Coluna no Correio: A banca tremeu

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O Palácio do Planalto acendeu o sinal de alerta com o indiciamento de quatro executivos do Bradesco, entre eles, o presidente da instituição, Luiz Carlos Trabuco. A ordem do presidente interino, Michel Temer, é medir até que ponto a Operação Zelotes pode impactar o sistema financeiro, muito dependente de confiança. Os procuradores que fazem parte das investigações sobre irregularidades no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), no qual se questionam multas aplicadas pela Receita Federal, alertam que outras instituições estão na mira. Citam, abertamente, o Santander e o Safra, mas afirmam que a lista é bem maior.

Técnicos do governo que acompanham o assunto dizem que, até agora, nenhuma denúncia de irregularidade foi capaz de abalar a credibilidade dos grandes bancos, considerados extremamente sólidos. Agora, porém, com o comando do Bradesco na linha de tiro, o quadro mudou de figura. Os investidores já reagiram muito mal ao indiciamento de Trabuco e auxiliares. As ações da instituição registraram queda de até 4,45% ontem na bolsa de valores. O grande público, porém, continua alheio ao assunto. Mas, na avaliação dos técnicos, não se pode desprezar o poder das redes sociais para disparar informações inverídicas.

Auxiliares de Temer dizem que ele pediu ao Banco Central que não descuide do assunto. Tudo que o país não precisa agora é de problemas no sistema financeiro. O maior risco iminente de crise foi, pelo menos por ora, debelado. Trata-se do BTG Pactual, engolfado pela Operação Lava-Jato. O dono da instituição, André Esteves, chegou a ser preso e foi denunciado por suspeitas de corrupção. O banco teve que se desfazer de vários ativos para não quebrar, mas pode voltar a enfrentar nova onda de desconfiança se o Congresso aprovar o pedido de CPI para investigar suas relações com os governos petistas.

Recuperação judicial

O governo conta com um sistema financeiro saudável para sustentar a retomada do crescimento econômico. Como não poderá mais usufruir do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que estraçalhou as contas do Tesouro Nacional, precisará das instituições privadas para serem os grandes veículos financiadores dos projetos de concessões e de privatização que estão sendo preparados para garantir, se não tudo, pelo menos uma boa parte dos R$ 55 bilhões que o Ministério da Fazenda prevê como receitas extras em 2017, quando o deficit público será de R$ 139 bilhões.

Também os bancos serão importantes, na visão do governo, para a retomada do crédito às famílias e às empresas que tendem a ampliar os negócios para atender ao aumento do consumo. Os técnicos reconhecem que as instituições, mesmo muito capitalizadas, ficaram machucadas recentemente com o significativo número de grandes companhias que recorreram à recuperação judicial. Os casos mais recentes são da Sete Brasil e da Oi. Há ainda um passivo grande a ser assumido caso as grandes empreiteiras pegas pela Lava-Jato roubando a Petrobras acabem suspendendo os pagamentos de dívidas.

“Todos os indicadores apontam que não há com o que se preocupar”, afirma um importante técnico da Esplanada dos Ministérios. Ele ressalta que todos os testes de estresse realizados pelo BC mostram que o sistema financeiro brasileiro nunca esteve tão saudável. “De qualquer forma, não é demais ligar o sinal de alerta, principalmente em se tratando de bancos”, acrescenta. “Assim, vamos ver o governo agindo nos bastidores, chamando todas as grandes instituições para conversar, a fim de medir até que ponto a Zelotes pode ser um detonador de problemas, ou não”, destaca.

Acabou a brincadeira

Longe da apreensão com os bancos, os especialistas tentam mapear todos os passos da equipe econômica para ver quais as reais chances de o Brasil ajustar suas contas e de a economia sair do atoleiro. Para Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos, com o resultado que se viu no primeiro semestre — rombo de R$ 32,5 bilhões nas finanças, o maior para o período desde 1997 —, o governo federal cortará um dobrado para não superar a previsão de deficit de R$ 170,5 bilhões para este ano. É importante ressaltar que o grosso das despesas é lançado entre julho e dezembro, e as receitas, em vez de melhorarem, só pioram.

Na opinião de Rosa, ainda não é possível ver nada que garanta avanço do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,2%, em 2017, e de 2,5%, em 2018, como projeta o governo. Há muita coisa jogando contra: desemprego, elevado nível de endividamento das famílias, empresas em dificuldades, investimentos retraídos. Ele acredita que o mais provável, pelo menos no ano que vem, é que o PIB dê um salto entre 0,5% e 1%, e, mesmo assim, será uma recuperação cíclica, depois de dois anos seguidos de contração acumulada de 8%.

Para que a economia realmente retome o fôlego e cresça de forma sustentada, diz o especialista da Sul América, o governo terá que se empenhar muito para aprovar, no Congresso, todas as medidas que permitirão ao país reorganizar suas contas e reduzir o endividamento que caminha para 80% do PIB. A primeira delas é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que limitará o aumento de gastos à inflação do ano anterior. “Por enquanto, há um voto de confiança ao governo. Mas, depois da aprovação do impeachment (de Dilma), a lua de mel tende a acabar. Todas as cartas serão colocadas na mesa”, avisa.

Brasília, 05h05min

Vicente Nunes