Coluna no Correio: A bola está com Ilan

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Apesar de toda a credibilidade que carrega, o novo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, dificilmente conseguirá entregar a inflação no centro da meta, de 4,5%, em 2017. Na melhor das hipóteses, o fará em 2018, ou seja, nove anos depois da última vez que isso aconteceu — em 2009, com o mundo mergulhado em uma gravíssima crise, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) cravou alta de 4,31%. O estrago provocado pelo agora ex-BC Alexandre Tombini no controle da inflação foi tão grande, que revertê-lo exigirá tempo e paciência.

A herança deixada por Tombini é dramática. Na média, entre 2011, quando ele assumiu o BC, e maio deste ano, a inflação anual ficou em 7,1%, quase do dobro do objetivo definido em lei. Nem mesmo a brutal recessão na qual o país está mergulhado foi capaz de derrubar o custo de vida. Motivo: os agentes econômicos sempre trabalharam com remarcações preventivas para se proteger de um Banco Central leniente, dominado pelos interesses do Palácio do Planalto.

Foram muitas as desculpas encontradas por Tombini para justificar a resistência da inflação. Choques externos, choques de demandas, choques de oferta. O BC, infelizmente, nunca assumiu a real razão para a carestia açoitar o orçamento das famílias: a falta de um compromisso claro para conter o avanço do custo de vida. A política monetária conduzida pela equipe de Tombini sempre foi pautada pelos interesses eleitoreiros da presidente afastada, Dilma Rousseff.

Em 2011, durante as comemorações do Dia do Trabalho, Dilma declarou guerra aos juros altos. Obrigou o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a cortarem os encargos cobrados de empresas e de consumidores e forçou o BC a derrubar a taxa básica (Selic) para o menor nível da história. Mesmo com a inflação alta, a autoridade monetária não apresentou resistência. Muito pelo contrário, Tombini assumiu pessoalmente a missão de entregar o troféu que Dilma tanto queria para ostentar na campanha à reeleição. A Selic caiu a 7,25% ao ano, taxa que, quando descontada a inflação projetada para 12 meses à frente, ficava em 2%. Esses eram os juros reais dos sonhos da petista.

Como se tornou rotina no governo de Dilma, a farsa durou pouco. Seis meses depois de registrar seu piso, a Selic voltou a subir. Curiosamente, o aperto monetário parou em abril de 2014, quando a campanha da petista por mais quatro anos no Palácio do Planalto já estava nas ruas. Não haveria, segundo os marqueteiros de Dilma, como explicar à população que a pessoa que sempre gritou com os juros altos estava permitindo aumento nas taxas. De novo, a política falou mais alto e, claro, Tombini não se opôs. Em outubro, assim que as urnas confirmaram a vitória da chefe, o então presidente do BC voltou a aumentar a taxa básica até os atuais 14,25%. Mas, aí, já não havia mais porque se preocupar com os eleitores. Às favas com eles.

Perigo dos bajuladores

Ilan não pode repetir esses erros ao ceder à tentação do poder. Ao se sentar na cadeira de presidente do BC, terá de fazer uma gestão comprometida com o controle da inflação, o imposto mais cruel que incide sobre os pobres. Independentemente da cobrança dos agentes econômicos, que já começou, e dos desejos do Palácio do Planalto, terá que manter a taxa de juros em níveis condizentes para levar o IPCA à meta e resgatar a confiança na autoridade monetária. Sem o efetivo controle da inflação, a economia continuará desorganizada, impedindo a retomada mais forte do crescimento.

O discurso de Ilan nos últimos dias foi forte. Mas entre palavras e realidade há uma grande distância. O recente histórico do BC que o diga. Não faltaram promessas de Tombini para o controle da inflação. Em alguns momentos, houve muita gente que deu crédito a ele. Todas, porém, só colheram decepção. A falta de compromisso com a população chegou a tal ponto, que o Banco Central alardeou, sem constrangimento, que o Ministério da Fazenda de Guido Mantega cumpriria as metas fiscais. O time de Tombini sabia, contudo, que aquilo era uma farsa. Na verdade, a equipe econômica de Dilma estava se esbaldando com manobras nas contas, maquiagens e pedaladas.

Esse filme é bem conhecido de Ilan, que, por muitas vezes, o criticou. Tomara não repita o que se tornou regra entre os que assumem cargos importantes no governo. Quando estão fora, atiram as pedras, apontam os defeitos e levantam os riscos ao país. O presidente do BC precisa ser coerente, cumprir as missões que lhe foram entregues e se despir de interesses políticos. O país já pagou um preço alto demais pelo deslumbramento de pessoas que precisam de séquitos de bajuladores para dizer que tudo o que fazem é lindo, quando, na verdade, deveriam ser alertados sobres as opções erradas que fizeram. Dilma é o maior exemplo disso.

Expectativa e leniência

Na avaliação de Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Partners, o novo presidente do BC deve dar atenção especial às expectativas de inflação dos agentes econômicos. Quanto mais elas estiverem ancoradas, mais fácil será a tarefa de levar a carestia para o centro da meta. Deve, também, deixar o câmbio flutuar de acordo com as condições de mercado, pois isso potencializará os efeitos da política monetária.

Com Tombini, as expectativas sempre estiveram descoladas do discurso do BC. Por uma simples razão: ninguém acreditava no compromisso efetivo do ex-presidente da instituição para controlar a inflação. Não à toa, ele se tornou sinônimo de leniência. Infelizmente, a fatura foi transferida para toda a população por meio da recessão e do desemprego.

Portanto, Ilan tem uma oportunidade histórica: além de resgatar a credibilidade do BC, poderá trazer de volta a previsibilidade e criar as condições para o crescimento. A bola está com ele.

Brasília, 07h01min

Vicente Nunes