A RECESSÃO DE DILMA

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O governo já absorveu a possibilidade de haver queda do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. Ainda que, na mensagem enviada ao Congresso, a presidente Dilma Rousseff tenha assegurado que o país não entrará em recessão, quase todos que transitam no entorno dela têm a clara noção de que não haverá escapatória para o país, diante do tamanho do ajuste necessário para arrumar a casa em 2015.

O grande temor é com 2016. Ninguém, nem no governo nem no setor privado, se arrisca a dizer que o Brasil, depois de todo o sofrimento que está a caminho, terá condições de crescer a um ritmo anual entre 2% e 2,5%. A ansiedade é grande. Caso se tenha mais um ano perdido, a perspectiva é de fortes ruídos na economia, a começar pelos questionamentos sobre a permanência de Joaquim Levy à frente do Ministério da Fazenda.

“A despeito dos bons sinais emitidos pela atual equipe econômica, a confiança do empresariado não voltou”, afirma um técnico do governo. Ele admite que há muita incerteza no horizonte, a começar pelo risco de racionamento de energia elétrica e de água. Dependendo do tamanho da economia de eletricidade que o país será obrigado a fazer e do impacto da falta de água em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais — os três maiores polos industriais do país —, o baque na atividade será forte e prolongado o suficiente para adiar a desejada recuperação do PIB.

Esse quadro assustador está tão presente no governo e no mercado, que ninguém descarta a possibilidade de o Banco Central se antecipar e voltar a cortar a taxa básica de juros (Selic) antes do fim deste ano. “Realmente, é um quadro extremo, que não podemos descartar”, frisa um técnico da autoridade monetária. “Vamos esperar para ver se realmente o governo terá coragem de decretar o racionamento de energia. Tudo caminha para isso”, acrescenta.

Por ora, os prognósticos do BC indicam aumento de 0,25 ponto percentual na Selic em março próximo, para 12,50%. Será a resposta à disparada da inflação neste início de ano. A ideia é manter os juros inalterados pelo menos até dezembro, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) poderá se sentir mais confortável no sentido de dar um alívio à economia, caso a carestia esteja caminhando para o centro da meta, de 4,5%. “Esse é o quadro atual. Mas tudo pode mudar se o pior acontecer”, diz um assessor do Palácio do Planalto.

Os mais otimistas do governo — que são poucos, ressalte-se —, acreditam que 2016 será o “grande ano da virada”. Alegam que não há como o PIB não crescer pelo menos 2%, pois a base de comparação será muito baixa. Preveem, ainda, que o dólar mais alto, na casa dos R$ 3, estimulará as exportações e barateará o custo de produção, sobretudo da mão de obra. “Não temos dúvida de que ficará mais barato produzir no Brasil”, ressalta um desses técnicos mais confiantes. Para ele, com a recessão de 2015, a inflação vai despencar, já que os preços livres acompanharão a demanda mais fraca, não haverá mais tarifas públicas represadas e os serviços sentirão o baque do desemprego maior.

Tudo, no entanto, são apostas e desejos. A travessia de 2015 será muito difícil, e Dilma terá que, a todo momento, mesmo nas ocasiões mais difíceis, reafirmar a convicção de que seu compromisso com a austeridade fiscal e o combate à inflação é para valer. Na cabeça do empresariado e dos investidores, Levy, que simboliza a guinada no governo, será uma peça muito vulnerável no governo por um bom tempo. A desconfiança é culpa do histórico da presidente.

Complacência com a inflação

É assustador como o governo e os analistas de mercado têm falado com tanta naturalidade da inflação, que atingiu mais de 7% neste início do ano. Dizem que esse é o preço a se pagar por todos os erros cometidos por Dilma Rousseff desde que ela tomou posse em 2011. Não há uma só palavra de indignação. Um nível tão elevado do custo de vida deve pôr todos em alerta. Os sinais de descontrole são visíveis. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está em alta há cinco anos. Em 2015, não ficará, em nenhum mês, abaixo do limite de tolerância definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 6,5%. É inaceitável.

André Minella na diretoria do BC

» São fortes os rumores no mercado de que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, pode premiar André Minella e lhe dar uma diretoria na instituição. Técnico de carreira da autoridade monetária, ele é um dos responsáveis pelo Samba, modelo econômico usado pelo Copom para definir a taxa básica de juros.

Crédito às construtoras

» Os bancos continuam concedendo, mesmo que em menor quantidade, créditos às construtoras envolvidas na Operação Lava-Jato, que investiga corrupção na Petrobras. Apesar dos elevados riscos que as empresas oferecem, as instituições financeiras acreditam que suspender os repasses agora pode levar a uma quebradeira em série. As dívidas das empreiteiras com os bancos chegam a R$ 141 bilhões.

Problema político

» A avaliação dos bancos é de que a maior parte das construtoras sob suspeita têm excelentes ativos, que podem ser vendidos para quitar os financiamentos. Algumas instituições estão, inclusive, buscando potenciais compradores para os empreendimentos que possam reduzir os débitos das empreiteiras. “Sabemos que o problema das construtoras não é econômico, é político”, diz um executivo de um banco privado.

Comendo nas mãos de Cunha

» Ninguém no mercado financeiro consegue entender como o governo foi tão inábil na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados. Três ministros palacianos — Aloizio Mercadante, Miguel Rosseto e Pepe Vargas — foram de peito aberto para uma briga perdida. Agora, terão de comer nas mãos de Eduardo Cunha, o vencedor.

Brasília, 00h10min

Vicente Nunes