma nota garantindo que a folha com o funcionalismo est\u00e1 sujeita \u00e0 Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que limita o aumento das despesas \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior. O ministro poderia ter evitado esse constrangimento se n\u00e3o tivesse cedido \u00e0s press\u00f5es pol\u00edticas e tirado do projeto original da PEC o trecho que deixava claro o enquadramento dos servidores ao controle de gastos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meirelles garante que, como a fatura dos reajustes ao funcionalismo j\u00e1 estava prevista no Or\u00e7amento deste ano, que poder\u00e1 ter rombo de at\u00e9 R$ 170,5 bilh\u00f5es, a grande preocupa\u00e7\u00e3o foi concentrar esfor\u00e7o na aprova\u00e7\u00e3o da Desvincula\u00e7\u00e3o de Receitas da Uni\u00e3o (DRU), que permitir\u00e1 que at\u00e9 30% das verbas sejam movimentadas livremente, e no encaminhamento da PEC que limita os gastos. A aliados, o ministro afirma que n\u00e3o havia como reverter algo que j\u00e1 estava contratado. Isso s\u00f3 traria mais problemas para o governo, como alegaram l\u00edderes pol\u00edticos que discutiram o assunto com ele e Temer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Derrota<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Meirelles, o reajuste aos servidores n\u00e3o pode ser visto como derrota da equipe econ\u00f4mica. Muito menos de que ele corre o risco de repetir o fiasco de Joaquim Levy, que prometeu um duro ajuste fiscal, mas n\u00e3o entregou nada e ainda saiu demitido da Fazenda, desmoralizado. Em sua defesa, e tentando se distanciar ao m\u00e1ximo de Levy, Meirelles diz que n\u00e3o houve recuo em nada do que ele afirmou ou prometeu at\u00e9 agora. Portanto, continua firme, e com apoio do Pal\u00e1cio do Planalto, para levar adiante o ajuste fiscal. O tempo, por\u00e9m, dir\u00e1 se ele est\u00e1 certo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para os economistas, se n\u00e3o quiser ter o mesmo destino de Levy, Meirelles ter\u00e1 que endurecer o discurso e apresentar medidas de curto prazo que sinalizem para o ajuste das contas p\u00fablicas. Tanto a DRU quando a PEC dos gastos s\u00e3o importantes, mas s\u00f3 mostrar\u00e3o resultados a m\u00e9dio e longo prazos. Os agentes econ\u00f4micos n\u00e3o v\u00e3o se contentar com promessas. Querem ver uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a de Meirelles a fim de medir at\u00e9 que ponto ele tem suporte de Temer para p\u00f4r em pr\u00e1tica a\u00e7\u00f5es duras e impopulares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A nota de ontem da Fazenda trouxe algum conforto, mas nem de longe estancou a desconfian\u00e7a que se instalou no mercado. Os investidores torcem para que o governo Temer d\u00ea certo, pois o plano B, a volta de Dilma Rousseff ao poder, seria desastroso para o pa\u00eds. Mas \u00e9 preciso que o peemedebista deixe de tanto vacilo e mostre que tem for\u00e7a suficiente para enterrar de vez a amea\u00e7a petista e para aprovar temas importantes no Congresso. Tentar domar a ansiedade do mercado no gog\u00f3 n\u00e3o funciona. H\u00e1 frustra\u00e7\u00e3o demais no hist\u00f3rico para se render a palavras bonitas. Todos est\u00e3o vacinados em rela\u00e7\u00e3o a isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ajuda de Yellen<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temer ganhou uma ajuda de peso para fazer a travessia at\u00e9 que o Senado aprove, definitivamente, o impeachment de Dilma. A presidente do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, Janet Yellen, indicou que a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve aumentar, t\u00e3o cedo, a taxa de juros norte-americana. Assim, o d\u00f3lar tende a manter um comportamento comportado, mais pr\u00f3ximo dos R$ 3,50, tirando press\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o. Com isso, o BC brasileiro poder\u00e1, mais \u00e0 frente, se sentir confort\u00e1vel para come\u00e7ar a cortar os juros por aqui, desejo de 10 em cada 10 empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O lado ruim das declara\u00e7\u00f5es de Yellen \u00e9 o de que, ao adiar o aumento dos juros, ela est\u00e1 reconhecendo que a economia dos EUA est\u00e1 perdendo for\u00e7a rapidamente e pode levar o mundo para o buraco. Nos \u00faltimos anos, foi a locomotiva norte-americana que puxou o avan\u00e7o do Produto Interno Bruto (PIB) do planeta. Agora, n\u00e3o ser\u00e1 capaz de compensar a forte desacelera\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses emergentes e as fragilidades da Europa e do Jap\u00e3o. Um mundo crescendo forte significa mais mercado para produtos brasileiros, um alento \u00e0 combalida ind\u00fastria. O inverso, por\u00e9m, representa o prolongamento da recess\u00e3o que tanto nos atormenta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sendo assim, o governo Temer deve agir r\u00e1pido para resgatar a credibilidade enquanto \u00e9 tempo. O Brasil j\u00e1 desperdi\u00e7ou oportunidades demais. De nada adianta afastar Dilma e o pa\u00eds continuar com um governo fr\u00e1gil, com uma base pol\u00edtica que s\u00f3 quer tirar vantagens, sem que assuntos relevantes passem do discurso para a pr\u00e1tica. Mesmo com o arranh\u00e3o provocado pelo reajuste aos servidores, os investidores est\u00e3o dispostos a acreditar nos compromissos de Temer e de Meirelles. Essa boa vontade, contudo, tem prazo de validade, que, se ressalte, \u00e9 muito curto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 07h01min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo de Michel Temer est\u00e1 prestes a completar um m\u00eas, e o que se v\u00ea \u00e9 uma administra\u00e7\u00e3o vacilante, que pode ruir a qualquer momento. 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