Clínicas populares ganham espaço com consultas a R$ 89

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POR ANTONIO TEMÓTEO

O aumento do desemprego, que levou 1,9 milhão de brasileiros a perder a cobertura de planos de saúde, as dificuldades que os consumidores enfrentam para usar os convênios e a precarização do atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) impulsionaram a expansão de redes de clínicas populares no país. Com preços acessíveis para a realização de consultas e exames, pelo menos sete empresas foram criadas para prestar serviços médicos de baixa e média complexidade.

O advogado Daniel Cardone, especialista no mercado de saúde, explica que o conceito de clínicas populares surgiu nos Estados Unidos, em varejistas como a CVS, uma das maiores redes de farmácia do mundo, e no Walmart. Os norte-americanos não têm um sistema público de saúde e as duas companhias faturam com a venda de medicamentos. Com isso, criaram suas próprias clínicas, com preços de consultas inferiores aos de hospitais, para atender pacientes com dores de cabeça, alergias e pequenos desconfortos. “O país tem uma população enorme sem recursos para buscar atendimento em hospitais privados e as empresas viram uma oportunidade”, detalha.

Cardone comenta que, em qualquer lugar do mundo, as pessoas não veem barreiras para gastar quando o assunto é saúde. Vendem os bens, usam as economias ou tomam financiamentos para custear tratamentos. Diante de uma demanda semelhante, os brasileiros adaptaram o conceito norte-americano para a realidade daqui. “No Brasil a legislação não permite que uma farmácia ou uma rede varejista tenha médicos prescrevendo medicamentos. Mas as clínicas podem ser criadas por investidores e médicos”, afirma.

Exame a R$ 3,50

O especialista destaca que o modelo deu certo no Brasil diante da carência de hospitais públicos e dos custos elevados para tratamento em unidades privadas para quem não tem plano de saúde. Uma consulta varia de
R$ 89 a R$ 120. Exames são realizados a partir de R$ 3,50. O investimento para montar uma unidade varia de R$ 500 mil a R$ 1 milhão. O custo do projeto é determinado pelo gasto com equipamentos. “O cidadão brasileiro que hoje está desempregado não tem dinheiro para pegar táxi ou ônibus e percorrer vários hospitais em busca de atendimento. Logo, ele vai a uma clínica popular, gasta menos e tem a certeza de que será atendido”, diz Cardone.

Presidente do Conselho de Administração da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Francisco Balestrin ressalta que, somente no ano passado, 150 mil consultas deixaram de ser realizadas em prontos-socorros privados na cidade de São Paulo com a redução do número de beneficiários de planos de saúde. Ele explica que essa demanda passou a ser atendida por clínicas populares, consultórios particulares ou pelo próprio SUS.

Na opinião de Balestrin, as clínicas populares são uma tendência de mercado e a perenidade dessas empresas será testada quando a economia retomar o crescimento e os brasileiros voltarem a ter emprego, planos de saúde e usarem os hospitais privados. “Quem faz um atendimento profissional participará do processo de consolidação. Quem entrou na onda pode perder a clientela”, comenta. Ele ressalta ainda que os atendimentos de média e alta complexidade continuam a ser realizados pelos hospitais tradicionais e a tendência é de que o movimento aumente diante do envelhecimento populacional.

De olho na expansão da demanda por atendimentos médicos, o advogado Emannuel Garakis e outros quatro sócios abriram a primeira unidade da Minha Clínica no Setor Comercial Sul, centro de Brasília. A clínica tem cinco consultórios e espaço para exames e coleta de sangue. A segunda unidade está em construção em São Sebastião e deve empregar 35 pessoas.

O diretor técnico da clínica popular, Joannis Garakis, explica que a empresa está focada na atenção básica à saúde, com preços acessíveis. As consultas variam de R$ 89 a R$ 99. Os exames saem até pela metade do preço do que os realizados em laboratórios e hospitais tradicionais. “O paciente tem direito a uma consulta e um retorno em até 30 dias”, explica.

Os brasileiros, porém, têm opiniões distintas sobre o serviço prestado pelas clínicas populares. A vendedora ambulante Antônia Duarte, 57 anos, conhece o drama de quem busca atendimento na rede pública. Ela vende lanches na porta do Hospital de Base de Brasília, a maior unidade pública do Distrito Federal, e vê o sofrimento de quem não consegue ser atendido. “Tentei uma consulta, que foi marcada para outubro. Moro no Entorno do DF e paguei R$ 150 em um médico particular. As clínicas populares são uma alternativa aos mais pobres”, diz.

O servidor público Luiz Rocha, 55, teme que o atendimento realizado pelas clínicas populares não seja de qualidade. Ele, que tem plano de saúde, afirma que já teve dificuldades para marcar uma consulta. “Os preços das clínicas populares são atrativos, mas não tenho confiança. Sonho com o dia em que o SUS terá condição de cuidar dos brasileiros sem filas e sem transtornos”, ressalta.

Brasília, 23h01min

Vicente Nunes