{"id":51,"date":"2020-02-25T18:06:16","date_gmt":"2020-02-25T21:06:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/thiagodearagao\/?p=51"},"modified":"2020-02-25T18:06:16","modified_gmt":"2020-02-25T21:06:16","slug":"coronavirus-a-licao-vem-da-italia-nao-da-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/thiagodearagao\/2020\/02\/25\/coronavirus-a-licao-vem-da-italia-nao-da-china\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus: A Li\u00e7\u00e3o vem da It\u00e1lia, n\u00e3o da China"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos 50 dias observamos com curiosidade e crescente preocupa\u00e7\u00e3o o avan\u00e7o do coronav\u00edrus \u2013 COVID19 &#8212; na China. Vimos a forma como o governo chin\u00eas vem sendo implac\u00e1vel na tentativa de conten\u00e7\u00e3o e, mesmo assim, n\u00e3o consegue frear a epidemia. At\u00e9 onde sabemos, 100 milh\u00f5es de pessoas foram colocadas em quarentena for\u00e7ada em suas casas. O tr\u00e2nsito de pessoas em zonas afetadas, principalmente na prov\u00edncia da Hubei, passou a ser estritamente controlado, f\u00e1bricas, com\u00e9rcio e escolas foram fechados, e , ap\u00f3s ensaiarem uma abertura, foram obrigados novamente a fechar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A China, por conta do seu regime pol\u00edtico de governo, pode impor regras \u00e0 popula\u00e7\u00e3o como nenhuma democracia do Ocidente teria condi\u00e7\u00f5es de faz\u00ea-lo. For\u00e7ar indiv\u00edduos \u00e0 interna\u00e7\u00e3o, impor quarentenas em vilas e cidades inteiras s\u00e3o provid\u00eancias que seriam invi\u00e1veis na Europa, Am\u00e9rica do Norte e em parte da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo o que estamos aprendendo sobre a forma de lidar com o v\u00edrus estava sendo derivado do modus operandi chin\u00eas. Na \u00faltima semana, assistimos ao avan\u00e7o do v\u00edrus na Coreia do Sul e no Jap\u00e3o. Nesses dois pa\u00edses, erros cruciais foram cometidos pelo fato de que como governos democratas que s\u00e3o, esses pa\u00edses n\u00e3o adotam a coer\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a como forma de conten\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sabemos que a China possui dois modelos de desenvolvimento regional. O litoral \u00e9 rico, cosmopolita e mais internacionalizado. A infraestrutura \u00e9 boa e a oferta de hospitais, acima do sugerido pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. O interior do pa\u00eds \u00e9 menos desenvolvido, possui ilhas de urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada, menos contato com o mundo exterior e, naturalmente, menos infraestrutura. A Prov\u00edncia de Hubei, onde o surto come\u00e7ou, ainda tem (apesar da constru\u00e7\u00e3o acelerada de hospitais) menos leitos dispon\u00edveis do que a maioria das cidades litor\u00e2neas. Por conta da falta de capacidade de tratamento, defici\u00eancia na oferta de kits de detec\u00e7\u00e3o, o surto cresceu violentamente em Hubei. Mesmo com todo o esfor\u00e7o e m\u00e9todos espec\u00edficos para impedir uma dissemina\u00e7\u00e3o maior do COVID19.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa semana o mundo foi surpreendido com o crescimento r\u00e1pido e surpreendente da doen\u00e7a em Mil\u00e3o, principal cidade industrial italiana. At\u00e9 o momento em que escrevo, 283 casos e 7 mortes forma confirmadas na It\u00e1lia. M\u00e1scaras j\u00e1 est\u00e3o em falta na maioria das cidades. O carnaval de Veneza foi cancelado e voltou a ser confirmado, ap\u00f3s press\u00e3o das autoridades e comerciantes locais. Por\u00e9m, os \u00faltimos dois dias da festa acabaram cancelados.<br \/>\nA It\u00e1lia possui pouco mais de 3 leitos hospitalares por mil habitantes, segundo a OCDE.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse n\u00famero \u00e9 inferior ao da China e similar aos n\u00fameros da regi\u00e3o de Hubei. Mesmo com um sistema p\u00fablico de sa\u00fade mais desenvolvido que o brasileiro, estima-se que a capacidade seja inferior \u00e0 demanda caso o v\u00edrus ganhe propor\u00e7\u00f5es amplas e cont\u00ednuas. Assim como no Brasil, a It\u00e1lia possui regi\u00f5es altamente desenvolvidas (que mesmo assim apresentam dificuldades de organiza\u00e7\u00e3o ) e zonas com graves problemas sociais, onde as dificuldades descritas acima s\u00e3o acentuadas. No Brasil, o n\u00famero de leitos por mil habitantes \u00e9 metade do dispon\u00edvel em Hubei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, o governo italiano determinou uma quarentena em 12 cidades, afetando a entrada e a sa\u00edda de 100 mil pessoas dessas cidades. A manuten\u00e7\u00e3o da quarentena por semanas seguidas ser\u00e1 o grande desafio ocidental. A forma como os italianos ir\u00e3o tratar dos contaminados e dos suspeitos ser\u00e1 imensamente mais educativa para o Brasil. A China n\u00e3o poderia ser par\u00e2metro de combate ao v\u00edrus para nosso pa\u00eds, j\u00e1 a It\u00e1lia, sim, e isso nos dir\u00e1 muito sobre nossa capacidade de organiza\u00e7\u00e3o preventiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enxergamos ainda um problema inverso ao demonstrado na China. H\u00e1 relatos de in\u00fameros cidad\u00e3os chineses receosos de apresentar sintomas perto de autoridades para n\u00e3o serem internados compulsoriamente, o que ajudou na propaga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. J\u00e1 na It\u00e1lia e em outras democracias ocidentais, o efeito pode ser o contr\u00e1rio. In\u00fameros cidad\u00e3os com o menor dos sintomas (ou sem nenhum sintoma) ir\u00e3o apresentar-se em hospitais, criando um potencial caos de gest\u00e3o hospitalar. No caso do Brasil, onde a dificuldade do SUS em tratar o fluxo normal de pacientes j\u00e1 \u00e9 alta, imaginemos uma situa\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico por eventual contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O governo italiano cancelou v\u00e1rios eventos p\u00fablicos em todo o pa\u00eds. Mesmo afetando a economia, poder\u00e1 chegar um momento no qual governos latino-americanos ter\u00e3o de tomar atitudes semelhantes. O pa\u00eds tamb\u00e9m est\u00e1 aplicando multas pesadas a qualquer pessoa que entre em \u00e1reas restritas da cidade sem nenhuma necessidade urgente. V\u00e1rios trens para pa\u00edses fronteiri\u00e7os est\u00e3o sendo suspensos. Escolas e lojas cerraram portas, somente farm\u00e1cias permanecem abertas. Em supermercados de Castalpuserlengo, controles est\u00e3o sendo colocados para que seja permitida a entrada de grupos de 40 pessoas de cada vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vamos aprender com os erros cometidos: o Jap\u00e3o admitiu que errou ao liberar algumas pessoas do cruzeiro Diamond Princess sem o devido controle. Na It\u00e1lia e em toda a Am\u00e9rica Latina poucos pa\u00edses fizeram estoques nos \u00faltimos 50 dias, apesar de serem bombardeados todos os dias com imagens e not\u00edcias do que ocorria na China. Al\u00e9m de erros, campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o confundem pessoas e aumentam o potencial de p\u00e2nico. No Peru, por exemplo, jornais e governo precisaram explicar que o coronav\u00edrus n\u00e3o pode ser evitado apenas com alho ou, pasmem, coca\u00edna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o da Embaixada brasileira em Roma e do Consulado em Mil\u00e3o passa a ser estrat\u00e9gica para o Brasil aprender com os acertos italianos e corrigir a tempo procedimentos equivocados. Erros estruturais, como hospitais p\u00fablicos sem condi\u00e7\u00f5es, esses n\u00e3o ser\u00e3o corrigidos t\u00e3o cedo. Infelizmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Twitter: @ThiagoGdeAragao<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos 50 dias observamos com curiosidade e crescente preocupa\u00e7\u00e3o o avan\u00e7o do coronav\u00edrus \u2013 COVID19 &#8212; na China. Vimos a forma como o governo chin\u00eas vem sendo implac\u00e1vel na tentativa de conten\u00e7\u00e3o e, mesmo assim, n\u00e3o consegue frear a epidemia. 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