Banco Central reduz projeção do PIB e eleva a de inflação

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ROSANA HESSEL

MARINA BARBOSA

Assim como o mercado, que vem reduzindo as projeções para a atividade econômica para baixo diante do agravamento da pandemia da covid-19 no país, o Banco Central reduziu de 3,8% para 3,6% a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2021, conforme mostra o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) divulgado nesta quinta-feira (25/03). O BC elevou de 3,4% para 5% a previsão para a inflação no fim do ano.

A autoridade monetária reconheceu que ainda há “incerteza acima da usual sobre o ritmo de crescimento da economia” para justificar a revisão mais pessimista e ainda sinalizou que outros cortes na projeção podem ocorrer mais à frente.  “Ressalte-se que essa perspectiva está condicionada à continuidade do processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira, condição essencial para permitir a recuperação sustentável da economia”, destacou o documento.

A nova previsão do BC, entretanto, está mais otimista do que o mercado. A mediana das estimativas coletadas no boletim Focus desta semana para o crescimento do PIB deste ano está em 3,2%.

De acordo com o relatório, a nova projeção do PIB deste ano considera a manutenção do regime fiscal e os R$ 44 bilhões previstos na nova rodada de auxílio emergencial, com pagamentos concentrados no segundo trimestre do ano. Além disso, ainda prevê um cenário relativamente otimista em relação à vacinação, que ainda caminha a passos lentos. ““Supõe-se ainda que o cronograma anunciado de vacinação será seguido sem desvios acentuados e que as novas variantes de atenção do vírus não afetarão de modo significativo os resultados da campanha de vacinação”, informou.

Inflação

O Banco Central já vê a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegando a 5% no fim deste ano, o que deve exigir a elevação da taxa básica de juros (Selic) para 4,5% ainda em 2021, conforme a nova projeção do RTI.

No relatório anterior, o BC projetava uma inflação de 3,4% em 2021. Porém, agora elevou esta projeção já que os últimos dados de inflação vieram acima do esperado e, sobretudo, porque o dólar e o preço das commodities seguem em alta.

“As projeções foram especialmente afetadas pelo forte crescimento do preço do petróleo e pela depreciação cambial, impactando de forma substancial a projeção para os itens gasolina e gás de bujão”, informa o RTI. Por conta disso, o BC acredita que a inflação dos preços administrados vai chegar a 9,5% neste ano, enquanto a inflação dos preços livres deve ficar em 3,5%.

O Banco Central reconheceu que, devido à alta dos preços, a probabilidade de a inflação ultrapassar a meta deste ano cresceu de forma expressiva. Segundo o RTI, essa probabilidade era de 8% em dezembro, mas agora já chega a 41% “em função do aumento das projeções”. A meta de inflação de 2021 determinada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) é de 3,75% e o teto é de 5,25%.

Esse cenário menos favorável, aliás, foi um dos motivos para que o Banco Central antecipasse o ciclo de alta da Selic e surpreendesse o mercado elevando a taxa básica em 0,75 ponto percentual em vez de 0,50, como era o esperado pela maioria das projeções. Agora, apesar de sinalizar que os juros podem encerrar o ano em 4,5%, as projeções do mercado apontam uma Selic mais elevada, inclusive, acima da taxa neutra, entre 6% e 6,5% neste ano e no próximo. A curva de juros, inclusive, já mostra os juros em 2022 chegando a 9%, acima da previsão atual do mercado, de 6%.

Ultrapassar o teto da meta neste primeiro semestre já é uma realidade, segundo a autoridade monetária. O RTI explica que, devido à alta dos alimentos registrada no ano passado, a inflação acumulada em 12 meses deve bater 7,8% no segundo trimestre do ano.

“Esse valor é particularmente afetado pelo efeito-base decorrente do forte movimento de preços ocorrido em meados de 2020. No segundo trimestre de 2021, a inflação acumulada em quatro trimestres não considera mais a deflação do segundo trimestre de 2020, mas incorpora ainda a recuperação do trimestre seguinte. A inflação projetada se reduz nos trimestres seguintes, terminando 2021 em 5,0%, 1,25 p.p. acima da meta, dentro do intervalo de tolerância”, projeta o RTI.

O BC ainda projeta uma queda da inflação em 2022, para 3,5%. A projeção se mantém em 2023, quando a meta de inflação é de 3,25%. “A inflação projetada para 2023 é levemente superior à meta devido à hipótese de juros neutro e à taxa Selic utilizadas no cenário”, explica o BC.

Vicente Nunes