JUROS EM QUEDA

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O Banco Central já não discute mais se baixará os juros, mas quanto terá que cortar da taxa básica da economia (Selic). A instituição acredita que uma janela de oportunidade está se abrindo, com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) dos próximos meses situando-se entre 0,45% e 0,48% e o dólar girando entre R$ 3,70 e R$ 3,80. A perspectiva do BC era de que o afrouxo monetário começasse no segundo semestre. Mas o grupo liderado pelo presidente da instituição, Alexandre Tombini, defende que a redução dos juros comece mais cedo, talvez no início de junho.

Observa-se que, depois de meses de divisão sobre os rumos da Selic, o consenso começou a ganhar corpo entre os integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom). É possível que os dois diretores do BC que vinham votando pela alta de 0,5 ponto percentual nos juros — Tony Volpon (Assuntos Internacionais) e Sidnei Marques (Organização do Sistema Financeiro) — optem pela manutenção da taxa em 14,25% na reunião de abril. A unanimidade do Copom será a senha para futuras quedas. A crença é de que os juros podem cair até 4 pontos percentuais, para 10,25%, até o primeiro trimestre de 2017.

Que ninguém espere, porém, sinais de redução dos juros na ata do Copom que será divulgada hoje. “Trata-se de um documento velho”, diz um técnico do BC. “Muito coisa mudou desde a semana passada, quando se optou por manter a Selic em 14,25%”, acrescenta. A recessão se mostrou mais profunda que o imaginado e o dólar entrou em trajetória de baixa. “A inflação continuará elevada no acumulado de 12 meses, mas o importante será o índice corrente e as revisões, para melhor, das expectativas de mercado”, complementa.

O BC acredita que terá todo o respaldo dos agentes econômicos para cortar os juros. Na avaliação de técnicos da instituição, a economia está tão ruim, com o desemprego aumentando de forma muito rápida, que não haverá gritaria quando a Selic começar a descer. “O país está descendo ladeira abaixo. Isso não é segredo para ninguém. O BC não pode assistir a esse movimento passivamente, sobretudo se a inflação perder força”, afirma outro técnico.

Impacto emocional

O apoio à queda dos juros é visível no mercado. No entender do economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, com o IPCA de 0,90% em fevereiro e a desaceleração mais forte a partir de março, a redução dos juros será antecipada. Nos cálculos do economista Elson Teles, do Itaú Unibanco, a inflação de março será de 0,48%. As projeções dos economistas levam em consideração o dólar mais baixo. Em vez de cotações entre R$ 4 e
R$ 4,50, agora já se fala na moeda norte-americana oscilando em torno de R$ 3,85.

Há ainda outra justificativa para a queda da Selic. Como a inflação vai cair, os juros reais (que descontam a variação do IPCA) subirão, dificultando mais a atividade. “Uma economia em recessão de 4% não aguenta juros reais tão elevados, como o que estamos vendo, entre 7% e 8%”, explica um técnico do Ministério da Fazenda. “O BC não pode ficar alheio a isso”, emenda. Ele chama a atenção para os ventos favoráveis que vêm de fora, como a decisão do Federal Reserve (Fed), o BC dos Estados Unidos, de adiar a alta de juros e a fragilidade dos preços das commodities por causa da China.

Os mais afoitos dentro do governo pregam que o Copom aproveite “a onda favorável do mercado” para dar um alívio rápido à economia. Afirmam que, neste momento, com o Produto Interno Bruto (PIB) derretendo, o efeito da Selic menor será mais emocional do que prático, pois levará tempo para a atividade responder aos estímulos da política monetária. Ressaltam ainda que, mesmo quando a reação da economia se tornar aparente, o ritmo de recuperação estará longe de pressionar a inflação. “Com o PIB recuando 8% em dois anos, não há como esperar um salto repentino da atividade”, assinalam, em coro.

Nada de euforia

Dentro do BC, os técnicos reconhecem que a perspectiva de Dilma deixar o poder, seja pelo impeachment, seja pela renúncia, está jogando a favor para a queda dos juros. Não se descarta o dólar cair para R$ 3,50 se o PMDB indicar uma possível saída do governo e se as manifestações contra o governo forem maiores do que o esperado. Há, segundo eles, um caminhão de dinheiro esperando para entrar no Brasil assim que a crise política se dissipar. Isso obrigaria, inclusive, o BC a voltar a comprar dólares para não interromper o ajuste das contas externas e manter a competitividade da indústria.

A orientação da autoridade monetária, porém, é de não se deixar contaminar pelo sentimento de euforia que tenha como base uma mudança de governo. Os juros vão cair, mas tudo será baseado em argumentos técnicos. A instituição continuará, inclusive, cobrando um compromisso sério do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, com o ajuste fiscal. O BC tem a clara noção de que errou demais e de que ajudou a levar o país para o buraco no qual está metido. Não pode — e não deve — insistir nos equívocos.

Brasília, 08h30min

Vicente Nunes